DO PENSAMENTO OFICIAL A ALGUMAS LINHAS DE FRATURA, SOBRE A GUERRA DA UCRÂNIA – UMA SÉRIE DE TEXTOS – III – REFLEXÕES EM TORNO DE UM FALSO DISCURSO DE ESQUERDA SOBRE A UCRÂNIA ESCRITO POR MATT DUSS, UM CONSELHEIRO DE BERNIE SANDERS – por JÚLIO MARQUES MOTA

 

Matt Duss é conselheiro de Bernie Sanders.  Estamos perante um texto importante que nos mostra como é que a guerra da Ucrânia  está a dividir ou a silenciar grande parte da esquerda, uma esquerda que segundo Matt Duss precisa de estar unida em torno de Biden, porque este defende uma boa causa.

Com efeito Matt Duss vai bem mais longe do que qualquer texto que tenhamos lido sobre a guerra da Ucrânia nos considerandos que faz para se apoiar Biden. Ao contrário  de muitos dos autores que defendem mais armas e mais poderosas para a Ucrânia e que para justificarem a sua posição dizem que esta guerra não é assimilável a nenhuma outra, passando por cima de todas as outras, Duss faz o inverso: sublinha o crime que foram todas as outras guerras mas que esta não se enquadra no mesmo qualificativo, porque apoiar a Ucrânia é defender a paz no mundo. Não limpa os americanos dos crimes horrorosos que constituíram as ditas guerras passadas em que os americanos estiveram envolvidos, crimes de que nunca serão julgados porque não ratificaram a Convenção de Haia.

Duss afirma estar de acordo com Susana Sontag quando nos diz, referindo-se a esta importante figura da esquerda americana:

Susan Sontag “ousara sugerir que os ataques ([de Setembro de 2011] eram em parte uma consequência das políticas dos EUA (uma afirmação que, ironicamente, a administração Bush confirmaria com a sua própria “Agenda da Liberdade” de curta duração, que procurava inverter décadas de apoio dos EUA aos regimes autoritários do Médio Oriente) e que os americanos não deveriam permitir que o nosso trauma coletivo fosse explorado para apoiar uma nova Cruzada. 

Vamos, por todos os meios, lamentar juntos. Mas não sejamos estúpidos juntos”, escreveu Sontag em The New Yorker. “Alguns pedaços de consciência histórica podem ajudar-nos a compreender o que acabou de acontecer, e o que pode continuar a acontecer”. O jornalista Hitchens escarnecera desta “análise geopolítica desdenhosa”. O texto de Sontag foi, em retrospetiva, mais corajoso e premonitório do que qualquer coisa que Hitchens alguma vez voltaria a escrever, fazendo perguntas difíceis e necessárias precisamente no momento em que era necessário fazê-las, quando seria muito custoso estar a colocá-las.” Fim de citação

Dito de outra maneira, Matt Duss está com toda a esquerda no que diz respeito ao imperialismo americano e às guerras hediondas que estes estiveram envolvidos e como principais responsáveis, coisa que é rara nos círculos políticos de Washington, saúde-se.

Porém, Matt Duss aceita uma das ideias de Hitchens: “Todas as objeções da esquerda, escreveu Hitchens, resumem-se a isto: Nada nos fará lutar contra um mal se essa luta nos obrigar a ir para o mesmo canto que o nosso próprio governo“.

Curiosamente, significa que a esquerda americana de forma cega coloca o governo como principal adversário, o Governo, não distinguindo o governo bom do governo mau, as medidas boas das medidas más. O governo americano é sempre mau, seja ele democrata ou republicano.. Esta é uma outra versão do que se passou em Portugal, não se podia ter nenhum ponto comum com o PC porque este partido deveria ser abatido: era o partido social-fascista.  E a lógica desta posição era simples: se  dadas posições  do PC eram incorretas na ótica maoista então deveriam  ser tenazmente  combatidas. E se determinadas medidas defendidas pelo PC estivessem corretas, mesmo na ótica maoista, que fazer? Simplesmente, deviam ser combatidas com a mesma força que no caso anterior. Porquê? Porque se não o fossem, o PC ganharia força para poder a seguir e com mais eficácia defender depois medidas que os maoistas achariam incorretas e a esquerda “correta” não teria depois força para o combater. Resolve-se o mal pela raiz. Ataca-se sempre o PC como Partido Social-fascista.

