A GALIZA COMO TAREFA – tempo – Ernesto V. Souza

Apanhei na biblioteca pública, por acaso. Entrara matar tempo, numa espera imprevista, aí pertinho. Havia anos que não lia nada de Naguib Mahfouz. Um autor que tanto me deslumbrara na mocidade: quando o Nobel disparara as vendas, e a sua aparição nos catálogos das editoras espanholas, europeias, era celebrada nos suplementos culturais e TVs. Eram os anos de Khomeini, da primeira intifada palestiniana, dos talibãs já se descontrolando do papel encomendado, das fátuas; um nadinha antes e depois do escândalo Salman Rushdie e Os Versículos Satânicos.

Daquela lera algum dos livros deles, disponíveis em castelhano. Mahfouz, Rushdie e depois V. S. Naipaul. Aqueles dous impressionaram-me menos. Das obras mais famosas de Rushdie não terminei de gostar. Ou de entendê-las. Naipaul teve de ler em inglês, muitos anos depois, e após contextualização do Edward W. Said, para lhe apanhar o sabor e entender as minhas reticências. As narrativas de Mahfouz, sim me maravilhavam.

Sou pouco dado, acho que já perceberam, a ler a literatura na moda ou em destaque na atualidade. Desconfiava, e hoje mais, das recomendações da imprensa, a crítica e a academia. Daquela suponho que era por snobismo de intelectualzinho novo, hoje por estar mais precavido da história, da política internacional e da maquinaria mediática: a maior gloria dos impérios e do grande capital como religião e ideologia única.

Lembro-me, muito mais ingénuo, com as minhas camisas coloridas, suspensórios, ténis de lona e óculos extravagantes, a fins dos anos oitenta e primeiros noventa, na Crunha ou de passagem nas primeiras viagens por Madrid, lendo nas traduções em castelhano “El callejón de los milagros” e “Hijos de nuestro barrio”. Gostara muito deles, ou quando menos é a sensação que me ficou na memória.

Depois, em fins dos 90 já foi o seu atentado, que deixou chocado o mundo inteiro; o eco das censuras do islamismo mais radical, e com isto um revival da figura e obra. Depois, acho, que com todo o mundo árabe, sumiu no desinteresse ou no rejeitamento sistemático do Ocidente. Abandonado na agitada precipitação do “choque de civilizações” na passagem de milénio e arrastado na corrente de loucura atual de radicalismos e incompreensões que levaram ao ciclo de atentados, islamização, repressões e guerras absurdas com zénite na queda das Torres gémeas de NY.

É de desconfiar dos destaques da imprensa e prémios literários do “mundo livre”. Quando menos para repensar, de Pasternak a Rushdie. Mas acontece em toda a parte, dentro e fora, em lógicas e contextos de interesses de política internacional e nacionalismos. Logicamente, a pequena escala, acontece na Espanha e na Galiza. Mas aí não queria estender-me, e já estão Vico, Sarmiento, Hayden White, Homi K. Bhabha, ou o antedito E. W. Said, entre outros, para explicar melhor estes fenómenos.

Também em tradução castelhana de Isabel Hervás Jávega, “El café de Qúshtumar” devolveu-me o interesse pela prosa de Mahfouz e pelo mundo árabe. Pela história contemporânea do Egito, e pela desestruturação e aniquilação, do Levante a Bagdad, entre a fim do colonialismo e o presente, passando pelas Guerras Mundiais, a questão turca, Israel e a Guerra Fria.

As fases das vidas de Táher, Sádiq, Ismael y Hamada, que abrangem num mesmo bairro e cenário civil, as classes sociais mais diversas, as humanidades e as aspirações mais diferentes, em paralelo à cronologia histórica e social. A escola, o sexo, as famílias, os estudos, a prostituição, as vidas, o matrimónio, a religião, os sucessos e fracassos, a cultura, o álcool e o haxixe, a política, a literatura e as mulheres, numa tertúlia masculina desinterrompida por quase 70 anos, a mais dela no café. Levantada por um narrador que também faz parte dela sem falar nunca de si próprio, com o pano de fundo e simbolismos da história política e social do Egito, e traços da biografia e contexto do autor, entre 1918 e os anos 80.

O café como refúgio e espaço da amizade entre diversos, os coloridos bairros do Cairo desaparecendo e evoluindo com a cidade e a turbulenta história nacional: da Independência à crise económica e social dos 70-80, passando pela Al-Nahda, a II Guerra Mundial, o partido Wafd, Nasser e as guerras e pazes com Israel; os momentos de efervescência nacional e esperança, as tentativas de modernização, de reivindicação e submetimento das mulheres, as deceções e os fracassos.

Celebro o livro, o café e o bairro, a narrativa com a passagem do tempo e da vida que também calha com as minhas saudades, com o meu presente, a prosa, a memória e a introdução a uma cultura e tradição literária em anomalia tão desconhecida.

Lamento imenso a involução induzida do mundo de cultura árabe, a aniquilação das correntes de esquerda laica, o fracasso das revoluções árabes, o extermínio do cosmopolitismo pioneiro e a desfeita das tentativas próprias de modernização. É dos factos contemporâneos que mais me impressionam, com a queda da URSS, o esmagamento da Teologia da Libertação e a inverossímil e desnecessária restauração, nesses críticos anos finais dos 70, da Monarquia na Espanha.

Por vezes penso, sentado num café a ler um livro – em ausência da minha Crunha, de velhos amigos e de tertúlia – se todos esses sucessos históricos e as mais das grandes desfeitas contemporâneas, não terão um forte vínculo, não farão parte da mesma realidade e programa. O tempo vai confirmando, por muito que a narrativa imposta teime em os individualizar e tratar ligeiros.

 

 

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