A Guerra na Ucrânia — “Guerra russo-ucraniana, dia 107: Mozart contra Wagner, os mercenários americanos instalam-se na Ucrânia”.  Por Laurent Schang

 

Seleção e tradução de Francisco Tavares

12 m de leitura

Nota de editor:

O texto de hoje, à semelhança do que publicámos no passado dia 7 de Junho, é tão só uma crónica da guerra. Como sobre o desenrolar desta o que se sabe é um emaranhado de relatos que se contradizem, parece-nos ser um texto de todo o interesse e utilidade.

 


Guerra russo-ucraniana, dia 107: Mozart contra Wagner, os mercenários americanos instalam-se na Ucrânia

Presença confirmada da sociedade militar privada batizada grupo Mozart, por oposição ao grupo Wagner [n.t. elite privada armada russa formada em 2014 para defesa do Donbas], dirigida pelo coronel (ER) das forças especiais americanas Andrew Milburn. O especialista militar da Éléments, Laurent Schang, segue o conflito dia após dia.

 Por Laurent Schang

Publicado por em 16 de Junho de 2022 (original aqui)

 

 

20 de Maio (Dia 85)

– No Donbass, ofensiva russa sobre o eixo SN Popasna-Sievierodonetsk.

– As forças armadas russas (FAR) recuperam terreno a norte de Kharkiv (Ternova).

21 de Maio (Dia 86)

– O cerco de Sievierodonetsk e Lyssychansk, que foram transformados em bastiões, continua.

– Foram disparados mísseis Kalibr em depósitos de combustível (fábrica portuária de Odessa) e depósitos de equipamento militar (estação de Malin, perto de Zhytomyr). Destruições confirmadas.

– No S, concentração das forças russas observada em torno de Kherson e Zhaporijjia. Pergunta: em vista de uma futura ofensiva ou para consolidar as posições adquiridas?

22 de Maio (Dia 87)

– Avanço significativo das forças coligadas russófonas sobre o eixo EO Popasna-Artemovsk.

23 de Maio (Dia 88)

– Os combates prosseguem para reduzir as unidades ucranianas entrincheiradas em Lyman, 20 km N de Slaviansk (que defende), no eixo NS Izum-Slaviansk-Kramatorsk (estrada M03). A ofensiva terrestre ocupou o lugar da artilharia, que tinha estado muito activa durante vários dias neste sector. Se bloqueio de Lyman for quebrado, a comunicação entre Slaviansk e o bolso Sievierodonetsk-Lyssychansk será cortada.

– Contra-ataques menores pelas Forças Armadas Ucranianas (FAU) ao longo de toda a linha da frente desde Mikolayv a Kharkiv, contrabalançados por massivos ataques aéreos russos. Pergunta: serão estes contra-ataques – na prática mais parecidos com incursões – sempre coordenados a nível operacional?

24 de Maio (Dia 89)

– Violentos combates em Lyman, cujos bairros a norte ainda estão a resistir.

– O governo da Nova Zelândia anuncia o envio de instrutores para a Grã-Bretanha para treinar aí 230 artilheiros ucranianos. A formação deve durar até ao final de Julho. Pergunta: se não há cobeligerância, por onde começa, sabendo que 1) a cobeligerância não implica a assinatura de um tratado de aliança; 2) os Estados fornecedores da Ucrânia assumem abertamente o seu apoio logístico e agora militar a Kiev, uma vez que os exércitos da NATO (incluindo o exército francês) estão envolvidos no conflito?

– Outra questão: a heterogeneidade dos armamentos pesados e ligeiros enviados para as FAU, o aspecto de manta de retalhos do equipamento entregue, implica uma grande disponibilidade de munições (segundo as normas da NATO) e das mais diversas peças sobressalentes, bem como um confirmado conhecimento e prática dos seus funcionários. Isto não é um Um problema que não se coloca às FAR. Não se corre o risco de que, a médio prazo, isto se volte contra os ucranianos?

– Na Crimeia, há informações de que estão a ser treinadas unidades de reserva e que foram instaladas rampas de mísseis S-400.

25 de Maio (Dia 90)

– Retomada das operações russas ao Sul de Zhaporizhia, por onde alguns dos fornecimentos ao exército ucraniano em Donbass (AUD) continuam a fluir.

26 de Maio (Dia 91)

– Queda de Lyman. A AUD recua mas ainda assim não parece querer desistir.

27 de Maio (Dia 92)

– Começa o assalto das FAR a Sievierodonetsk.

– São relatados movimentos das tropas russas vindas de Izum e Lyman em direcção a Siversk, a meio caminho entre Lyman e Sievierodonetsk.

29 de Maio (Dia 94)

– Ofensiva limitada das FAU no eixo Mikolayv-Kherson (a “zona cinzenta”) contra as posições defensivas russas, sem resultado aparente. Perguntas: estes contra-ataques destinam-se a desviar as unidades russas do seu objectivo principal, ou trata-se de Kiev acelerar o fenómeno de desgaste, que é muito real, observado entre as FAR? Em caso afirmativo, qual é a velocidade de rotação das unidades russas? Será que os grupos tácticos russos, “batalonnaja takticheskaja gruppa”, conhecidos pela sigla BTG, estão mesmo a rodar?

30 de Maio (Dia 95)

– Contra-ataque ucraniano repelido a norte de Kharkiv.

– Progressão das FAR para Slaviansk a partir de Siversk.

– Sievierodonetsk sitiada em três lados: N, E e S. A luta urbana está a aproximar-se do centro da cidade.