Se a esquerda americana se comporta assim ou não como a esquerda maoista em Portugal, isso não sei.  O que sei é que o que Matt Duss nos propõe é a tese de que no quadro do sistema americano há governos bons e governos maus, medidas boas e medidas más. Devemos saber distinguir. Colocada a questão no caso da guerra da Ucrânia, há guerras boas e guerras más. Todas as outras terão sido más, mas a da Ucrânia não. Teríamos assim uma outra versão de que esta guerra não é relacionável com nenhuma das outras: as outras serviam o imperialismo americano, esta defende a Humanidade no seu caminho para a paz.  Curioso raciocínio, mesmo que não se explique a passagem do odioso das outras guerras para a finalidade harmoniosa desta. Dê-se a palavra ao conselheiro de Bernie Sanders, Matt Duss:

Devemos reconhecer absolutamente que o ceticismo em relação ao tipo de alguns slogans que temos visto em torno da guerra da Rússia é inteiramente razoável. A nossa classe política advoga a violência militar com uma regularidade e facilidade psicopáticas. Os nossos políticos exigem que outros mostrem mais coragem perante a violência de Vladimir Putin do que alguma vez foram capazes de reunir perante os tweets de Donald Trump. Não devemos, contudo, deixar que todo este absurdo nos cegue para os casos em que a prestação de ajuda militar pode fazer avançar uma ordem global mais justa e humanitária. A assistência à defesa da Ucrânia contra a invasão russa é uma tal instância.

As intermináveis intervenções militares dos últimos 20 anos geraram um ceticismo duramente conquistado não só entre a esquerda, mas entre o povo americano em relação ao uso da força. Os nossos grupos de reflexão financiados pelos traficantes de armas não gostam, mas esta é a posição por defeito apropriada para uma democracia responsável. É difícil escapar à impressão de que muitos em Washington veem a guerra na Ucrânia como uma bênção, algo para ajudar tanto a transcender as nossas batalhas internas como a tirar a política externa dos EUA do marasmo e restaurar o seu significado e potência. Isto é incrivelmente perigoso. “ Fim de citação.

As outras guerras alimentaram o complexo industrial-militar e na guerra da Ucrânia, pelos vistos, não será assim, mas Duss não explica como é que não será assim.

Mas Matt Duss vai mais longe. No parágrafo seguinte esclarece-nos:

Mas devemos também reconhecer que a administração Biden não é a administração Bush. A equipa Biden claramente não procurou esta guerra, na verdade, fez um esforço diplomático extenuante, e muito conhecido, para a evitar. Tendo sido incapazes de o fazer, agiram com moderação e cuidado para não serem arrastados para uma guerra mais vasta com a Rússia, ao mesmo tempo que deixaram claro o que está em jogo no conflito para os EUA, para a Europa e para o sistema internacional. Não tenho sido tímido em criticar esta administração onde não tem conseguido defender princípios progressistas. É uma lista longa, deprimente, e crescente. Mas a Ucrânia é uma área em que penso que a administração está, na sua maioria, a acertar.” Fim de citação.

Há guerras boas e guerras más, há governos maus e governos bons. O governo Bush é um governo mau, o governo de Biden é um governo bom, a sua decisão sobre a guerra da Ucrânia é pois uma medida  boa!

Depois há aqui a grande mentira: “A administração Biden não procurou esta guerra, na verdade fez um esforço diplomático extenuante, e muito conhecido, para a evitar”, é o que Duss nos diz. Basta ler qualquer artigo sério  sobre o assunto para se perceber exatamente o contrário. Veja-se entre muitos outros o vídeo do Coronel e Senador  Richard Black (ver aqui), ou os textos publicados por militares portugueses. Esclarecedor também, por exemplo e entre muitos, o que nos diz Egon von Greyerz:

O Presidente Zelensky está a fazer tudo o que pode para envolver militarmente o resto do mundo, exigindo mais dinheiro e mais armas do Ocidente, em vez de colocar os seus esforços em negociações de paz. É claro que a Ucrânia sozinha nunca poderá vencer a guerra contra a Rússia. E arrastar os EUA e a NATO só pode levar a uma guerra de consequências incalculáveis e potencialmente uma III Guerra Mundial, que poderia ser nuclear.

E, no Ocidente, nem um único líder está a fazer uma tentativa séria de paz. De Biden a Johnson, Macron e Scholz, apenas ouvimos falar de mais armas e mais dinheiro para a Ucrânia. Isto é terrivelmente trágico e um sinal de liderança totalmente incompetente no Ocidente.

