A Guerra na Ucrânia — Prepare-se para Congelar… Os Governantes Elitistas da UE dão um novo e sombrio significado à Guerra Fria. Por Strategic Culture

Seleção e tradução de Francisco Tavares

8 m de leitura

Prepare-se para Congelar… Os Governantes Elitistas da UE dão um novo e sombrio significado à Guerra Fria

Editorial de de 22 de Julho de 2022 (original aqui)

 

 

A Rússia tem feito todos os esforços para manter a Europa abastecida. Os governos europeus, que estão enfeudados à política imperial dos EUA, têm-se aplicado em causar estragos ao seu próprio povo.

O congelamento das casas de família, custos de energia paralisantes e o aumento das facturas alimentares associadas são o resultado da agenda de guerra dos Estados Unidos e da NATO em relação à Rússia. A estação do Verão trouxe ondas de calor sufocantes em toda a Europa (e noutros locais), mas dentro de alguns meses, até 500 milhões de cidadãos da União Europeia irão enfrentar níveis recorde de privação, quando a escassez de gás da Rússia se tornar totalmente manifesta.

A Rússia tem feito todos os esforços para manter a Europa abastecida. Os governos europeus, que estão enfeudados à política imperial dos EUA, têm-se aplicado em causar estragos ao seu próprio povo.

O Ministro dos Negócios Estrangeiros da Hungria, Peter Szijjarto, durante uma visita a Moscovo, emitiu rara nota de sanidade quando afirmou que a Europa simplesmente não pode sobreviver sem o abastecimento energético russo. Outros líderes europeus, contudo, estão cegos pela russofobia irracional e pela subserviência aos ditames americanos. O dia de ajuste de contas virá, se é que se poderá evitar o dia do juízo final.

Este suicídio auto-infligido das nações europeias foi mandatado por governos que se prostraram perante a agenda imperial de Washington de confrontação com a Rússia. A guerra na Ucrânia é o resultado trágico de uma beligerância de anos da NATO liderada pelos EUA em relação à Rússia. Quem ousar afirmar essa verdade objectiva é vilipendiado como propagandista do Kremlin. O debate público ocidental e o pensamento crítico têm sido praticamente eliminados. A censura massiva da Internet tem aumentado essa rasura. Esta revista online [Strategic Culture Foundation], por exemplo, foi colocada na lista negra e bloqueada para os leitores nos EUA e na Europa por governos que professam defender a liberdade de expressão e o pensamento independente.

A expansão implacável da NATO para leste e o armamento de um regime ucraniano infestado de nazis criou o actual conflito e consequências destrutivas, incluindo problemas de fornecimento de energia e alimentos.

Tão obcecados estão com a russofobia e o servilismo ao imperialismo agressivo de Washington, que a elite europeia está a forçar as suas populações a uma Guerra Fria sem precedentes que corre o risco de se transformar numa guerra mundial catastrófica. Uma guerra que conduziria inevitavelmente a uma conflagração nuclear.

Em vez de se afastar do abismo, a Comissão Europeia não eleita – o poder executivo da União Europeia – ordenou esta semana aos 27 estados membros que fizessem cortes massivos no consumo de gás. Os cortes ascendem a 15 por cento. As medidas são apenas uma tentativa fútil de cobrir a inevitável calamidade da enorme escassez de energia que atingirá a UE neste Inverno devido a uma redução drástica nas importações de combustível russo. O que a chamada liderança política da UE está a demonstrar é um desrespeito insensível pelas condições de vida dos seus cidadãos.

Estamos a assistir ao equivalente moderno de despachar milhões de pessoas para as trincheiras lamacentas e sangrentas da Primeira Guerra Mundial. Podemos olhar para trás e interrogarmo-nos sobre essa barbaridade e como milhões de pessoas a acompanharam. Que diferença há com a insensibilidade e a barbárie de hoje?

Líderes da UE como Ursula von der Leyen acusam a Rússia de “chantagem energética” e “transformação do gás em arma”. Mas tal bode expiatório é desprezível. A situação de crise tem sido gerada pela UE cegamente seguindo a agenda de Washington de sabotar décadas de fornecimento de energia fiável e acessível por parte da Rússia. O gasoduto Nord Stream 2 foi tecnicamente concluído no ano passado para fornecer cerca de 55 mil milhões de metros cúbicos de gás – ou cerca de um terço do antigo abastecimento total da Rússia à UE. A Alemanha optou por suspender esse gasoduto ante a insistência e acosso de Washington. Mesmo o já em funcionamento gasoduto Nord Stream 1 foi interrompido devido a sanções económicas ocidentais impostas à Rússia. A manutenção programada das turbinas foi atrasada e quase ameaçou um encerramento completo até que a Gazprom da Rússia conseguiu restabelecer a ligação na quinta-feira, apesar dos obstáculos ocidentais.

