Espuma dos dias — “Um mundo mais apertado”. Por Michael Roberts

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

20 m de leitura

Um mundo mais apertado

 Por Michael Roberts

Publicado por  The Next Recession, em 18 de Junho de 2022 (original aqui)

 

Tem sido uma grande e dura semana para os grandes bancos centrais. Primeiro, o Banco Central Europeu (BCE) convocou uma reunião de emergência porque os rendimentos das obrigações do governo estavam a subir acentuadamente nas economias mais endividadas da zona euro, como a Itália e Espanha. Isso ameaça gerar uma nova crise de dívida soberana, como aconteceu após a Grande Recessão de 2010-2014, conduzindo ao pesadelo grego.

O BCE está agora à procura de formas de financiar os governos mais fracos da zona euro, comprando mais da sua dívida e “imprimindo” dinheiro para o fazer. Ironicamente, tendo acabado de anunciar que tinha terminado a flexibilização quantitativa (QE) e procurado aumentar as taxas de juro em Julho a fim de controlar a inflação acelerada, o BCE teve agora de voltar a fazer QE para os italianos.

A taxa de inflação dos EUA quase quadruplicou nos últimos dois anos, mas em muitos países aumentou ainda mais rapidamente

Variação da taxa de inflação anual entre o primeiro trimestre de 2020 e o primeiro trimestre de 2022

Nota: O quadro inclui 36 dos 38 países membros da OCDE e sete outros países economicamente significativos para os quais a OCDE fornece dados. A Suíça, outro país da OECD, teve uma taxa de inflação de -0,13% no primeiro trimestre de 2020, tendo aumentado para 2,06% no mesmo período em 2022. Os dados relativos à Costa Rica que aderiu à OCDE em 2021 não foram incluídos. Fonte: análise da Pew Research dos dados da OCDE.

 

A Reserva Federal dos EUA anunciou então um aumento na sua taxa de referência (a taxa dos Fundos Federais) de 75 pontos base, um aumento extra-grande, com mais aumentos anunciados para depois, uma vez que também tenta controlar o acelerar da inflação.  E na quinta-feira passada, o Banco de Inglaterra juntou-se-lhes, aumentando a sua taxa de referência para controlar uma taxa de inflação já em direção aos dois dígitos.

Apenas o Banco do Japão (BoJ) resistiu ao aumento da sua taxa de referência, preferindo tentar proteger uma economia já fraca e em recessão, que continua a ter uma inflação relativamente baixa. Mas o BoJ observou que, ao ter taxas de juro muito mais baixas do que outras economias, o preço do iene em dólares e euros tinha começado a descer. Isso poderia ajudar os exportadores japoneses, mas também iria aumentar a inflação importada. De facto, como os investidores estrangeiros venderam as suas obrigações governamentais japonesas (com a dívida pública a 270% do PIB agora), o BoJ teria de comprar ainda mais obrigações para financiar as despesas governamentais.

As “taxas de referência ” dos bancos centrais estabelecem o limite mínimo para as taxas de juro dos bancos, famílias e empresas, onde as taxas serão correspondentemente mais elevadas. E a subida do Fed de 75bp é a maior de uma só vez desde há 28 anos.

Ostensivamente, o objetivo de aumentar as taxas de política dos bancos centrais é forçar o aumento das taxas de juro para empréstimos contraídos por bancos, famílias e empresas. Isto acabará por reduzir as despesas com casas, produtos de consumo e investimento em ativos financeiros como ações e obrigações, e também o investimento produtivo em equipamento, construção e software. Isto acabará por arrefecer a procura global, pelo que as taxas de inflação irão diminuir.

Mas será que funcionará; ou mais ainda, será que funcionará sem provocar uma quebra nas grandes economias? A resposta reside em parte em aceitar ou não os argumentos principais sobre o que causa o aumento da inflação. Discuti isto longamente em vários textos. A primeira teoria de entre as mais relevantes é monetarista; nomeadamente os bancos centrais ‘imprimem’ demasiado dinheiro em relação à produção de bens: ‘demasiado dinheiro a procurar muito poucos bens’; e assim aumenta a taxa de inflação. Se os bancos centrais aumentarem as taxas e reduzirem a quantidade de dinheiro que imprimirem, a inflação diminuirá.

O presidente do Fed Jay Powell parece ainda adotar a abordagem monetarista ao explicar ao Congresso dos EUA no último Relatório Monetário do Fed sobre como os bancos centrais podem controlar a inflação: “a taxa de inflação a longo prazo é principalmente determinada pela política monetária, e por isso o Comité tem a capacidade de especificar um objetivo a longo prazo para a inflação“.