(…)

Assim, os EUA e o Ocidente não têm capacidade ou desejo de alcançar a paz. E Boris Johnson deu as boas-vindas à guerra como um desvio das suas pressões políticas internas da “Partygate” e, por conseguinte, tomou uma posição agressiva contra a Rússia em vez de encontrar uma solução pacífica.” Fim de citação

Mas sobre a guerra não desejada basta dar uma olhadela pelo relatório monumental da Rand Corporation de 2019 para perceber que esta guerra estava ser preparada desde há muito. Apenas não se sabia quando é que rebentaria. Trata-se de um relatório de cerca de 350 páginas em que são escalpelizadas de forma detalhada as múltiplas vias pelas quais  os Estados Unidos e os seus aliados podem enfraquecer e depois vencer o que é tomado como o seu grande adversário. É esclarecedor.  De forma mais direta, o que este relatório nos indica é que, desde longa data, e ao contrário do que diz Matt Duss, o plano das diversas Administrações americanas ao longo dos anos tem sido o de querer fazer cair o governo russo, por uma insurreição interna e por uma guerra económica e menos por uma guerra militar direta.

Diz-se no relatório da Rand Corporation:

Impor sanções mais duras é também suscetível de degradar a economia russa, e poderia fazê-lo em maior medida e mais rapidamente do que manter preços baixos do petróleo, desde que as sanções sejam abrangentes e multilaterais. A eficácia desta abordagem dependerá da vontade de outros países de aderirem a tal processo. Para além disso, as sanções vêm com custos substanciais e riscos consideráveis e só terão impacto se forem amplamente adotadas. Em contraste, a maximização da produção de petróleo dos EUA implica poucos custos ou riscos, pode produzir benefícios de segunda ordem para a economia dos EUA, e não necessita de aprovação multilateral.

O aumento da capacidade da Europa para importar gás de outros fornecedores que não a Rússia apresenta um terceiro esforço, a longo prazo e mais dispendioso, que poderia fragilizar economicamente a Rússia e proteger a Europa contra a coerção energética russa. A Europa está lentamente a avançar nesta direção através da regaseificação da construção de instalações para gás natural liquefeito. Para ser verdadeiramente eficaz, esta medida necessitaria de mercados globais de gás natural para se tornar mais flexível.

Num cenário de alcance semelhante, encorajar a emigração da Rússia de mão-de-obra qualificada e de jovens de elevada formação poderia ajudar os Estados Unidos e prejudicar a Rússia, mas quaisquer efeitos, tanto positivos para os Estados Unidos como negativos para a Rússia, seriam difíceis de notar, exceto se esta prática se centrar sobre um período muito longo.

Apesar destas dificuldades, os efeitos limitados na estabilidade interna russa e na imagem internacional poderiam ser alcançados por uma campanha de informação ocidental que ajudasse a minar aspetos chave da legitimidade assumida pelo regime e funcionasse em conjunto com vulnerabilidades preexistentes do regime em questões como a corrupção.

Outra forma de fragilizar a Rússia é tornar os seus compromissos estrangeiros mais dispendiosos, mas isto revela-se bastante arriscado para os Estados Unidos e os seus aliados e parceiros.

Os militares ucranianos já estão a fazer a Rússia sangrar na região de Donbass (e vice-versa). Fornecer mais equipamento militar americano e aconselhamento poderia levar a Rússia a aumentar o seu envolvimento direto no conflito e o preço a pagar por ele.

A maioria destas medidas – seja na Europa ou no Médio Oriente – corre o risco de provocar uma reação russa que poderia impor grandes custos militares aos aliados norte-americanos e grandes custos políticos aos próprios Estados Unidos. Aumentar o aconselhamento militar e o fornecimento de armas à Ucrânia é a mais viável destas opções com o maior impacto, mas qualquer iniciativa deste tipo teria de ser calibrada com muito cuidado para evitar um conflito amplamente alargado.

As melhores estratégias de imposição de custos são aquelas que incorporariam uma combinação de abordagens que são acessíveis para os Estados Unidos, não criam riscos excessivos de instabilidade, e geram suficientes receios em Moscovo para que a Rússia seja levada a investir em medidas defensivas (ou contraofensivas) dispendiosas. Entre os fortes defensores de uma estratégia que implique custos contra a Rússia incluem-se investimentos em mísseis de cruzeiro de longo alcance, mísseis antirradiação de longo alcance, e – se forem suficientemente acessíveis para serem produzidos em elevado número -autónomos ou pilotados à distância. Todas estas medidas gerariam pressão sobre Moscovo para aumentar o alcance e as capacidades dos elementos terrestres e aéreos dos sistemas de defesa aérea integrados da Rússia, o que seria dispendioso.

