A Guerra na Ucrânia — A Alemanha e a UE receberam uma declaração de guerra. Por Pepe Escobar

Seleção e tradução de Francisco Tavares

9 m de leitura

A Alemanha e a UE receberam uma declaração de guerra

 Por Pepe Escobar

Publicado por  em 28 de Setembro de 2022 (original aqui)

 

A sabotagem dos gasodutos Nord Stream (NS) e Nord Stream 2 (NS2) no Mar Báltico impulsionou sinistramente o “Capitalismo de Desastre” para um totalmente novo e tóxico nível.

 

Este episódio de Guerra Industrial/Comercial Híbrida, sob a forma de um ataque terrorista contra infra-estruturas energéticas em águas internacionais, assinala o colapso absoluto do direito internacional, afogado por uma ordem “baseada em regras” “à nossa maneira”.

O ataque aos dois oleodutos consistiu em múltiplas cargas explosivas detonadas em ramos separados perto da ilha dinamarquesa de Bornholm, mas em águas internacionais.

Tratou-se de uma operação sofisticada, levada a cabo furtivamente na pouca profundidade dos estreitos dinamarqueses. Isso excluiria em princípio os submarinos (os navios que entram no Báltico estão limitados a um calado de 15 metros). Quanto aos possíveis navios “invisíveis”, estes só poderiam circular com autorização de Copenhaga – uma vez que as águas em torno de Borholm estão repletas de sensores, reflectindo o medo de incursão por parte dos submarinos russos.

Os sismólogos suecos registaram duas explosões submarinas na segunda-feira – uma delas estimada em 100 kg de TNT. No entanto, até 700 kg podem ter sido utilizados para rebentar três nós de gasodutos separados. Tal quantidade não poderia ter sido entregue em apenas uma viagem por drones subaquáticos actualmente disponíveis em nações vizinhas.

A pressão nos gazodutos caiu exponencialmente. As condutas estão agora cheias de água do mar.

As condutas tanto na NS como na NS2 podem ser reparadas, claro, mas dificilmente antes da chegada do General Inverno. A questão é saber se a Gazprom – já concentrada em vários clientes eurasiáticos de peso – se preocuparia, especialmente considerando que os navios da Gazprom poderiam ser expostos a um possível ataque naval da NATO no Báltico.

Os responsáveis alemães já estão a dizer que o NS e o NS2 podem “potencialmente” estar fora de serviço “para sempre”. A economia da UE e os cidadãos da UE precisavam muito desse fornecimento de gás. No entanto, a EUrocracia em Bruxelas – que governa os estados-nação – não o quis, porque ela própria foi ditada pelo Império do Caos, Mentiras e Pilhagem. Pode argumentar-se que esta euro-oligarquia deveria um dia ser julgada por traição.

No estado atual das coisas, uma irreversibilidade estratégica é já evidente; a população de várias nações da UE pagará um preço tremendo e sofrerá graves consequências derivadas deste ataque, a curto, médio e longo prazo.

 

A quem beneficia?

A primeira-ministra sueca Magdalena Andersson admitiu que se tratou de “uma questão de sabotagem”. A primeira-ministra dinamarquesa Mette Frederiksen admitiu que “não foi um acidente”. Berlim concorda com os escandinavos.

Agora compare estas posições com a do ex-ministro da Defesa polaco (2005-2007) Radek Sikorski, um Russófobo casado com a “analista” americana raivosa Anne Applebaum, que tuitou alegremente “Obrigado, EUA”.

É cada vez mais curioso quando sabemos que, simultaneamente com a sabotagem, o gasoduto Báltico da Noruega para a Polónia foi parcialmente aberto, um “novo corredor de fornecimento de gás” que serve “os mercados dinamarquês e polaco”: na verdade, é um caso menor, considerando que há meses atrás os seus patrocinadores tinham dificuldade em encontrar gás, e agora será ainda mais difícil, com custos muito mais elevados.