A sério? Todas as evidências dos últimos 60 anos mostram que a política monetária não é o motor da inflação ou da desinflação e é, na melhor das hipóteses, um fator secundário de reação. O verdadeiro motor é a relação entre o produto (PIB) de uma economia e a procura gerada pelos rendimentos das empresas capitalistas e dos agregados familiares dos trabalhadores.

Mas isso não significa que seja a “procura agregada” a decidir o nível de inflação e, em particular, a procura gerada por demasiada “pressão dos salários”. Este é o argumento keynesiano para a inflação: “procura excessiva” e “pressão dos salários” sobre os custos. O último expoente da teoria keynesiana do “excesso de procura” é o antigo secretário do Tesouro dos EUA e guru keynesiano da “estagnação secular”, Larry Summers. Ele previu o aumento das taxas de inflação em 2021, devido ao excesso de despesas governamentais utilizadas para sair da quebra do COVID. Ele apelou à “austeridade” do governo como resposta.

Agora, num artigo recente, ele argumenta que as taxas de inflação estão a ser medidas artificialmente baixas em comparação com a última espiral inflacionista dos anos 70. Isto porque a forma como os custos de habitação são calculados no índice de inflação atual foi alterada em comparação com a década de 1970. Em 1983 foi introduzido um conceito de “Aluguer Equivalente do Proprietário” (OER) em vez dos preços reais da habitação ou pagamentos de hipotecas. Summers argumenta que a utilização do OER para medir os preços da habitação reduz a taxa de inflação em comparação com a medida utilizada anteriormente. Isto significa que a inflação é agora realmente muito mais elevada do que a taxa oficial. Assim, para ter a inflação sob controlo, o Fed terá de aumentar a sua taxa de referência muito mais do que pensa ser necessário. Já os aumentos previstos pelo Fed levariam a taxa de política até 3,5%, um enorme aumento e num curto espaço de tempo. Se tiver de estar mais perto dos 5%, isso ameaça realmente deitar abaixo todo o castelo de cartas.

A primeira carta a cair é normalmente onde o que Marx chamou “capital fictício” que tem sido acumulado, ou seja, ativos financeiros e propriedades. Taxas mais elevadas tornam os ativos de rendimento fixo relativamente mais atrativos, reduzindo a procura de ações, cujos preços caem a seguir. Já os preços das ações ‘Wall Street’ caíram mais de 20%, o que é considerado território ‘de mercado urso”, ou seja, de mercado em baixa.

E a perspetiva de rápido aumento das taxas de juro atingiu aquela outra grande bolha em ativos financeiros: as moedas criptográficas. Os preços do bitcoin estão com uma queda anual de 45%, a 21.000 dólares por moeda. Custa agora mais ($25.000) para a extrair. Assim, não só os especuladores em criptomoedas estão a sofrer um enorme golpe, como também aqueles que as produzem.  Mais uma prova de que as moedas criptográficas não são moedas alternativas às moedas fiduciárias (as criadas pelo Estado), mas simplesmente outro ativo financeiro especulativo.

Como eu disse num texto anterior: “Nos últimos 20 anos, as ficções financeiras têm sido cada vez mais digitalizadas. As transações financeiras de alta frequência têm sido substituídas pela codificação digital. Mas estes desenvolvimentos tecnológicos têm sido utilizados principalmente para aumentar a especulação no casino financeiro, deixando os reguladores para trás na lavagem. Quando os mercados financeiros se afundarem, o que eventualmente acontecerá, os danos digitais ficarão expostos”.

E depois há a habitação. Na semana passada, as taxas de hipotecas imobiliárias americanas subiram o máximo verificado desde 1987, atingindo 5,78%, o nível mais alto desde Novembro de 2008. A taxa era de 3,2% no início do ano, enquanto há um ano, antes de a Reserva Federal ter iniciado uma campanha agressiva para aumentar as taxas de juro, a hipoteca de taxa fixa a 30 anos era em média de 2,93%.

O aumento desde Janeiro de 3% para 6% significa agora que menos 18 milhões de famílias podem qualificar-se para uma hipoteca de 400.000 dólares.

 

Isso representa uma redução de 36% na procura potencial. A acessibilidade dos compradores internos caiu a pique.

 

Como resultado, os mercados imobiliários dos EUA, anteriormente em plena expansão, começaram a cair por terra.