Medidas Marítimas

Há várias medidas que os Estados Unidos e os seus aliados poderiam tomar para incentivar a Rússia a desviar recursos de defesa para o domínio marítimo, uma área onde os Estados Unidos já possuem vantagens comparativas fundamentais.

Um patrulhamento mais agressivo dos EUA e aliados perto das áreas de bases navais russas poderia levar a Rússia a adotar contramedidas dispendiosas.

Os Estados Unidos poderiam também desenvolver mísseis que pudessem suprimir as defesas aéreas russas (por exemplo, um míssil antirradiação de lançamento submarino) ou veículos blindados de ataque e destruição (por exemplo, uma versão em submarina lançada do Sistema de Mísseis Táticos do Exército). Qualquer uma das armas poderia alterar os pressupostos de planeamento russos. Os planeadores militares russos enfrentariam então a perspetiva de aceitar riscos adicionais no seu planeamento militar, aumentando as suas forças envolvidas numa dada contingência, ou investindo nos seus próprios esforços na guerra antissubmarina para embotar este programa de desenvolvimento dos EUA.

A maioria das etapas cobertas neste trabalho são, de certa forma, em escalada e, muito provavelmente, provocariam alguma contra escalada russa. Para além dos riscos específicos associados a cada medida, existe, portanto, um risco adicional associado a uma concorrência geralmente intensificada com um adversário com armas nucleares, risco este que deve ser considerado. Consequentemente, cada medida precisa de ser deliberadamente planeada e cuidadosamente calibrada para alcançar o efeito desejado. Finalmente, embora a Rússia suportasse o custo desta concorrência acrescida com menos facilidade do que os Estados Unidos, ambas as partes teriam de desviar os recursos nacionais de outros objetivos. A fragilização por si-mesma da Rússia não é, na maioria dos casos, uma base suficiente para considerar as medidas aqui delineadas. Pelo contrário, estas precisam de ser consideradas no contexto mais amplo da política nacional baseada na defesa, dissuasão, e – onde os interesses dos EUA e da Rússia alinham – na cooperação.” Fim de citação.

Repare-se no final da conclusão deste excerto do relatório da RAND Corporation: “as medidas para minar fortemente o Estado russo precisam de ser consideradas no contexto mais amplo da política nacional baseada na defesa, dissuasão, e – onde os interesses dos EUA e da Rússia alinham – na cooperação.”  Fim de citação

O acordo Zellensky-Biden de Novembro que passa pela implantação da NATO em terreno ucraniano, a rejeição das propostas de Putin quanto à desmilitarização de toda aquela zona, apenas aceleraram essa pretensão americana, e poderão representar a mudança do contexto geral a que a RAND Corporation se refere, levando a que se tenha dado um grande salto belicista no perigoso caminho que nos pode levar à Terceira Guerra Mundial.

Como assinala o analista americano Martin Hirsch na revista Political Affairs:

Numa série dramática de mudanças esta semana, o Presidente dos EUA Joe Biden e os seus aliados da NATO passaram da sua política de ajudar a defender a Ucrânia contra a agressão russa para uma política de minar o poder e a influência da própria Rússia. Ao fazê-lo, alguns observadores receiam, não estão a deixar ao Presidente russo Vladimir Putin outra escolha que não seja render-se ou duplicar militarmente, levantando a possibilidade de alargar a sua guerra para além da Ucrânia.

Na quinta-feira, Biden instou o Congresso a fornecer 33 mil milhões de dólares em assistência militar, económica e humanitária adicional à Ucrânia – mais do dobro do montante anterior – e disse que estava a enviar uma mensagem clara a Putin: “Nunca conseguirá dominar a Ucrânia”. Para além disso, Biden disse em comentários na Casa Branca, com a nova política pretendia “punir a agressão russa, para diminuir o risco de conflitos futuros“.

Isto seguiu-se a uma declaração igualmente clara esta semana do Secretário da Defesa dos EUA Lloyd Austin, que após uma reunião em Kiev com o Presidente ucraniano Volodymyr Zelensky disse que o objetivo dos EUA é agora reduzir o poder da Rússia a longo prazo para que não tenha a “capacidade de reproduzir” o seu ataque militar à Ucrânia. “Queremos ver a Rússia enfraquecida ao ponto de não poder fazer o tipo de coisas que fez ao invadir a Ucrânia”, disse Austin, numa escala na Polónia.” Fim de citação

Enfraquecer a Rússia a longo prazo, é o que se diz agora alto e bom som, mas isto não é nada mais nada menos que o que está escrito no relatório da RAND Corporation de 2019. E um texto de  Rand CORPORATION é como que um documento semioficial. Tudo isto desmente, como é evidente, o discurso de Matt Duss.

