Espuma dos dias — “A Escola da República não entrou em disfuncionamento: ele leva a cabo a missão para a qual foi programada”. Por Jean-Paul Brighelli

Uma pequena história

Os confinamentos em pandemia irão trazer resultados catastróficos sobre o ensino. Imaginemos alunos que tiveram a primeira classe em confinamento e a segunda classe por igual caminho e que não tiveram nenhum poio em casa ou de explicador. Com uma primeira e uma segunda classe, ambas de má qualidade espera-se uma terceira e uma quarta classes de calibre semelhante.

Pela parte que me toca assisti à minha neta a ter muita dificuldade em fazer “contas em pé”. A mãe pediu-me ajuda e recusei. A este nível não sei ensinar o que nunca aprendi para ensinar a esta faixa etária. O mesmo se passava com a mãe. A coisa atamancou-se: teve muito bom a tudo, mas o que sei é que como resultado de tudo isto, diz que não gosta de matemática! Naturalmente. Levar-se-á tempo a eliminar os efeitos colaterais de tudo isto.

A partir daqui está traçado o caminho para um maior desastre no sistema educativo. Veremos depois os professores no secundário e universitário a esforçarem-se em produzir médias aceitáveis para os rankings das Escolas! Já ganharam o hábito de o fazer, sobretudo nas Universidades onde a pressão dos ratings é cada vez mais aterradora e tão aterradora que hoje mais se pode classificar as Universidades como fábricas de ignorância e com um diploma que o atesta do que como centros de transmissão de saberes. Isso morreu, eu sei, isso foi substituído pela aquisição de conhecimentos.

Vem isto a propósito de um texto sobre o sistema de ensino em França que vos envio em anexo, um sistema de fabricação de ignorantes ou de cretinos, segundo o autor. Vale a pena lê-lo e pensar no CASO PORTUGUÊS.

Júlio Marques Mota, 29 de Julho de 2022


 

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

8 m de leitura

A Escola da República não entrou em disfuncionamento: ele leva a cabo a missão para a qual foi programada

A fábrica do cretino, segunda fornada!

 

Por Jean-Paul Brighelli

Publicado por  em 30 de março de 2022 (original aqui)

 

Jean-Paul Brighelli. © Hannah Assouline

 

No seu novo ensaio “La Fabrique du crétin 2: vers l’apocalypse scolaire”, publicado por éditions de l’Archipel, Jean-Paul Brighelli chega à terrível conclusão de que a escola de transmissão do conhecimento está bem e verdadeiramente morta e enterrada. As razões para esta decadência são todas meticulosamente analisadas. Desde a escola única à reunificação familiar, passando pelo menosprezo dos professores e pela sacralização dos alunos, o método global que substitui o método silábico, a novlíngua da instituição, ou também, Najat Vallaud-Belkacem [ministra da Educação em 2016/17 sob a presidência de François Hollande] … Um bom livro.

 

“Hoje, a escola está morta. A educação nacional morreu, segue-se informação”, escrevi em 2005 na abertura da Fabrique du crétin. A paródia no início do l’Étranger foi feita para ser engraçada. Hoje sou obrigado a escrevê-lo em primeiro grau. Sim, a escola de transmissão do conhecimento, dos saberes, a escola de formação de cidadãos, está morta. Quinze anos mais tarde, quase não tenho esperança de que mude o rumo do percurso escolar, a menos que haja uma mudança radical de paradigma. Voltarei a este assunto numa segunda parte.

Desde o sucesso inesperado da Fabrique du crétin, participei em muitos debates em que a mesma pergunta se repetia uma e outra vez: “Porque é que o sistema educativo francês permitiu as sucessivas derivas que conduziram ao atual apocalipse escolar?” Este livro tenta dar uma resposta coerente a esta questão.

Espantados pelo título, os leitores esqueceram muitas vezes o subtítulo do ensaio de 2005: “A morte programada da escola”. Talvez porque o crime era tão grande que as pessoas não quiseram acreditar que era voluntário, nem quiseram estudar friamente os seus prós e contras, ou perguntar-se sobre quem é que beneficiou ou em que se beneficiou com esse crime.

