Dê-se uma chance à paz, dê-se sentido de vida a este nosso mundo — Texto 2. Os Estados Unidos contam fazer a guerra “até ao último ucraniano”. Por Politicoboy

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

18 m de leitura

 

“Tivemos em pouco tempo uma sequência abreviada da história que antecede o Juízo Final: mergulhámos no inferno do aquecimento da Terra, (à medida de uma escala macro) enfrentámos a catástrofe sanitária  provocada pelo vírus (descemos então para a escala micro) e despertámos para o apocalipse sem Reino da ameaça nuclear ( sintonizando-nos com a medida humana, demasiado humana)”

(…)

“Quando todas as informações e comentários redundam em exclamações, indignações e interjeições  percebemos que a escalada não é apenas a da guerra, é também a da idiotice”

António Guerreiro, Público, 13 de maio de 2022

 

Texto 2. Os Estados Unidos contam fazer a guerra “até ao último ucraniano“

Por Politicoboy

Publicado por  em 5 de Maio de 2022 (original aqui )

 

© Aymeric Chouquet pour Le Vent Se Lève

 

Vladimir Putin é inteiramente responsável pela guerra que iniciou na Ucrânia e terá de responder por acusações de crimes de guerra. Mas a abordagem dos EUA não oferece perspetivas de uma saída para a crise – bem pelo contrário. Desde o início do conflito, os EUA têm-se recusado a participar nas conversações de paz. Depois de ter fechado a porta a negociações que poderiam ter evitado o conflito, rapidamente adotou uma política de enfraquecimento da Rússia, com o objetivo dissimulado de derrubar o regime de Putin. Um objetivo que exige uma escalada do conflito, com o risco de provocar uma escalada nuclear em que os ucranianos seriam as primeiras vítimas. Entretanto, o envolvimento militar dos EUA está a tornar-se cada vez mais direto, enquanto a perspetiva de um acordo de paz se está a tornar cada vez mais remota.

 

A violência da invasão russa chocou a opinião pública ocidental. Para além da escala do ataque inicial, há os saques e violações generalizados, os massacres em Butcha, os alvos das infraestruturas e dos edifícios civis. Bombas a cair sobre hospitais e escolas. Cidades transformadas em montes de ruínas onde se acumulam dezenas de milhares de civis famintos. O êxodo de 7 milhões de refugiados. Dezenas de milhares de mortos em ambos os lados da linha da frente.

A solução foi resumida por Hillary Clinton numa entrevista tragicómica: transformar a Ucrânia num novo Afeganistão para os russos, armando uma insurreição.

 

O Tribunal de Nuremberga, no julgamento das atrocidades cometidas pelos dignitários nazis, considerou que a agressão de uma nação constitui o “supremo crime internacional” porque “contém todos os outros”. Como tal, a invasão e as operações levadas a cabo pelos militares russos são consideradas por muitos observadores como sendo um crime de guerra. Perante os horrores perpetrados na Ucrânia, a perspetiva de uma resolução negociada do conflito pode parecer insuportável. Mas a menos que queira arriscar uma guerra aberta com a Rússia, a segunda maior potência nuclear do mundo, mais cedo ou mais tarde o Ocidente terá de assinar um acordo de paz com Moscovo. Contudo, a política dos Estados Unidos, já criticada pela sua falta de determinação em evitar o conflito, não parece oferecer uma saída pacífica para a crise.

 

UMA GUERRA INEVITÁVEL?

Segundo os serviços secretos norte-americanos, Vladimir Putin tomou a decisão de invadir a Ucrânia no último momento. Apesar dos destacamentos massivos  de tropas russas na fronteira ucraniana e das ameaças de ultimato, a invasão era potencialmente evitável, de acordo com vários funcionários dos serviços secretos norte-americanos citados por The Intercept [1].

A Rússia tinha apresentado as suas condições em várias ocasiões. Em particular, que a NATO renuncie a integrar a Ucrânia e retire as suas armas ofensivas colocadas na fronteira russa. A administração Biden recusou-se a negociar seriamente, fechando a porta a uma resolução diplomática da crise. No entanto, ao afirmar que os Estados Unidos não participariam num possível conflito – o que acabou por ser falso – e ao evacuar todo o seu pessoal administrativo, a Casa Branca encorajou potencialmente o presidente russo a invadir a Ucrânia. Pelo menos é disso que a sua oposição e alguma da imprensa americana o acusaram.

