CARTA DE BRAGA – “do tempo e do consolo” por António Oliveira

Estes tempos não são daqueles que a gente se possa orgulhar muito, tanto dos outros como de nós mesmos! Assistimos –vemos ouvimos e lemos– como, em todo o lado, se procura –de qualquer maneira!– tomar, manter ou prolongar a prática, o usufruto e os benefícios do poder, deixando ou arredando valores e princípios que poderiam legitimar tais objectivos. 

Os modelos podem assinalar-se em todos os continentes, desde o Afeganistão, à Ucrânia, ao boçalnaristão, a Salvador, ao Sudão e sei lá quantos mais –poderá cada um acrescentar mais alguns, de acordo com as suas memórias ou com as suas leituras– para poderem também aumentar esta parca lista, com outras terras e nomes, que representarão a ausência de sentido que, tais acções, põem a descoberto os desvarios do ser humano. 

A vida não é só ver ou só ler, mas também é rever e reler, por só assim se poderem reviver, os livros e as acções que nos ‘abriram’ olhos e cabeça, para o surpreendente mundo do homem, mesmo que o ‘rever’ ou o ‘reler’ não nos devolvam a surpresa e a magia, ou a revolta e o espanto das primeiras vezes, pela repetição das mesmas incoerências, ou pela evolução do nosso conhecimento, ou mesmo da nossa idade. 

Há gente que não aceita o facto de a criação nos fazer vulneráveis e nos tornar interdependentes, tanto do próximo como da natureza, aquelas coisas bem simples que os nossos ‘antigos’ tinham sempre presentes e que, de algum modo, fomos esquecendo e perdendo, pelas ‘urgências’ que a vida hoje nos impõe.

Mas são tempos em que temos de seguir em frente, para continuar tudo aquilo que começámos, mesmo sem poder escrutinar muito bem qual o destino, os escolhos e o resto do caminho, o significado da cada viagem, mas pedindo sempre que o sol continue a brilhar, para não se perder a coragem do andar, nem esquecer todos aqueles que, de algum modo, podemos e devemos cuidar. 

Não é uma atenção de direcção única, pois todos podemos, como devemos, cuidar e tratar, da mesma maneira que precisamos de ser cuidados e acompanhados, por pertencermos a uma comunidade –maior ou menor-, por lhe sermos e nos serem importantes, bem como corresponsáveis pelo bem-estar conjunto. 

É esse o caminho da autenticidade, diz Gilles Lipovetsky, ‘Uma autenticidade decorrente da luta interior, generosa e heróica, que se coloca ao serviço dos outros, que nada tem a ver com a selfie narcisista, ou uma autoajuda banal, mas a tragédia de uma luta que dura a vida inteira. Só se chega a tal autenticidade, quando se vence a si próprio’. 

Uma vitória que pode estar representada pela ‘estória’ que nos conta ter Paulo de Tarso caído do cavalo, no caminho de Damasco e, por isso, se ter convertido no verdadeiro fundador da Igreja de Cristo. O filósofo Santiago Alba Rico pergunta-se, ‘Por acaso sabemos quantos mais, antes e depois dele, caíram nesse mesmo caminho? Talvez tenham sido dezenas os que caíram, sacudiram a roupa e retomaram a marcha, sem nada lhes ter ficado na memória!

Mas todas as estórias de coisas ‘pequenas’ podem esconder um ‘momento da verdade’ como aquele, o que sempre transforma as vidas normais, mas momentos que, por serem tão pequenos, se desprezam e cuja importância acaba por se perder, devido às urgências que nos marcam a existência. 

Esta civilização impõe uma gestão a partir da contagem do tempo linear, com um segundo a seguir a outro segundo, que até nos ajuda a ter uma ideia do que fazemos, mas nunca do que na realidade somos. 

Talvez esta pequena conclusão também nos leve a Manolo Garcia, um cantor cuja música é uma mistura de pop, rock, flamenco e música árabe, a perguntar e a responder-se, conformado, ‘Tem remédio o ser humano? Não sei. O que temos é consolo!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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