Matt Duss está a escrever um texto que deve ser destinado a toda a esquerda e qualquer que seja a sua posição geográfica. Sabe que Bernie Sanders é um farol para o mundo como o foi Jeremy Corbyn, sabe, portanto, que não pode colocar-se em oposição à conceção que a esquerda a nível mundial tem da política externa americana, uma política imperial. Nesta base, com este seu artigo tenta seduzir tanto a esquerda à escala dos Estados Unidos como a esquerda à escala mundial.

Quanto à esquerda americana fá-lo com um discurso cativante sobre as “criminosas” guerras em que os USA estiveram envolvidos desde os anos sessenta, distinguindo todo esse longo período de guerras injustas da “guerra justa” que Zelensky está a travar contra a Rússia, para o que precisa de armas, muitas e potentes armas. Desta forma – é a primeira vez que vejo isto – tenta seduzir esta esquerda para o seu objetivo: o de que esta esquerda aceite de mãos dadas a política americana face à Rússia, dizendo que não se trata de uma guerra entre a Rússia e os EUA, tendo por palco da disputa a Ucrânia, mas de um apoio dos EUA a Zelenky o aparente herói de toda esta história. E Matt Duss afirma neste sentido: “a prestação de ajuda militar pode fazer avançar uma ordem global mais justa e humanitária. A assistência à defesa da Ucrânia contra a invasão russa é uma tal instância”.

Quanto à esquerda à escala mundial Duss ataca dois símbolos que muito respeita. Noam Chomsky  e Lula da Silva. Vejamos os argumentos:

Quanto a Noam Chomsky:

“Numa entrevista de Abril com Nathan Robinson, da Current Affairs, Chomsky disse: “Há duas opções no que diz respeito à Ucrânia”:

No nosso mundo atual, existem duas opções no que diz respeito à Ucrânia. Como sabemos, uma opção é um acordo negociado, que oferecerá a Putin uma saída, um acordo bastante repugnante.  Será ele possível? Não sabemos; só podemos saber ao tentar mas recusamo-nos a tentar. Mas essa é uma opção. A outra opção é deixar explícita e claramente claro a Putin e ao pequeno círculo de homens à sua volta que não há saída, que eles vão ser julgados num julgamento por crimes de guerra, façam eles o que fizerem. É o que Boris Johnson acaba de dizer novamente: as sanções continuarão, independentemente do que façam. O que é que isso significa? Significa: ir em frente e destruir a Ucrânia e preparar o terreno para uma guerra terminal.

Estas são as duas opções: e estamos a escolher a segunda e a elogiarmo-nos pelo heroísmo e por fazê-la : lutar contra a Rússia até ao último ucraniano.”

Quanto a Lula da Silva

Numa entrevista à revista Time no início de Maio, Lula disse: “Putin não deveria ter invadido a Ucrânia. Mas não é só Putin que é culpado. Os EUA e a União Europeia também são culpados. Qual foi a razão para a invasão da Ucrânia? A NATO? Então os Estados Unidos e a Europa deveriam ter dito: “A Ucrânia não vai aderir à NATO”. Isso teria resolvido o problema….

Pergunta a Time: Acha que a ameaça de adesão da Ucrânia à NATO foi a verdadeira razão da Rússia para a invasão?

Esse é o argumento que eles apresentaram. Se eles têm um segredo, nós não sabemos. A outra questão era a adesão da Ucrânia à UE. Os europeus poderiam ter dito: “Não, agora não é o momento para a Ucrânia aderir à UE, vamos esperar”. Eles não tinham de encorajar o confronto”.  Fim de citação

Diz-nos Matt Duss em resposta a estas posições:

Em primeiro lugar, é claro que devíamos estar a insistir num acordo. Quanto mais tempo esta guerra durar, pior será, sobretudo para os ucranianos, mas também para um mundo que já sofre de uma crise alimentar pandémica e induzida pelas alterações climáticas. Até ao momento em que escrevo estas linhas, não vi e não vejo qualquer sinal de um acordo na região – como no caso, um acordo que Putin iria realmente analisar, sem falar em aceitar – sobre o qual nos estejamos a recusar apoiar. A Ucrânia apresentou à Rússia um vasto conjunto de propostas há mais de um mês, incluindo um compromisso de “neutralidade permanente”.  Volodomyr Zelenskiy continua a oferecer-se para negociar diretamente com Putin para pôr fim à guerra. Quanto à alegação de que os EUA e aliados estão “a combater a Rússia até ao último  ucraniano”, isto sugere desonestamente que os ucranianos são meros instrumentos da política dos EUA. Mas já deveria estar claro que o povo ucraniano vai combater a invasão russa, quer os ajudemos ou não. Os EUA deveriam certamente estar ativamente empenhados em encontrar um caminho diplomático para acabar com a guerra, e evitar comprometer-se com objetivos maximalistas que possam excluir uma saída, mas de momento esse caminho não é claro.

No que diz respeito à afirmação de Lula sobre a NATO, vale a pena lembrar que nas semanas que antecederam a guerra, os aliados americanos, especificamente o Chanceler alemão Olaf Scholz e o Presidente francês Emmanuel Macron, sinalizaram claramente que estas questões estavam sobre a mesa. Scholz e Macron saíram ambos das suas reuniões de horas separadas com Putin e citaram especificamente a questão da potencial adesão da Ucrânia à NATO como pontos em discussão. Ou, mais exatamente, não estavam a ser debatidos, como isso não ia acontecer. Não era suficiente. Para ser claro, era inteiramente apropriado discutir estas preocupações se houvesse sequer a menor possibilidade de evitar esta catástrofe. Mas devemos reconhecer que Putin tornou agora essa discussão discutível”. Fim de citação do artigo de Matt Duss.

Dois pontos devem aqui ser sublinhados: Noam Chomsky, retomando a afirmação do diplomata Charles Freemam, acusa os Estados Unidos de fazerem uma   guerra por procuração e, no limite do absurdo, até que haja um ucraniano disposto a morrer. Uma prática de guerra por procuração que os Estados Unidos são useiros e vezeiros em praticar.  E a resposta de Matt Duss é apenas que isso é uma posição inadmissível porque isso sugere desonestamente que os ucranianos são meros instrumentos da política dos EUA e que já deveria estar claro que o povo ucraniano vai combater a invasão russa, quer os ajudemos ou não. Espantoso como resposta, como se nesta guerra a Ucrânia pudesse chegar ao ponto em que está sem as armas e os milhares de milhões dos EUA.

Quanto a Lula, e a Noam Chomsky as suas posições são semelhantes às que tenho defendido quanto a esta guerra. Sobre esta Matt Duss apenas divaga a propósito de dois valetes ao serviço de Biden no jogo de xadrez desta guerra, Macron e Scholtz, que bem se esforçaram por resgatar os homens da NATO que estavam a treinar o “bando nazi” chamado Batalhão Azov. e quanto ao diálogo Matt Duss diz-nos:

  1. Matt Duss diz que é discutível ou mesmo inútil o diálogo quanto à NATO com Putin ao dizer “Para ser claro, era inteiramente apropriado discutir estas preocupações se houvesse sequer a menor possibilidade de evitar esta catástrofe. Mas devemos reconhecer que Putin tornou agora essa discussão discutível.”

Ou:

  1. Matt Duss diz-nos ainda : “Os EUA deveriam certamente estar ativamente empenhados em encontrar um caminho diplomático para acabar com a guerra, e evitar comprometer-se com objetivos maximalistas que possam excluir uma saída, mas de momento esse caminho não é claro”.

Nada a fazer que não seja “apoiar” a Ucrânia e continuar a guerra, é no fundo a conclusão a que Matt Duss chega, considerando que para isso a esquerda, tanto americana como mundial deve estar unida em volta de Biden.

E aqui devemos sublinhar que o personagem menos relevante nas negociações, ao contrário do que diz Matt Duss, será exatamente a Ucrânia,  uma vez que é o mundo como um todo que está em jogo e que os principais atores  desse jogo são a Rússia e os Estados Unidos. Relembro aqui que em Março, Zelensky lançava a ideia de uma Ucrânia neutra que não entraria na NATO e sugeriu que as forças separatistas do leste da Ucrânia sejam reconhecidas.  A seguir disse ao Presidente do Conselho Europeu, Charles Michel que, à luz das atrocidades cometidas pelos russos – Bucha veio mesmo a calhar neste argumento – a opinião pública ucraniana era contrária às negociações e favorável à continuação da guerra. Matt Duss devia saber isto quando escreveu este seu artigo.

