CARTA DE BRAGA – “das estórias e do tempo” por António Oliveira

Encontrei este título há já alguns dias num jornal diário, ‘As petroquímicas ingressam 3.300 milhões de euros extra, desde a invasão da Ucrânia’ e, a seguir, a explicação para tal ‘aforro’.

Gregory Brew, um analista de Yale, salienta a habilidade das empresas dos states para vincular a produção fóssil e a segurança energética, entendida como a eficiência política para assegurar o abastecimento de carburantes na federação a preços acessíveis, sob um premissa iniludível: quanto mais petróleo, gás e carvão se produza internamente, menos vulnerável será o país aos shocks da oferta externa. 

Mas adianta Brew, a diferença do que fazem os grande produtores como a Arabia Saudita, ou consumidores como a China, os EUA entregam às companhias energéticas a exploração, produção, refinação e transporte de todos os seus produtos e, os objectivos das companhias e, como é óbvio, visam apenas os lucros. 

Assim, as bem conhecidas ‘supermajors’ dominam os mercados da Bolsa disseminados pela globalização, determinam as cotizações das maiores companhias em função da sua dependência, só ultrapassadas pelas ‘matriarcas’ da tecnologia, a Google e a Amazon, mas os seus lobbies estendem-se e atrapalham tudo o que cheire ou fale em descarbonização, bem seguidas pelos diferentes e fiéis boçalnaros espalhados por alguns dos governos deste mundo.

Além de um ambiente a pedir tratamento a condizer, –Em abril, os especialistas climáticos da ONU alertaram que é agora ou nunca a tarefa de limitar o aquecimento global a 1,5ºC acima dos níveis pré-industriais-, a alta tensão no mundo geopolítico, as pressões inflacionistas, as restrições no crédito e a subida dos impostos, vão ter reflexos directos nos mercados, como no mundo do pequeno empresariado e, fundamentalmente, na economia doméstica. 

Ao acontecimentos dos últimos tempos, do covid a Putin e às sequelas que se estendem a todo o mundo, estão a confirmar como estamos a sustentar um capitalismo selvagem independentemente das máscaras usadas, cirúrgicas ou outras, ou dos impérios que ambicionam, um capitalismo insolidário e com estroinices várias à custa do nosso sangue, do nosso suor e dos nossos impostos. Esta deveria ser a base de qualquer discurso destinado à defesa das gentes, uma vez que a política é a única forma de se confrontar com um paradoxo como o que, num dia qualquer, apresentou Churchill ‘A desvantagem do capitalismo é a desigual distribuição das riquezas; a vantagem do socialismo é a igual distribuição das misérias’.

O custo humano, social e político dos últimos tempos é imprevisível e muito mais perigoso que o das pandemias. Agora estão em jogo impérios, armas, ódios e a destruição ou a humilhação dos adversários. Lembro-me do que um dia li, escrito por Lucrécio ‘Toda a ira política é filha do medo e o medo piora tudo’, lembrança que me ocorreu por uma crónica de Lluís Foix, no ‘La Vanguardia’, ‘Putin pode ter atacado por medo, mas o Ocidente também se defende por medo que a Rússia apague as fronteiras, para reconstruir um império improvável. A liberdade nunca veio de Leste’.

A propósito não resisto a contar a estória do encontro de Milan Kundera com uns carros blindados, no terceiro dia da ocupação da Checoslováquia em 1968, quando se dirigia de carro para o sul. E diz assim aquele autor, ‘Num controlo, o oficial disse-me para não me preocupar, que tudo era um mal entendido e se arranjaria rapidamente; tereis de entender que vos amamos. Amamos mesmo!’ Kundera, em plena Primavera, entendeu isto como um paradigma do ‘amor não correspondido’, assim: ‘Porque será que estes checos (aos que tanto amamos!) se negam a viver connosco? Que pena vermo-nos obrigados a utilizar tanques, para lhes ensinar o que significa amar!’. 

Há estórias que resistem sempre ao passar do tempo!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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