Independentemente do que se possa pensar das exigências russas sob a forma de um ultimato, a abordagem dos EUA na Ucrânia parece dificilmente defensável.

Desde a queda da URSS, muitos peritos e diplomatas americanos advertiram que a expansão da NATO poderia conduzir a conflitos. Robert McNamara e Henry Kissinger, os dois principais arquitetos da política externa dos EUA na segunda metade do século XX, advertiram publicamente e por escrito que a integração da Ucrânia na NATO seria um grave erro. O primeiro em 1997, o segundo em 1997 e 2014.

George F. Kennan, o chefe da estratégia dos EUA no final da Guerra Fria, também alertou já em 1997, numa carta dirigida ao Presidente Bill Clinton e assinada por cinquenta diplomatas e antigos altos funcionários dos EUA: “A expansão da NATO, por iniciativa dos Estados Unidos, é um erro político de proporções históricas”. Em 2008, o antigo embaixador americano na Rússia e agora diretor da CIA, William Burns, multiplicou os seus avisos. Em particular, escreveu um telegrama diplomático à administração Bush: “A entrada da Ucrânia na NATO é a mais vermelha das linhas vermelhas para a elite russa, não apenas para Putin”.

Para Fionna Hill, reconhecida especialista sobre a Rússia de Putin e antiga conselheira dos Presidentes Bush e Obama, os serviços secretos norte-americanos consideraram em 2008 que “havia um risco sério e real de a Rússia conduzir um ataque preventivo, não limitado à anexação da Crimeia, mas uma grande operação militar contra a Ucrânia” se a política da NATO de expansão para as fronteiras da Rússia continuasse.

Perante os acontecimentos de 2014, Obama recusou-se a entregar armamento moderno à Ucrânia, citando o seu receio de que “aumentasse a intensidade do conflito” e “desse a Putin um pretexto para invadir a Ucrânia”. Com Trump no poder, Washington mudou a sua posição. Os EUA têm vindo a armar e a treinar o exército ucraniano para combater uma “guerra por procuração” contra a Rússia, nas palavras de um alto funcionário da administração Trump. Esta mudança de linha está de acordo com as promessas de dois senadores republicanos neoconservadores, que declararam em 2017 na televisão ucraniana: “Estamos convosco, esta luta é a nossa luta, e vamos vencê-la juntos”.

Os esforços dos EUA acabaram por convencer o Kremlin de que o objetivo de Washington era “preparar o terreno para um derrube do regime na Rússia”, advertiu um relatório dos serviços secretos dos EUA de 2017. Em Janeiro de 2020, na abertura do processo de destituição de Donald Trump, o democrata e jurado Adam Schiff disse ao Congresso: “Os Estados Unidos estão a armar a Ucrânia e a ajudar o seu povo para que possamos lutar contra a Rússia na Ucrânia e não termos de o fazer aqui [em Washington]”.

A 8 de Junho de 2021, a administração Biden declarou, através de Anthony Blinken, o Secretário de Estado, numa audiência do Congresso: “Apoiamos a entrada da Ucrânia na NATO . (…) Na nossa opinião, a Ucrânia tem todas as ferramentas necessárias para continuar nessa direção. Estamos a trabalhar com eles diariamente”. Uma declaração retomada por sua vez por Volodymyr Zelensky, anunciando triunfantemente a iminente entrada da Ucrânia na NATO :

 

Apesar dos apelos russos para uma desescalada, Washington continuou a sua guerra por procuração com a Rússia na Ucrânia. A 10 de Novembro de 2021, foi assinado um acordo oficial por Anthony Blinken e o seu homólogo ucraniano Dmytro Kuleba, no qual os Estados Unidos explicitam a sua posição e se comprometem, entre outras coisas, a defender a Ucrânia contra a Rússia; fornecer-lhe armas, peritos e formação; acelerar as suas capacidades de interoperabilidade com as forças da NATO através de transferências de tecnologia e manobras militares regulares; e estabelecer uma cooperação reforçada nos domínios da inteligência e da segurança cibernética. O acordo retoma os termos detalhados numa declaração conjunta emitida a 1 de Setembro, formalizando uma linha política descrita pelo muito conservador The American Conservative como “potencialmente muito perigosa“.

