CARTA DE BRAGA – “da crise a Lampedusa” por António Oliveira

Aparentemente, a condição actual da cultura actual parece ser a do conformismo pois, através do ecrã, se actua de modo a evitar um qualquer assomo de identidade. Uma contradição também referida por Zygmunt Bauman, ‘As acções humanas são regularizadas por forças supra-individuais que vêm abertamente do exterior, coacções”, ou de dentro, projecto de vida ou consciência, forças inteiramente responsáveis pela não-causalidade da conduta dos homens’.

Considerando o indivíduo livre como uma criação histórica e social, e a liberdade como a condição simultânea para a integração e para a reprodução, Bauman salienta, ‘centralidade da liberdade individual é como um elo que mantém unido o mundo da vida individual, numa sociedade e num sistema social, atingidos com o deslocamento da liberdade para fora da área da produção e do poder, para dentro da área do consumo, onde a liberdade individual é fundamentalmente a liberdade do consumidor.

Deste modo, é pelas operacionalidade e imposição da sociedade de comunicação e consumo, que a ‘ruptura’ entra na consciência histórica, na herança e na linguagem.

Ruptura que será, de algum modo, o esvaimento da imagem pessoal como somatório de tudo o que se foi, para gradualmente ser substituída por uma nova identidade tribal, baseada em novas formas de experimentar e de se mostrar ao mundo, pondo de lado a identidade, a interioridade e a até a própria história. O ensaísta e crítico literário João Barrento, vê a ‘ruptura’ de outro modo ‘A cultura do espectáculo, da moda à política e ao mundo da literatura, não é crítica, é performativa, e a nossa contemporaneidade não tem um projecto, só tem estaleiros, uma cultura de cidadelas, que vive com a crise e a cultiva – mas esta crise deixou de estimular qualquer potencial crítico’.

George Orwell, na sua obra maior ‘1984’ já referia esta situação, ‘Quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado’, aliás uma parte do slogan do Partido, a entidade criada e utilizada por Orwell para representar o estado totalitário por ele imaginado, no final da década de 1940. Tudo junto também numa afirmação do poeta Luís de Castro Mendes, numa das suas crónicas do DN, ‘A verdade é que os leitores formam hoje, aos olhos da edição de massas, não um público, mas um mercado, não um sujeito que reage e sinaliza, mas um inerte objeto de marketing’.

Aliás estamos a viver em plena época de transição, social, política e económica, sem ter a mais pequena ideia do caminho que vamos tomar e seguir. E estão já aí, tempos muito convulsos, mesmo sem sequer se notarem quaisquer mudanças de estratégias, tudo a mostrar a manutenção das desigualdades, com os ganhadores e os perdedores do costume e, pelo que se pressente e prevê, serão estes últimos a perder outra vez, e ainda mais.

Aliás o escritor e também jornalista correspondente do El País e outros jornais, Enric González, resume tudo de maneira simples numa crónica para a Cadena Ser, ‘Tenho uma ideia, baseada nas doutrinas políticas actuais, a que chamo o pingar. Consiste em fazer os ricos cada vez mais ricos, para que as suas sobras pinguem sobre as classes mais desfavorecidas. Na verdade, é assim que funcionam as coisas’.

E a quem vamos pedir para se intensificar uma política baseada em valores, para acabar com as desigualdades, a pobreza, as divergências de género, a instabilidade social e política, para assegurar um desenvolvimento sustentável, que apanhe todos?

Toda a gente vê como a crise do jornalismo, acentuada pelo domínio avassalador das redes sociais, elevou à categoria de informação e conhecimento, o que não passa de espectáculo e frivolidade. Arrastada por isto mesmo, a convivência que se tentava equilibrar num modelo de democracia institucional, parece também ter regredido cultural e ideologicamente, com especial relevância no que se refere aos direitos humanos.

E não há debate público sobre temas como a mudança climática, educação e saúde públicas, tributação de lucros excessivos a tirar vantagem das crises, ou ainda sobre a justiça e a terceira idade, sem sermos atrancados por negacionistas ou pela manipulação de factos, que logo nos querem levar para conclusões elitistas, desfasadas da realidade e até alheias ao que se pretende debater.

Não é uma situação inédita, as ‘crises’ vão repetindo-se a espaços desde há séculos, envolvendo o mundo todo, mas na Europa há uma sensação nítida de mudança de ‘era’. O que há pouco tempo parecia impossível, hoje é já ‘natural’. Já se começa a falar de ‘racionamento’, embora disfarçado como ‘poupança’, até porque o próximo Inverno irá ser certamente muito duro, em todos os aspectos a considerar.

Luís Castro Mendes escreveu há poucos dias no DN, ‘Mesmo nesta ilusória suspensão do tempo, a História nunca deixa de vir ter connosco’, mas Giuseppe Tomasi di Lampedusa, em 1950, deixou no seu romance ‘O Leopardo’, uma das sentenças mais dramáticas sobre estes retornos da História, ‘Se queremos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude’.

Até parece hoje, não é?

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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