(…)

Não houve conspiração, independentemente do que os conspiradores possam pensar. Mas as boas intenções de um grupo excecional de mediocridades, algumas das quais preocupadas em adaptar a educação às necessidades do mercado, e outras em alcançar finalmente a igualdade prometida pela República, nivelando por baixo, foram suficientes para destruir o que a França tinha levado duzentos anos a alcançar. Este será o tema da primeira parte.

Todos têm filhos, netos, cujo nível de conhecimento é muito baixo, o que é possível constatar ano após ano. Todos ouviram estas mesmas crianças responder à pergunta “O que aprendeste hoje na aula?” com um “Nada” nem sequer surpreendido. É como se a ida à escola fosse agora uma obrigação desligada de qualquer obrigação de resultados. Uma necessidade formal, imposta por lei, mas esvaziada de toda a substância.

“Sim, a mediocridade tem vantagens inegáveis para um certo ultraliberalismo europeísta e apátrida

Eu próprio admito que tive ilusões. A denúncia de disfunções em massa, pensava eu, serviria como um aviso. Desencadear-se-ia uma reação, levantar-se-iam vozes, uma vaga de fundo forçaria os responsáveis pela catástrofe a recuar…

Esta ilusão foi ainda mais forte porque eu não fui o único a denunciar a bagunça. A França costumava ter um dos melhores sistemas escolares do mundo. Desceu até ao fundo de todos os rankings. Primeiro os países escandinavos, depois os do Sudeste Asiático, distanciaram-na, humilharam-na, ridicularizaram-na.

Não, um livro nunca mudou uma política, quando aqueles que queriam esta política se congratulam pelo seu sucesso. Seja por razões económicas cínicas – sim, a mediocridade tem vantagens inegáveis para um certo ultraliberalismo europeísta e sem Estado – ou por razões puramente ideológicas (a pedagogia encontrou uma fonte inesgotável de material para desenvolver as suas teorias fumegantes), a quebra de padrões, que já ninguém contesta, exceto aqueles que dela beneficiam precisamente, não podia ser travada por protestos, por mais eloquentes ou barulhentos que fossem. Muitos de nós gritámos – mas gritámos no deserto. Os nossos oponentes, por cooptação com base nas suas próprias insuficiências – e isso é muita gente – tinham confiscado o poder de decisão.

Esta decadência da escola francesa, perfeitamente paralela à decadência da nação, é um crime premeditado, cometido com total impunidade e coroado de êxito.

Uma pergunta subsidiária, também frequentemente colocada: “Em que momento é que a escola começou a andar à deriva?” Os leitores têm uma longa memória, o que lhes permite comparar a educação que receberam, por vezes há sessenta anos, e a que os seus descendentes recebem hoje. Eles ouviram os pedagogos proclamarem doutamente que “as situações não são comparáveis”, e que “a educação de massas de hoje não pode funcionar segundo os métodos elitistas do passado”. Sim – mas no passado, os alunos que deixavam o primeiro ciclo da escola primária (2º ano da primária) sabiam ler e escrever e dominavam as quatro operações básicas, enquanto hoje em dia a divisão é aprendida, com um método complexo e aberrante, em CM1-CM2 (3ª e 4ª classes). E que raramente é dominada quando entram no sexto ano. Não mais do que a leitura e a escrita. Cretinos, talvez não, mas ignorantes de certeza.

“A escola única é agora uma das vacas sagradas dos sindicatos de esquerda”

Este desastre, justificado a priori e a posteriori com as melhores intenções do mundo, foi um desastre pretendido. Não, a escola da República não entrou em disfuncionamento: está agora a fazer rotineiramente o que estava programado para fazer nas décadas de 1960 e 1970.

Isto porque não era a Esquerda, responsabilizada por todos os pecados pedagógicos, e que os assumiu e reforçou assim que chegou ao poder, que originalmente queria esta Escola deficiente. Foi a Direita, com a bênção das autoridades europeias.

(…)

 

A Escola destruída de forma constante e ao acaso: Giscard, o ano 01 do apocalipse escolar

Foi este honesto destruidor da casa francesa [René Haby] que Giscard escolheu como Ministro da Educação quando tomou posse. E Haby não estava inativo: a 11 de Julho de 1975 [1], decretou o “colégio único”. Um lembrete rápido para aqueles que não estavam presentes. Desde o fim da escola primária, os alunos eram divididos em várias secções – desde a CCPN [2] onde foram colocados alunos com grandes dificuldades, aos CPAs que orientavam os alunos precocemente para os ofícios manuais, aos cursos curtos de estudo sem latim, e finalmente aos liceus. Foi esta distinção, que fazia sentido do ponto de vista pedagógico – especialmente porque havia pontes que permitiam aos estudantes passar de um sector para outro – que Haby eliminou.