Este incidente, estas voltas e reviravoltas de Zelensky, leva-nos mais uma vez a colocar a questão se Zelesnky é um comediante ou um herói. Sobre esta questão diz-nos o embaixador Charles  Freeman:

“A guerra é um nevoeiro de mentiras de todos os lados. É praticamente impossível dizer o que está realmente a acontecer porque todos os lados estão a encenar o espetáculo. O campeão disso é o Sr. Zelenskyy, que é brilhante como comunicador, afinal de contas. Ele é um ator que encontrou o seu papel, e provavelmente ajuda muito a Ucrânia ter um presidente que é um ator de sucesso, que veio equipado com o seu próprio pessoal de estúdio, que está a usar isso brilhantemente. E diria que o Sr. Zelenskyy foi eleito para chefiar um estado chamado Ucrânia, e criou uma nação chamada Ucrânia” Fim de citação

A interpretar o que nos diz o embaixador Freeman é-se levado a considerar Zelensky  não um herói  mas   um comediante, aliás bem brilhante, e   que quer ter como palco o mundo, na representação de uma peça teatral  escrita até ao mínimo detalhe em Washington pelos neoconservadores, dominantes na Administração Americana desde o segundo mandato de Reagan até ao atual Presidente em exercício. Não é por acaso que a politica externa americana  tem sido uma constante como  se que cada Presidente americano eleito calçasse  as botas do Presidente cessante. Foi assim com Reagan-Bush-Clinton-Obama-Trump  e até agora com Biden, como se vê,   ou será que alguém consegue distinguir uns dos outros no que se refere à política externa?

Mas Matt Duss na sua análise em termos da esquerda vai mais longe e teme a implantação para séculos da PAX americana. Repare-se o que ele nos diz sobre o pós guerra:

Seria insensato, contudo, não reconhecer que Lula está a dar voz a muitos no Sul global que são céticos em relação aos apelos dos EUA que atuam com total impunidade, e em relação aos apelos a uma “ordem internacional baseada em regras” por parte de países que quebram essas regras quando julgam oportuno. Reconhecer a hipocrisia, e reconhecer o papel que os EUA e os seus aliados têm desempenhado ao minar a ordem que eles próprios construíram, é essencial para construir uma ordem melhor, mais estável, humana e progressista. Mas impedir os países poderosos de invadir e obliterar os mais fracos deve ser um princípio central de qualquer ordem deste tipo. E a hipocrisia do passado não deve servir de desculpa para não o dizer claramente, e agir de acordo com ela. “ (…)

“O objetivo da direita é dividir a esquerda e nós não devemos ajudá-los, mas o objetivo de construir uma esquerda mais forte é servido pela identificação, envolvimento e organização com aqueles que agem genuinamente sobre princípios de solidariedade, democracia e direitos humanos e não andar perder a tempo com vigaristas atrozes e provocadores.

É correto ser-se cauteloso e não se deixar ser arrastado para algo maior do que aquilo que queremos. É correto preocupar-se que a retórica da administração, parafraseando um dos filmes de recrutamento militar da era Reagan, seja cada vez mais a passar cheques que a sua política não pode descontar. Aqui, como depois do 11 de Setembro, o medo de reação exagerada é inteiramente apropriado – o nosso aparelho de política externa foi concebido para fomentar a reação exagerada, e depois aproveitar-se disso.”

(…)

Uma coisa que a esquerda definitivamente não deve fazer, nem ninguém, é acreditar na narrativa de que a guerra da Rússia contra a Ucrânia restaurou a missão e o propósito da América. Que o nosso país parece poder atribuir dinheiro de forma eficiente apenas para armas e pouco mais deveria ser uma fonte de vergonha, e não de orgulho. Observando a facilidade com que dezenas de milhares de milhões de dólares em ajuda à Ucrânia se movimentavam através do nosso Congresso, e quanto ao resto obstinado e improdutivo, Adam Tooze resumiu-o: “Que eles podem concordar com isso e não com a política de cuidados de saúde ou de alterações climáticas é um sinal da própria disfunção da América”.

Apesar do encantamento da nossa classe política [ com a guerra] , a guerra da Rússia contra a Ucrânia não é um conflito maníaco de sonho píxico que tirará o nosso país da sua crise de legitimação. Se permitirmos que este momento seja utilizado simplesmente para reunir um consenso quebrado em matéria de política externa de Washington, não iremos inverter essa crise, iremos aprofundá-la. Uma esquerda política influente, bem organizada e em crescimento é essencial para reparar este país – e isso inclui a sua política externa. A resposta à guerra da Rússia contra a Ucrânia é uma parte essencial disso. É possível, na verdade é essencial, aplicar a consciência histórica que Sontag exortou, e não sermos estúpidos juntos, reconhecendo ao mesmo tempo que apoiar a defesa da Ucrânia é a coisa certa a fazer pela esquerda global. Mesmo que seja o nosso próprio governo a fazê-lo.” Fim de citação.

