A Guerra na Ucrânia — “A chamada “Guerra da Desgaste” inclina-se a favor da Rússia. E Kissinger sabe-o”. Por Martin Jay

Seleção e tradução de Francisco Tavares

8 m de leitura

A chamada “Guerra de Desgaste” inclina-se a favor da Rússia. E Kissinger sabe-o

 Por Martin Jay

Publicado por  em 5 de Junho de 2022 (original aqui)

 

Uma escassez iminente de trigo pode muito bem levar os países do MENA a revoltarem-se e direccionar para Bruxelas um novo nível de raiva e revolta por parte dos seus próprios membros.

Esqueça as armas e balas anti-tanque. Uma escassez iminente de trigo pode muito bem levar os países do MENA [Médio Oriente e Norte de África] à revolta e direccionar para Bruxelas um novo nível de raiva e revolta dos seus próprios membros.

À medida que os EUA se aproximam das críticas eleições de meio do mandato que poderão amortecer os esforços de política externa de Biden, a UE também em breve analisará a sua própria estratégia – em particular no que diz respeito à Ucrânia – a mais curto prazo, devido a uma série de factores que se perspectivam no horizonte e que os jornalistas confusos e mal informados não estão a abordar.

Um dos principais factores que constituirão um verdadeiro problema para a UE, foi recentemente insinuado pelo polémico ex-secretário de Estado Henry Kissinger no Fórum Económico Mundial. O estadista idoso irritou uma delegação ucraniana ao sugerir que poderia considerar ceder partes do país à Rússia, a fim de assegurar um acordo de paz antes que a guerra ali começasse a ter implicações muito mais pesadas em todo o mundo. Ele usou a palavra “agitação”, que é uma forma de insinuar diplomaticamente problemas políticos na região MENA, através das populações no Médio Oriente e países do Norte de África que se revoltam devido à fome. Muitos países do MENA importavam trigo para produzir pão – muitas vezes a um preço subsidiado – com o objectivo de ajudar as comunidades pobres. Não é claro como estes países irão enfrentar o facto de que o trigo ucraniano e russo deixe de lhes chegar, pois em lugares como Marrocos, onde vive o autor, o preço do grão triplicou, tornando mais difícil para os agricultores a sua compra. Se o governo não vai triplicar o preço do trigo colhido (improvável), então faz pouco sentido que os agricultores o comprem.

No caso de Marrocos, o défice terá de ser coberto pelo governo se este quiser manter o pão a um preço artificialmente baixo. Este custo terá, contudo, de ser transferido para alguém. Muito provavelmente, será a UE que será solicitada a ajudar. Mas uma coisa é Bruxelas ajudar Rabat com as suas tarefas domésticas. No entanto, a União Europeia poderá estar a enfrentar uma crise muito maior quando novos fluxos de imigrantes atingirem as suas costas, uma vez que novos níveis de pobreza alimentam níveis mais elevados dos que procuram desesperadamente uma vida melhor na UE.

O que Kissinger está a sugerir é que a chamada “guerra de desgaste” não funciona bem nem para a Ucrânia nem para o Ocidente. A inevitável partida da Rússia da esfera ocidental não será um bom augúrio para o Ocidente, tanto em termos de segurança como de comércio, e será mais difícil de inverter. Colocar o génio de volta na garrafa será de facto quase impossível se a guerra na Ucrânia continuar a drenar os cofres ocidentais e apresentar à UE novos fluxos de imigrantes da região do MENA. Muitos “especialistas” dos meios de comunicação ocidentais gostam de enganar os leitores, apresentando os factos num paradigma que é amigo do consumidor mas que, na realidade, é irrelevante para os factos no terreno que eles (os jornalistas) provavelmente se esforçam por compreender. A “guerra de desgaste” é, de facto, banalizada sem contexto (normalmente este tipo de guerras produzem-se quando ambas as partes estão estagnadas, o que não é de todo o caso na Ucrânia); em segundo lugar, nas últimas semanas vimos muitas referências aos “20 por cento” da Ucrânia ocupada pela Rússia. Este número, sem dúvida oferecido por Zelensky, tem sido utilizado repetidamente por correspondentes e editores da defesa em Londres como ponto de referência. Os peritos militares, mesmo os britânicos que apoiam a Ucrânia, consideram-no no entanto irrelevante. Então, porquê a cortina de fumo?

Uma série de factores, mas em grande parte que os jornalistas de hoje que cobrem tais acontecimentos históricos, tais como conflitos, não são do mesmo calibre daqueles de há vinte anos atrás. Diferentes níveis de inteligência, educação e um conjunto comprovadamente diferente de padrões jornalísticos. Em muitos casos, os nossos chamados correspondentes de defesa tornaram-se editorialistas. Eles opinam mais do que relatam.

O que não está a ser relatado ou oferecido como material editorial é a ideia de que o Ocidente simplesmente não pode permitir-se que a guerra na Ucrânia se prolongue por muito mais tempo. Se a UE não consegue sequer obter apoio para a sua própria directiva de proibição do petróleo russo – a única verdadeira sanção que terá um impacto financeiro para Moscovo – então como é que alguém no Ocidente imagina que a UE desempenha qualquer papel no conflito e é levada a sério?

Bruxelas continua a incitar Zelensky com esta narrativa de “luta até ao último homem”, enquanto claramente não consegue apoiar os seus próprios Estados membros com a calamidade que se aproxima se Kissinger estiver certo. Os países da UE simplesmente não conseguem lidar, política ou financeiramente, com a pressão de outro afluxo de refugiados de países árabes, tal como anteriormente com a Síria. Após o COVID, o factor de bem-estar dos seus cidadãos já não existe, substituído pela raiva e o desespero dirigido às elites políticas, simplesmente não é uma opção. Se tais influxos acontecessem, os efeitos de arrastamento seriam imediatos e colossais. A confiança minguante que muitos estados-membros ainda mantêm – ainda que seja como sinal de apoio à UE – converter-se-ia rapidamente num apontar do dedo e haveria que cortar as asas à UE como actor internacional.

Os líderes dos países do MENA devem agora também estar a ficar cépticos quanto à proibição do trigo e a perguntar-se se uma segunda Primavera árabe estará a caminho. Se a revolta começar a aparecer num país – como o Egipto, por exemplo, que importou 60% de todo o seu consumo de trigo da Ucrânia – então poderá ter um efeito de arrastamento para outros, exactamente da mesma forma que uma revolta na Tunísia em 2010 desencadeou o que foi vulgarmente chamado a “Primavera Árabe”. Sem dúvida que a unidade de propaganda multi-bilionária da Comissão Europeia já tem os comunicados de imprensa e discursos grandiosos preparados para desviar as culpas e apontar o dedo aos outros.

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O autor: Martin Jay é um premiado jornalista britânico baseado em Marrocos, onde é correspondente do The Daily Mail (Reino Unido), que anteriormente relatou a Primavera Árabe para a CNN, bem como para a Euronews. De 2012 a 2019 esteve baseado em Beirute onde trabalhou para uma série de títulos internacionais de media, incluindo BBC, Al Jazeera, RT, DW, bem como reportagens numa base freelance para o britânico Daily Mail, The Sunday Times mais TRT World. A sua carreira levou-o a trabalhar em quase 50 países em África, no Médio Oriente e na Europa para uma série de importantes títulos mediáticos. Viveu e trabalhou em Marrocos, Bélgica, Quénia e Líbano.

 

 

 

 

 

 

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