A Polónia e a Ucrânia também cortaram os fornecimentos terrestres de gás russo que serviam a UE.

Devido às sanções unilaterais ocidentais contra bancos russos, Moscovo foi obrigada a solicitar o pagamento das exportações de gás em rublos. Alguns países europeus recusaram-se a cumprir esse novo acordo de pagamento razoável, tendo assim optado por renunciar à compra de gás russo.

Durante décadas, a Rússia provou ser um parceiro fiável no fornecimento de gás a preços acessíveis e abundante, bem como de petróleo à União Europeia. Essa parceria estratégica para o fornecimento de energia foi a pedra angular das economias europeias. As indústrias e a economia orientada para a exportação da Alemanha, que impulsiona o resto da UE, prosperaram graças à energia russa. Perversamente, a elite política europeia humilhou-se a associar-se com os interesses imperiais americanos, em vez de proteger os interesses das populações europeias. Assim vai a democracia representativa!

O interesse próprio dos Estados Unidos em vender à Europa o seu próprio gás mais caro é flagrante. Só um tolo, ou um instrumento, poderia fingir o contrário.

Como já foi observado em editoriais anteriores do SCF, as ambições hegemónicas de Washington de domínio global e de salvar o seu poder capitalista falido dependem crucialmente da prossecução de uma nova Guerra Fria contra a Rússia e a China. O mundo está a ser lançado num perigoso tumulto devido a esta ambição criminosa. É risível que os líderes europeus tenham pretensões de independência e influência global. Não passam de patéticos lacaios do poder americano que estão dispostos a sacrificar as suas populações no processo.

O desespero do regime dos EUA e dos seus lacaios europeus é tal que as suas sociedades estão à beira do colapso devido ao colapso económico. O seu belicismo imprudente em relação à Rússia (e à China) está a exacerbar e a acelerar o seu próprio colapso. O verdadeiro perigo é que os EUA e os seus cúmplices da NATO estejam agora a apostar na escalada da guerra na Ucrânia como forma de evitar o colapso das suas próprias nações – um colapso que eles próprios induziram.

Numa conferência de segurança realizada esta semana em Aspen, Colorado, o chefe do MI6 britânico advertiu que “o Inverno está a chegar” e a determinação ocidental será severamente posta à prova devido às privações sociais em cascata por causa dos cortes de energia. Richard Moore pediu ainda mais fornecimento de armas ao regime de Kiev – para além da já existente situação explosiva. O seu raciocínio, tal como outros no eixo da NATO, é duplicar uma guerra por procuração com a Rússia, a fim de evitar repercussões internas e a implosão da frente ocidental sob o comando de Washington. O próprio futuro do eixo da NATO liderado pelos EUA está em jogo.

Isso significa que à medida que os cidadãos europeus e americanos sofrem mais dificuldades devido ao belicismo dos seus líderes em relação à Rússia, estes mesmos déspotas ocidentais vão apostar tudo numa ofensiva de última hora contra a Rússia através da Ucrânia. A política e a diplomacia foram abandonadas. A guerra na Ucrânia vai agravar-se precisamente porque as elites ocidentais estão a perder um conflito existencial. Em última instância, o seu conflito é um conflito interno que tem a ver com o escorar do seu próprio poder inerente de dominar as suas massas. Isto, por sua vez, é uma concomitância do fracasso histórico das suas economias capitalistas. O militarismo e a guerra, como em tempos passados de fracasso, estão de novo a ser desenterrados como “solução” desesperada para o seu fracasso.

Os cidadãos ocidentais estão a descobrir – e a pagar caro – a sombria realidade da Guerra Fria. Em vez de serem responsabilizados por maquinações imprudentes e criminosas, os dirigentes enganadores estão agora a tentar transformá-la numa Guerra Quente.

O desastre não é inevitável. Está certamente a ser cortejado. Mas as pessoas podem evitar o abismo, tirando o controlo das mãos dos seus governantes criminosos. Uma escolha histórica na direcção está a aproximar-se. Atiçando a guerra, os desordeiros dirigentes ocidentais estão a tentar impedir que seja feita uma escolha correcta.

 

 

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