(…)

Para grande desagrado dos sindicatos na altura. a todo-poderosa Fédération de l’Education Nationale enfrentou o desafio. As suas fileiras eram constituídas principalmente por pessoas de esquerda; mas formadas nas décadas de 1940 e 1950, estavam bem conscientes de que uma unificação geral do ensino baixaria impiedosamente o nível, uma vez que os professores seriam obrigados a alinhar-se com os mais fracos da classe. Teimosamente pensadores de esquerda como Jacques Derrida opuseram-se à lei Haby. De acordo com o filósofo, a lei visava produzir trabalhadores e não cidadãos. “Foi uma resposta às exigências dos empregadores e um instrumento de sujeição social” – uma clarividência que foi singularmente obscurecida pela passagem do tempo, com o “colégio único” agora uma das vacas sagradas dos sindicatos de esquerda.

Mas os nossos mundialistas liberais não se contentaram em fazer escravos a quem tudo poderia ser exigido, incapazes de ler as letras miúdas de um contrato. No mês de Abril seguinte, decretaram o reagrupamento familiar: os imigrantes que trabalhavam em França desde os anos 60 foram assim autorizados a trazer as suas famílias do outro lado do Mediterrâneo – principalmente da Argélia – em massa.

Na altura, o governo argelino viu com muito maus olhos esta reunificação – uma pena para aqueles que acreditam na tese de uma “invasão” programada. O governo argelino temia uma diminuição das remessas para a Argélia – e, de facto…

(…)

A súbita combinação destes dois fenómenos, irrigando o campo escolar com crianças que falavam francês de forma muito aproximada, e misturando-as com pequenas crianças francesas de níveis muito heterogéneos, resultou no desastre que conhecemos. Acrescente a isto o método Foucambert de aprender a ler, que era semi-global dos pés à cabeça e o quadro fica completo.

Os pedagogos, que até então tinham estado confinados a revistas confidenciais, sentiram que lhes tinham crescido asas. Sentiram-se justificados. Impuseram gradualmente métodos “democráticos” de aprender a ler e a escrever. O fim do B-A-BA, e a irrupção dos métodos semi-globais: uma árvore engraçadamente desenhada, a palavra árvore, e ponto final. Fim da discriminação ortográfica, ligações sintáticas e variedades de árvores: ser ou não ser, tudo é ‘árvore’…

Isto dá hoje origem a frases engraçadas, como “as árvores, ele planta-as”.

Ele planta-as verdes, sem dúvida. Meirieu me matar.

Podemos muito bem ser claros: os imigrantes de segunda geração, que chegaram a França nos anos 70, não têm qualquer responsabilidade pelo colapso. Foram instrumentalizados como os outros. Foram utilizados como pretexto sem o seu conhecimento. Sem dúvida que não queriam nada melhor do que ser receber o ensino que tinham as crianças francesas. Mas o resultado é que as crianças francesas têm sido ensinadas de acordo com as deficiências dos pequenos imigrantes.

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Notas

[1] As más ações legislativas continuaram durante o verão, e Jospin fará o mesmo com a sua lei de 13 de Julho de 1989.

[2] Aulas de nível pré-profissional: eram para alunos do nível Quatrième/Troisième que não conseguiam seguir o currículo tradicional. Foram dissolvidas em 1991, como efeito secundário da lei Jospin, e os seus alunos integrados no currículo geral – o que teve o efeito de baixar ainda mais o nível. Os CPAs eram Classes Préparatoires à l’Apprentissage (Aulas Preparatórias de Aprendizagem), que podiam formar para os Centros de Formação de Aprendizes.

 


O autor: Jean-Paul Brighelli [1953-] é um professor e ensaísta francês. É licenciado pela École Normale Supérieure de Saint-Cloud e professor de literatura, tendo percorrido o essencial do panorama educativo francês, desde o ensino secundário até à universidade. Dirige o blog “Bonnet d’âne” alojado por Le Causeur. (ver também wikipedia aqui)

 

 

 

 

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