No entanto, a Casa Branca tinha dito a Zelensky que “a Ucrânia não vai aderir à NATO mas publicamente mantemos a porta aberta”, como o presidente ucraniano explicou recentemente na CNN. Os americanos jogaram assim um jogo duplo: perante os russos, recusaram-se a reconhecer o facto de que a Ucrânia não seria integrada na NATO ao mesmo tempo que multiplicaram os atos que indicavam que esta adesão era iminente. Mas quando confrontados com Zelensky, reconheceram que este projeto não tinha qualquer hipótese de sucesso.

Tudo indica que a administração Biden preferiu arriscar uma invasão da Ucrânia em vez de perder a face ao ceder na questão da adesão da Ucrânia à NATO. Negociar com Moscovo não teria necessariamente evitado um conflito. Mas se se quer paz, faz sentido esgotar todas as vias.

Do outro lado do Atlântico, o debate é quase exclusivamente sobre o grau de envolvimento dos EUA na Ucrânia. Dezenas de editorialistas pagos pela indústria de armamento exigiram uma zona de interdição de voo – mesmo que isso signifique um conflito nuclear.

 

Antes da invasão, um dos principais argumentos apresentados pelos defensores de uma linha firme contra Putin era o princípio do direito dos povos à autodeterminação. Independentemente do facto de os EUA violarem este princípio a toda a hora – através das suas próprias sanções, matando à fome a população afegã ou apoiando militarmente a Arábia Saudita nos seus múltiplos crimes de guerra no Iémen – aderir a uma aliança militar não é um direito fundamental.

Nunca saberemos se a via diplomática poderia ter impedido a invasão russa. Mas é evidente que, do ponto de vista de Washington, ainda não chegou o momento de negociações.

 

“COMBATER A RÚSSIA ATÉ AO ÚLTIMO UCRANIANO”

A posição oficial dos EUA foi clarificada pelo Conselheiro Especial de Segurança Jake Sullivan numa entrevista com a NBC a 10 de Abril: “O que queremos é uma Ucrânia livre e independente, uma Rússia enfraquecida e isolada, e um Ocidente mais forte, unido e determinado. Acreditamos que estes três objetivos são realizáveis e estão ao nosso alcance”.

Numa viagem a Kiev a 25 de Abril, o Secretário de Defesa norte-americano Lyod Austin confirmou esta linha, dizendo: “Queremos que a Rússia seja enfraquecida, incapaz de reconstruir o seu exército”. Uma posição que o New York Times descreveu como “mais arrojada” do que a estrita defesa da Ucrânia apresentada até agora. Não se trata de um processo de paz, nem de uma simples defesa do território ucraniano, mas sim da destruição do aparelho militar russo. Isto implica a continuação do conflito. A 30 de Abril, durante uma visita oficial a Kiev, a Presidente da Câmara dos Representantes o terceiro cargo mais elevado da nação americana Nancy Pelosi reafirmou o apoio americano à Ucrânia “até à vitória final”.

Para o ex-embaixador e diplomata americano Charles Freeman, esta linha política equivale a “lutar contra a Rússia até ao último ucraniano”. Como muitos analistas observaram, a resolução do conflito só pode assumir duas formas: a rendição incondicional de um beligerante, ou um acordo de paz que exigirá um compromisso pouco brilhante. Para Freeman, a Rússia não pode ser totalmente derrotada. Pode ainda declarar mobilização geral (oficialmente não está em guerra) ou recorrer a táticas e armas cada vez mais destrutivas para defender a Crimeia e os territórios do Donbass. As alternativas são a destruição completa da Ucrânia ou uma guerra sem fim.

Desde o início do conflito, os EUA têm-se recusado a participar diretamente nas conversações de paz. De acordo com o Financial Times, Putin estava aberto a um acordo, mas mudou a sua posição durante o mês de Abril. Inicialmente, a abordagem de Washington baseava-se no pressuposto de que o exército russo iria mais cedo ou mais tarde assumir o controlo da área. A solução foi resumida por Hillary Clinton numa entrevista tragicómica: transformar a Ucrânia num novo Afeganistão para os russos, armando uma insurreição.