De novo a sedução à esquerda. Qualquer homem entende o perigo do campo belicista de Washington ganhar ainda mais força na política americana, endurecendo-se a seguir a política externa americana. Biden já deu sinal disso mesmo quando foi  ao Japão e neste contexto ameaçar a China. Para que isso não aconteça, segundo Duss há que resgatar primeiro a Ucrânia e democratizar depois a sociedade americana, com a esquerda unida.

Mas ao escrever desta maneira Matt Duss sente que este último objetivo, necessário e urgente sairá retardado muito mais ainda, depois desta guerra acabar e qualquer que seja o seu resultado final.  Disto nos dá conta por procuração, mais uma vez, um fiel valete de Biden, Boris Johnson, um político em queda como ele e a quem esta guerra pode salvar, quando o governo britânico afirma, segundo descreve Martin Hirsch:

As coisas poderiam tornar-se ainda mais complicadas se um Ocidente recentemente encorajado e a NATO estendessem a sua influência para além da Europa, Ásia Central e Médio Oriente ao Indo-Pacífico, como sugeriu a Secretária dos Negócios Estrangeiros britânica Liz Truss num discurso esta semana. Truss disse que “a NATO deve ter uma perspetiva global, pronta para lidar com as ameaças globais. Devemos antecipar as ameaças na região Indo-Pacífico, trabalhando com os nossos aliados como o Japão e a Austrália para assegurar a proteção do Pacífico. E devemos assegurar que democracias como Taiwan sejam capazes de se defenderem.

Isto, por sua vez, aumenta a perspetiva de uma prolongada Guerra Fria global, não só com a Rússia mas também com a China. E essa guerra poderia facilmente tornar-se quente, disse Beebe[1], com os EUA e os seus aliados a enfrentarem uma aliança entre “uma Rússia rica em recursos e uma China tecnológica e economicamente poderosa”.[2] Fim de citação.

Em conclusão apenas uma linha: o texto de Matt Duss é um dos textos mais inteligentes que já lemos  sobre a crise da guerra da Ucrânia face aos objetivos pretendidos pelo seu autor, num discurso em muito dele correto mas assente intencionalmente em premissas falsas, e por isso um texto que se me tornou urgente desmontar.

Sublinhemos ainda que a posição defendida através dos textos de António Gomes Marques, Francisco Tavares e eu próprio enquadra-se perfeitamente no que dizem sobre esta tragédia Lula da Silva, Charles Freeman,  Chomsky,  entre tantos outros, o que nos dá a ideia, a todos nós,  que estamos bem acompanhados.

Coimbra, 5 de junho de 2022

Júlio Marques Mota

__________________

[1] George Beebe, antigo chefe de análise  da CIA em assuntos da Rússia

[2] Nota do Tradutor. É preocupante o nível intelectual e cultural baixíssimo que apresentam alguns dos nossos governantes que, ainda por cima, estão à frente dos mais importantes países belicistas desta tragédia humanitária que é a guerra da Ucrânia. No caso agora em análise refiro-me a  Elizabeth Mary Truss que cometeu as seguintes monumentais gaffes: a)  gastou £500.000 de dinheiro público voando para a Austrália num avião privado para avisar o governo de Camberra de que tanto a Rússia como a China estavam prestes a atacar, não ofereceu qualquer prova; b) em Moscovo Truss confundiu alegremente os países do Báltico e do Mar Negro. Em Moscovo, disse ao Ministro dos Negócios Estrangeiros russo que a Grã-Bretanha nunca aceitaria a soberania russa sobre Rostov e Voronezh – até lhe ter sido assinalado que estes lugares não faziam parte da Ucrânia, mas sim da Rússia.


Para ler o artigo de Matthew Duss, publicado ontem em A Viagem dos Argonautas, clique em: 

DO PENSAMENTO OFICIAL A ALGUMAS LINHAS DE FRATURA, SOBRE A GUERRA DA UCRÂNIA – UMA SÉRIE DE TEXTOS – II – PORQUE É QUE A UCRÂNIA É IMPORTANTE PARA A ESQUERDA, por MATTHEW DUSS

 

Leave a Reply