A luxúria, a avareza, a soberba, a ira, a gula, a inveja e a preguiça, são os males maiores ou as paixões do corpo e da alma, que a cultura e a tradição eclesiásticas, nos ensinaram a chamar ‘pecados capitais’; se pensarmos na pessoa comum, a que vai arrastando e os dias nas contas com os trocos para o pão, ou naquela outra que arriscando a vida se mete numa embarcação a cair de podre, para chegar à terra onde poderá pecar –quem lhes dera poder fazê-lo!– não os podermos dizer ‘capitais’ para todos, a não ser nas fortunas que teriam de gastar para terem uma refeição decente.
Podemos conviver razoavelmente com a avareza e a soberba, por aquela mesma pessoa –a comum, a mesma que se encontra na paragens dos transportes públicos– nada ter para mostrar ou se amparar, quando olha desgostosa para as razões de tais pecados; a inveja será mais difícil de controlar, ao pensar em todos os que deixou atrás, na procura de um futuro onde a dignidade seja uma qualidade, também a razão maior para o respeito que merece e merecem.
A gula e a luxúria talvez andem juntas, porque uma qualquer pessoa só não peca mais por não poder, por serem necessários um estômago bem treinado e uma companhia disponível e bem disposta; a preguiça também parece de controlo mais complicado, até por haver uma enorme lista das coisas que nos incomodam, desde os salários, ao ambiente, à quantidade de pessoas que só de as olhar apetece fugir –e não estou a falar de beleza!–, muito mais quando as encontramos em lugares de mando ou comando, a defender ideias que já foram história, ou princípios que há muito tempo esqueceram ou baniram a humildade, a generosidade, a compaixão e a caridade.
Na verdade, afirma-o também Guilherme d’Oliveira Martins, num DN de Abril último, ‘Uma celebração, qualquer que seja ela, centrada apenas no passado, torna-se vazia e inútil. A ação precisa de futuro e não de nostalgia. Não podemos responder às aspirações dos nossos filhos ou netos com as audácias dos nossos avós’ e, acrescento eu, mas devendo ainda considerar-se que nenhum povo pode viver, desenvolver-se e evoluir humanamente, se não conhecer verdadeiramente o seu passado, nem aprender com os seus erros, principalmente aqueles que puseram em risco ou lhe anularam a liberdade, o bem mais precioso de cada um.
E, até para nos podermos opor a toda a tragédia que esta lista de ‘pecados’ tem atrás, também temos de ter em conta que são muito poucos os que se arrogam soberbamente da sua prática –aquela que todos sabemos pelo espaço que ocupa nos media e redes sociais– há também um ‘conselho’ do poeta chileno Pablo Neruda, que não deveríamos esquecer nunca, ‘Fica proibido não sorrir dos problemas e não lutar pelos que querem abandonar, por medo de não tornar seus sonhos realidade’.
Einstein diz a mesma coisa de uma maneira mais directa e simples ‘O homem pode encontrar significado na vida, curta e perigosa como é, somente através do seu devotamento à sociedade’; talvez seja uma atitude a considerar, quando se sabe que entre três e cinco menores morrem todos os dias, na tentativa desesperada de alcançar solo europeu; uma catástrofe humanitária que ultrapassa as margens do Mediterrâneo, para se transformar num drama a exigir um compromisso universal; mas, apesar de tudo, é a própria Europa –que “frequentou” os territórios africanos durante séculos, com tudo o que tal “frequência” possa significar–, Europa que não tem o direito nem deve ter a faculdade de se afastar da resolução de tal problema.
Tudo isto parece e, se calhar, até é perfeito, mas se olharmos em qualquer direcção, cá ou nos ecrãs que nos mostram o mundo que querem, há uma enorme abundância de pobres, daqueles que não entendem o que é um pecado assim, dos chamados ‘capitais’; aliás e alguns dias, garantia irónico um cronista, que um pobre também não pode ir para o céu, –por nem haver lá, nenhuma maneira de o aguentar, por não haver lugar para tanto helicóptero privado, nem funcionários das instituições para lhes aguentar as trapaças, nem páginas nas revistas de moda para mostrar os carros de luxo e os casarões com piscina em forma de rim– e a ser assim, acrescento eu, os repórteres dos ‘manhas’ de todas as manhãs, passariam o dia atrás de algum flamante mendigo à porta de qualquer casino –para lhe perguntar que tal estava o último aperitivo com anchovas!–
E deste modo também, os pecados passariam a ser, algumas das alíneas a incluir nos testamentos, mas só dos tais, dos ‘capitais’, pois para os pobres de hoje, só se lhes contarem os sonhos e aparentemente, ainda não foi inventado um calculador para isso; mas a ver pela publicidade do senhor Zuckerberg, não deverá estar muito longe.
No entanto, é conveniente não esquecer, como afirma o padre e filósofo Anselmo Borges, num DN do princípio deste mês, ‘A exigência fundamental é: todo o ser humano deve ser tratado humanamente. Porquê? Todo o ser humano, sem distinção de sexo, idade, raça, classe, cor, língua, religião, ideias políticas, condição social, possui uma dignidade inviolável e inalienável’.
E onde vamos encostar então, aquelas paixões do corpo e da alma, aqueles males maiores da cristandade, os ditos pecados capitais?
António M. Oliveira
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