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Uma estratégia que tinha provado o seu valor durante o primeiro conflito afegão, segundo a antiga Ministra dos Negócios Estrangeiros, que apenas mencionou algumas “consequências indesejáveis” – a saber, mais de um milhão de civis afegãos mortos entre 1979 e 1989, os ataques de 11 de Setembro de 2001 e depois vinte anos de guerra no Afeganistão.

O Presidente Zelensky assume uma linha mais matizada, referindo-se frequentemente a negociações para um acordo de paz. Enquanto apela a um maior envolvimento militar ocidental e a sanções económicas mais fortes, tem mencionado repetidamente que é a favor de um estatuto neutro para a Ucrânia, reconhece que a Crimeia não fará parte das conversações e permanece aberto a uma solução negociada no Donbass. A sua posição irá necessariamente evoluir com a situação militar no terreno, mas a perspetiva de um acordo de paz ainda faz parte do seu discurso.

Para a administração Biden, por outro lado, o objetivo é provocar uma mudança de regime em Moscovo, potencialmente seguida pela apresentação de Vladimir Putin perante o Tribunal de Haia por crimes de guerra.

“A única saída agora é o fim do regime de Putin”, disse um alto funcionário da administração Biden à Bloomberg News. Boris Johnson, o Primeiro-Ministro britânico, totalmente alinhado com Washington, confirmou esta linha, dizendo que a estratégia ocidental tinha por objetivo “provocar o colapso do regime de Putin”. Ele fez eco do Ministro da Defesa britânico, para quem “o seu fracasso deve ser total (…) os dias de Putin serão contados, ele perderá o poder e não poderá escolher o seu sucessor”. Estas declarações somam-se às palavras do próprio Joe Biden, acusando Putin de cometer genocídio e evocando a impossibilidade da sua permanência no poder.

De facto, os EUA recusam-se a oferecer a Putin uma saída – forçando-o a escolher entre prolongar a guerra a qualquer custo ou a vida na prisão! As vozes contra a estratégia de Joe Biden são raras no outro lado do Atlântico. O debate limita-se quase exclusivamente à questão do grau de envolvimento dos EUA na Ucrânia. A imprensa e dezenas de redatores pagos pela indústria de armamento exigiram uma zona de interdição de voo – mesmo que isso signifique um conflito nuclear. Jen Psaki, a porta-voz da Casa Branca, ironizou sobre a quantidade de perguntas que estava a receber neste sentido. Mas quando questionada sobre as conversações de paz por um único repórter, ela confirmou que os EUA não estavam envolvidos nas conversações com a Rússia.

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OS FINS JUSTIFICAM OS MEIOS?

Como noticiado pela Associated Press, o prolongamento do conflito agrava o comportamento dos militares e aumenta o risco de crimes de guerra. Perante as atrocidades, a comunidade internacional continua dividida. Com exceção dos aliados da NATO , a maioria dos países optaram por permanecer neutros. Uma das razões para esta falta de mobilização é que os crimes russos permanecem comparáveis aos cometidos pelos Estados Unidos e seus aliados na história recente, argumenta Noam Chomsky.

Os EUA recusaram-se a assinar a Convenção de Genebra sobre armas químicas e bombas de fragmentação. Utilizou-os contra as populações civis no Iraque. Washington não reconhece o tribunal internacional de Haia. O Congresso até assinou uma lei que autorizava a invasão dos Países Baixos se os cidadãos americanos fossem forçados a comparecer perante este tribunal. Tal como os russos, os militares americanos têm deliberadamente visado edifícios civis.

O New York Times relatou recentemente que um estratega militar russo afirmou que “a Rússia aprendeu com a campanha da NATO na Sérvia que os fins justificam os meios”. Os múltiplos crimes de guerra cometidos pelo Ocidente nos Balcãs teriam encorajado a Rússia a adotar as táticas sangrentas observadas na Síria e na Ucrânia, de acordo com este estratega. Como lembrete, a NATO justificou não avisar os civis em áreas bombardeadas “para reduzir o risco para os nossos aviões”. Tony Blair considerou que o bombardeamento de edifícios da televisão pública e a morte de dezenas de técnicos eram “inteiramente justificados” porque “estes meios de comunicação fazem parte do aparelho de comunicação de Milosevic”.