Onde Summers e os keynesianos estão errados é que não foi a procura excessiva que fez subir a taxa de inflação em bens e serviços que as pessoas utilizam, mas sim o enfraquecimento da oferta. Os estrangulamentos na oferta gerados durante a quebra do COVID a nível mundial foram agora agravados pelo conflito Rússia-Ucrânia, particularmente nos sectores energético e alimentar. Já discuti isso antes da crise alimentar global que já começou. E as sanções contra os fornecimentos de energia russos estão também a acelerar os preços dos combustíveis e do aquecimento.

Mas aqui está o problema. O crescimento da produção global já estava a abrandar antes do COVID. Tomemos o petróleo, por exemplo. A produção de petróleo fora dos EUA tinha estado estática durante anos mesmo antes da queda do COVID e ainda estava abaixo dos níveis pré-pandémicos antes do conflito Rússia-Ucrânia ter explodido.

O crescimento da produtividade era muito baixo e o crescimento do emprego estava a abrandar. A produção capitalista e o investimento abrandaram porque a rentabilidade do capital nas grandes economias tinha atingido níveis baixos quase históricos antes da pandemia. A recuperação do investimento e da produção após o COVID foi apenas uma “uma súbita e breve explosão de energia provocada por um elevado teor de açúcar na corrida da recuperação“, à medida que as economias reabriram e que se ia libertando a procura. Agora está a tornar-se claro que o crescimento da produção e do investimento nas grandes economias é demasiado fraco para responder à procura reanimada. Por isso, a inflação disparou.

O que isto nos diz é que não é a procura excessiva ou o aumento dos custos salariais, ou, para isso, a existência de demasiado dinheiro, que está a acelerar a inflação, mas é sim o fraco crescimento da produção e o insuficiente investimento em ativos produtivos. Não há uma “procura excessiva” por parte das famílias norte-americanas. O crescimento real das vendas a retalho (isto é, depois de se ter em conta a inflação) é mais ou menos nulo.

E já sabemos que os salários não estão a acompanhar as taxas de inflação em todas as grandes economias.

Agora há os primeiros sinais de que mesmo o chamado mercado de emprego forte está a enfraquecer nos EUA. Os pedidos de subsídio de desemprego estão agora a aumentar.

Assim, os saltos na taxa de juro dos bancos centrais não irão controlar a inflação – a menos que se verifique uma queda de atividade económica ou recessão. A política de aumentos agressivos das taxas de juro no final da década de 1970 pelo então presidente do Fed Paul Volcker é frequentemente citada como prova de que os bancos centrais podem proporcionar uma inflação mais baixa. Na realidade, os aumentos de Volcker apenas contribuíram para provocar uma das mais graves recessões (1980-82) na segunda metade do século XX, que acabou por dizimar os sectores transformadores das principais economias avançadas. Foi a recessão, a queda da produção e o aumento do desemprego que acabaram por conduzir à redução da inflação.

Esta é a perspetiva agora se o Fed adotar mesmo que seja metade das subidas da taxa de referência que Volcker aplicou. A rentabilidade do capital já era baixa e está agora em queda novamente nas grandes economias, como já mostrei em textos anteriores. E como argumentei num texto anterior, a par dessa queda está a questão do custo da dívida.

Os investidores já retiraram milhares de milhões de dólares de obrigações empresariais porque receiam que em breve surjam muitas falências de empresas.

Uma análise recente do FT, concluiu que as empresas com “lucros voláteis e custos de juros elevados” enfrentam um risco crescente de falência. Estas “empresas zombies”, como muitas vezes se lhes chamam, atingirão 20% de todas as empresas se as taxas de juro duplicarem (que é o objetivo de muitos bancos centrais) e se os lucros caírem em 25%, o que agora parece muito provável.

E, claro, isso também se aplica ao que é chamado de “dívida de mercado emergente” devida por muitos países pobres em todo o mundo. De acordo com a base de dados EPFR, são mais de 38 mil milhões de dólares que já saíram de fundos comuns especializados em obrigações negociadas em bolsa e fundos mútuos desde o início do ano. O êxodo vai continuar.

O mundo do crédito está a apertar e a trazer consigo uma queda nos preços dos ativos financeiros, mas também a expor as linhas de falha na produção da “economia real”. Como o FT escreveu num editorial esta semana:”a escolha é estagflação, ou depressão deflacionária“.

 


O autor: Michael Roberts [1938-], economista britânico marxista. Trabalhou durante mais de 30 anos como analista económico na City de Londres. É editor do blog The next recession. Publicou, entre outros ensaios, Marx200: a Review of Marx’s economics 200 years after his birth (2018), The long Depression: Marxism and The Global Crisis of Capitalism (2016), The Great recession: a Marxist view (2009).

 

 

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