A GALIZA COMO TAREFA – ler – Ernesto V. Souza

Um debate ou anotação recorrente é o tópico da gente miúda e nova não ler. Acompanhado por vezes da lamentação de que a gente adulta não lê também muito ou apenas lê coisas ligeiras. Não sei se já ouviram dizer.

Mas isto de criticar que a gente não lê, ou lê pouco e mal, que não gosta nem aproveita ou conhece os grandes clássicos e os autores do passado, leva acontecendo séculos. Roma, a China, os sábios dos orientes, os padres da igreja e os humanistas testemunham entre graves e jocosos. Nem houve que aguardar à alfabetização quase universal nas sociedades, nem mesmo à aparição do livro de massas ou à imprensa. E também não ao perigo tecnológico à espreita sempre; e mais a partir a aparição do cinema, a rádio, a televisão, os computadores, as consolas, os jogos, o telemóvel e o que vier – qualquer coisa espantosa – mais adiante.

A gente não lê. E as crianças menos. Não têm hábito, disque. Depois também há quem muito lê jornais, revistas, papéis soltos e quem apenas lê coisas na moda. E há quem lê muito num género ou por extenso mas apenas numa única língua.

Predomina a ideia de que ler é um hábito. E um hábito saudável, como comer na verdura ou fazer alguma atividade desportiva. Mas é um hábito? um efeito da educação escolar? um costume familiar? Por séculos e há três ou quatro milénios no máximo é claro que foi uma especialização, uma arte restringida ou saber oculto associada a registos, cerimónias, contabilidades, genealogias e história, um conhecimento restrito a uma minoria.

Com a imprensa foi que a escrita apareceu associada ao entretenimento, ao prazer, ao vagar, ao riso, à fantasia, ao consumo privado. Que se transformou esse saber de letra maiúscula, de teologias, medicina, agricultura, história, leis e erudições, da música e cantiga solene, da épica à letra miúda. Foi que se inventou a “literatura”. Depois a prosa foi a prosa e o romance o esqueleto da cultura, da nação. Com a alfabetização maciça, com o público e a grande produção de material impresso e hoje digital, converteu-se numa habilidade relativamente comum.

Mas há muitos países sem alfabetização plena e mais que houve antes e durante o último século. Não há que ir mui longe, é esmar no tempo de pais e avôs. Largas massas de população viveram por séculos alheias à escrita e à leitura, conservadas, desempenhando-se na memória e na oralidade e traçando matemáticas funcionais em riscos, marcas, e codificações representativas diversas.

E que grande o contraste entre as culturas filhas da Reforma e as da tradição Católica. A livre leitura e interpretação da Bíblia, com leitura e debate em família, da que emergem os direitos para consulta dos arquivos e registos públicos, as bibliotecas, a imprensa de massas, a exegese académica aplicada à letra profana.

E livros? nunca tantos se editaram, compraram e leram dos anos 70 até hoje. Livros nas casas e bibliotecas familiares já não são excecionalidades, sebos e alfarrabistas testemunham que a leitura e os livros multiplicaram-se, que ler já não é habilidade incomum ou especialidade.

Daquela o que se passa? por que esse terror a que as gerações não leem ou cada vez menos ou pior? escalou o tópico dos eruditos e humanistas aos jornalistas e educadores? A gente lê pouco? não, na realidade lê como nunca antes leu. Até de feito os computadores e Internet fizeram que se multiplicasse a leitura e a escrita de diário. Já não há que ser Cícero. Agora quem mais ou quem menos escreve epístolas familiares e há quem leve escrito de blogue ou no Facebook mais que o Padre Feijóo no seu Theatro.

No interregno, entre os escribas, tabeliões, sacerdotes, humanistas e eruditos das luzes é talvez onde se pode entender mais que a leitura tem a ver com a escritura, com uma preparação, habilidade, especialização incomum.

A gente hoje lê. Mas verdadeiramente lê com os limites da formação, da preparação, do domínio da língua em que se codifiquem os textos. Pois a escrita, como a língua não é apenas gramática e regras, é estilística, tradição, referencias, camadas que cumpre desvendar. Lê-se uma língua escrita ou várias. Mas nem toda leitura é simples e plana. Há quem pode ler best-sellers, divulgação ou ensaio académico, até em várias línguas, em quantidade e a velocidades, mas fica estacado ante poesia ou livros doutro tempo ou geração.

Por mui leitores que sejamos do hoje, por muita cultura geral ou sabedoria até que tenhamos, mesmo com umas competências básicas ou avançadas de leitura e escrita, não podemos ler sem mais noutras línguas, noutras épocas, noutros hábitos e culturas de escrita. Mesmo sabendo as línguas, não podemos ler toda literatura inglesa, francesa, em hebreu, latim ou grego, nem textos medievais, renascentistas, barrocos ou da Belle époque na própria língua.

Para mergulhar noutro tipo de leitura diferente das que fomos treinados, continua a ser precisa especialização, adquirir um conhecimento mais profundo ou completo das línguas, dos estilos, um interesse pelas estruturas, as tradições, os jeitos e caraterísticas próprias, de períodos, autores. E está a natureza, a gente que se dá bem quase de natural, e a que traz da casa uma herança; mas qualquer especialização exige uma formação, uma adquirição de competência, automatismos, uma prática.

Enfim, uma coisa é a alfabetização, outra a literatura.

 

 

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