Nestas condições, é difícil adotar uma postura moral suscetível de mobilizar toda a comunidade internacional. Se sancionar o regime de Putin e ajudar a Ucrânia parece justificado, mesmo aos olhos dos críticos de Biden, a forma como estas políticas são conduzidas levanta questões. Assim como a sua real eficácia.

As armas entregues à Ucrânia estão “a desaparecer num buraco negro gigante”, de acordo com funcionários superiores da administração Biden. A administração admite ser incapaz de saber para onde vão as armas e está consciente do risco de caírem nas mãos erradas: crime organizado, redes terroristas e organizações neonazis. Antes do início do conflito, a Ucrânia já era um regime considerado corrupto e autoritário, albergando o principal centro do tráfico internacional de armas.

Do mesmo modo, as sanções económicas reforçam o poder de Vladimir Putin mais do que o enfraquecem. Os oligarcas russos passam em grande parte através das malhas da rede – visá-los eficazmente exigiria meios que seriam perturbadores para os oligarcas ocidentais! Assim, as primeiras vítimas das sanções económicas continuam a ser as classes médias russas, que logicamente se aproximaram de Putin. Indiretamente, esta guerra económica afeta também as populações de outros países através da hiperinflação dos preços da energia e dos alimentos, ao ponto de provocar o início de uma recessão na Europa. Finalmente, o estatuto do dólar como moeda de reserva poderia sofrer com a política de Washington, de acordo com muitos economistas americanos próximos do governo.

Para além destas consequências indesejáveis, a estratégia americana apresenta um risco de escalada do conflito na Europa. Quer forçando a Rússia a recorrer a armas ou estratégias mais violentas, ou simplesmente por escalada militar nos teatros de operação. Estas perspetivas preocupam os peritos em risco nuclear e os estrategas europeus.

Os Estados Unidos desempenharam um papel decisivo no sucesso militar da Ucrânia logo desde o início do conflito. Fala-se agora em entregar armas mais avançadas à Ucrânia, potencialmente para levar a luta para território russo, como reconheceu o Ministro de Defesa britânico à BBC. Isto para além do destacamento de forças especiais ocidentais para a Ucrânia, a partilha de informação em bruto em tempo real e o treino de soldados ucranianos na Polónia e na Alemanha. Estes são esforços notavelmente eficazes na linha da frente, mas arriscam-se a complicar um futuro acordo de paz.

O New York Times revela assim uma forma de dissonância entre a estratégia oficial de Washington e o que os decisores admitem oficiosamente. Putin seria “um indivíduo racional” que procuraria evitar uma escalada do conflito na esperança de encontrar uma saída, o que explicaria o facto de “o exército russo estar a comportar-se de forma menos brutal do que o esperado”, de acordo com as autoridades ocidentais citadas pelo Times.

A posição oficial dos EUA pode mudar a favor de uma resolução pacífica do conflito, especialmente se o exército russo for derrotado em Donbass. Mas não há garantias de que tal humilhação seja aceite por Moscovo. Por enquanto, os EUA acreditam que a Rússia não irá ao ponto de utilizar armas nucleares, e está a agir em conformidade, empurrando a noção de uma guerra por procuração cada vez mais longe. Depois de pedir ao Congresso dos EUA mais 33 mil milhões de dólares para apoiar a Ucrânia, Joe Biden irá propor legislação para atrair os melhores cientistas russos para solo americano.

E aqueles que esperam usar esta invasão injustificável para se verem livres de Vladimir Putin? O próprio Joe Biden explicou que isso levaria tempo – pelo menos um ano. Milhares de vidas ucranianas seriam perdidas, e o aumento dos preços das mercadorias afetaria ainda mais duramente as populações expostas em todo o mundo. Tudo isto em busca de um objetivo – mudança de regime – cuja história macabra ainda está por ser totalmente escrita. Alguma vez tais operações conduziram a outra coisa que não fosse o estabelecimento de um Estado falhado? A perspetiva de uma nova Líbia ou Afeganistão, mas com 6.000 ogivas nucleares e dezenas de mísseis hipersónicos, dificilmente é tranquilizadora.

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Nota:

[1]  A informação é tanto mais credível quanto provém do jornalista de segurança e inteligência James Risen, que ganhou um prémio Pullitzer quando trabalhou para o New York Times pela sua investigação sobre a NSA.

 

 

 

 

 

 

 

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