31 de Maio (Dia 96)

– Washington anunciou a entrega de um número ainda indeterminado de lançadores de foguetes múltiplos (MLRS) às FAU. Montados em veículos sobre lagartas ou sobre rodas, estes sistemas são capazes de contrariar os seus homólogos russos. Com um alcance de até 300 km, as munições HIMARS a serem entregues aos ucranianos não devem, no entanto, poder ser disparadas a uma distância superior a 30 km dos seus alvos.

– Ao mesmo tempo, Berlim anunciou que a RFA iria em breve entregar veículos de combate de infantaria (VCI) à Grécia, em troca dos quais Atenas enviaria os seus stocks da era soviética para a Ucrânia. Pergunta: Quais, uma vez que a Grécia é membro da Nato desde 1952?

– Pergunta: Segundo alguns analistas, as FAU precisariam de 12 a 18 meses para reconstruir as suas forças, em homens e em equipamento ocidental. Poderá a Ucrânia aguentar tanto tempo?

1 de Junho (Dia 97)

– Bombardeamentos (artilharia + mísseis) em Artemovsk, novo bastião ucraniano a sul de Lyssychansk. A auto-estrada T1302 (Artemovsk-Lyssychansk), que abastece Sievierodonetsk, está também sob fogo de baterias russas.

– O centro de Sievierodonetsk está sob o controlo das forças de coligação russófonas.

– O governo alemão promete entregar vários exemplares do seu sistema de defesa terra-ar IRIS-T numa data não especificada. Até à data, a Alemanha forneceu à Ucrânia 15 milhões de munições, 100.000 granadas e mais de 5.000 minas anti-tanque, de acordo com Berlim.

2 de Junho (Dia 98)

– Retirada das unidades ucranianas de Sievierodonetsk para Lyssychansk na margem esquerda do rio Siverskyi Donets. Os números variam, mas 15.000 soldados, paramilitares e milícias ucranianos podem ainda estar no norte do Donbass.

– Progressão das FAR no norte de Slaviansk.

– Avanço das forças de coligação russófonas em direção a Lyssychansk (S e O).

– Impulso das força de coligação russófonas no norte de Donetsk (Avdiivka).

4 de Junho (Dia 100)

– A Polónia está empenhada em entregar 60 canhões (howitzers) de 155 mm autoportantes à Ucrânia, para além dos 18 já enviados. As armas ainda têm de ser montadas e serão entregues ao longo de dois anos, a um ritmo de 30 por ano.

– Ao mesmo tempo, soube-se que 64 M109A4 BE (155 mm) armas autoportantes, de fabrico americano mas retiradas do exército belga em 2008, foram entregues às FAU a 1 de Junho.

– Os combates prosseguem a sudoeste de Izum, a sul de Lyman e a oeste de Sievierodonetsk.

5 de Junho (Dia 101)

– Segundo fontes ucranianas, o General russo R. Kutuzov, comandante do 1º DPR CA, foi morto na frente de Popasna.

– Retomada dos ataques em Kiev com o lançamento de 5 mísseis de cruzeiro X-22 contra uma fábrica transformada num centro de recondicionamento de tanques T-72 em Darnytsia, na periferia da capital.

7 de Junho (Dia 103)

– Avanço simultâneo das FAR para o norte (SE de Izum) de Slaviansk-Kramatorsk e para o leste de Artemovsk.

– Os combates continuam na zona industrial de Sievierodonetsk (complexo químico Azot).

9 de Junho (Dia 105)

– Progressão das forças de coligação russófonas em direcção a Artemovsk e Slaviansk, retardada quanto a esta última devido a dificuldades em atravessar o Siverskyi Donets.

– Retoma das operações russas ao sul de Zhaporizhia com a chegada de novos BTG.

– Presença confirmada em Zhaporizhia de uma empresa militar privada chamada Grupo Mozart (em oposição ao Grupo Wagner) liderada pelo Coronel das Forças Especiais dos EUA (ER) Andrew Milburn. Composta principalmente por antigos soldados anglo-saxónicos, treina voluntários ucranianos em combate táctico e métodos de guerrilha.

– Diz-se que as FAR e os seus aliados russófonos estão a implantar equipamento cada vez mais antiquado (tanques T-62) para compensar as suas perdas, mas sem os envolver em pontos quentes ou na linha da frente.

10 de Junho (Dia 106)

– A fábrica Azot está debaixo de fogo da artilharia pesada russa. Os observadores mencionam a possibilidade de se estar perante um segundo Azovstal.

– Grito de alarme das autoridades de Kiev para o Ocidente: o armamento pesado e as munições estão a esgotar-se. A culpa reside no enorme consumo diário exigido pela guerra de posição ucraniana e na destruição causada pelos ataques russos a depósitos e comboios. De acordo com os ucranianos, a proporção em matéria de artilharia é de 1:10 ou mesmo 15.

11 de Junho (Dia 107)

– O governo ucraniano reitera a sua exigência de uma aceleração/aumento do fornecimento de armas e munições ocidentais.

 

 

Fontes: dailymail.com, Institute for the Study of War, lavoiedelepee.blogspot.com, southfront.org, @war_mapper, oryxspioenkop.com, Ministère des Armées, Sim Tack, lecourrierdesstrateges.fr, mars-attaque.blogspot.com, cf2r.org, opex.360.com, fundstrat.com, southfront.org, Army Recognition, http://www.eurocontinent.eu, entredeuxguerres.fr

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O autor: Laurent Schang [1974-] é o fundador da editora Polémarque e é um colaborador regular da revista Éléments. É autor dos livros Le fondateur de l’Aikido, Morihei Ueshiba, éditions Pygmalion (2004) — Souvenirs d’Alsace-Lorraine 1870-1923, éditions Paraiges / le Polémarques (2011) — Kriegspiel 2014, éditions Le Retour Aux Sources (2014).

 

 

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