O NS2 já tinha sido atacado – a céu aberto – ao longo de toda a sua construção. Em Fevereiro, navios polacos tentaram activamente impedir que o navio de colocação de tubos Fortuna acabasse o NS2. Os tubos estavam a ser colocados a sul de – adivinhou – Bornholm.

A NATO, por seu lado, tem estado muito activa no seu departamento de drones submarinos. Os americanos têm acesso a drones subaquáticos noruegueses de longa distância que podem ser modificados com outros desenhos. Alternativamente, mergulhadores profissionais da marinha poderiam ter sido empregados na sabotagem – mesmo se as correntes de maré em torno de Bornholm são um assunto sério.

O panorama mais geral mostra o Ocidente colectivo em pânico absoluto, com as “elites” atlantistas dispostos a recorrer a tudo – mentiras escandalosas, assassinatos, terrorismo, sabotagem, guerra financeira, apoio aos neonazis – para evitar a sua descida a um abismo geopolítico e geoeconómico.

A desactivação do NS e do NS2 representa o encerramento definitivo de qualquer possibilidade de um acordo de fornecimento de gás entre a Alemanha e a Rússia, com o benefício adicional de relegar a Alemanha para o humilde estatuto de vassalo absoluto dos EUA.

Isto leva-nos à questão-chave de qual o aparelho de informação ocidental que concebeu a sabotagem. Os principais candidatos são naturalmente a CIA e o MI6 – com a Polónia como bode expiatório e a Dinamarca a desempenhar um papel muito duvidoso: é impossível que Copenhaga não tenha sido, pelo menos, “informada” sobre o projeto.

Prescientes como sempre, já em Abril de 2021 os russos faziam perguntas sobre a segurança militar do Nord Stream.

O vector crucial é que podemos estar perante o caso de um membro da UE/NATO envolvido num acto de sabotagem contra a economia número um da UE/NATO. Isso é um casus belli. À margem da terrível mediocridade e cobardia da actual administração em Berlim, é evidente que a BND – o serviço de inteligência alemã – bem como a Marinha alemã e os industriais informados, mais cedo ou mais tarde, farão as contas.

Isto esteve longe de ser um ataque isolado. A 22 de Setembro houve um atentado contra o Turkish Stream por sabotadores de Kiev. No dia anterior, foram encontrados drones navais com identificação em língua inglesa na Crimea, suspeitos de fazerem parte da conspiração. Acrescente-se a isto helicópteros americanos sobrevoando os futuros nós de sabotagem há semanas; um navio de “investigação” britânico a vaguear em águas dinamarquesas desde meados de Setembro; e a NATO a tuitar sobre os testes de “novos sistemas não tripulados no mar” no mesmo dia da sabotagem.

 

Mostra-me o dinheiro (do gás)

O Ministro da Defesa dinamarquês reuniu-se urgentemente com o Secretário-Geral da NATO esta quarta-feira. Depois de todas as explosões terem ocorrido muito perto da zona económica exclusiva da Dinamarca (ZEE). Isso pode ser qualificado como um teatro grosseiro na melhor das hipóteses; exactamente no mesmo dia, a Comissão Europeia (CE) – o gabinete político de facto da NATO -, avançou com a sua obsessão de marca registada: mais sanções contra a Rússia, nomeadamente o plafonamento certificado dos preços do petróleo.

Entretanto, os gigantes da energia da UE estão condenados a perder muito com a sabotagem.

A lista de chamada inclui a alemã Wintershall Dea AG e a PEG/ E.ON; a holandesa N.V. Nederlandse Gasunie; e a francesa ENGIE. Depois há os que financiaram o NS2: Wintershall Dea novamente, bem como a Uniper; a austríaca OMV; a ENGIE novamente; e a British-Dutch Shell. Wintershall Dea e ENGIE são ambos co-proprietários e credores. Os seus accionistas, furiosos, vão querer respostas sérias de uma investigação séria.

Pior ainda: já não há limites na frente do terror dos gasodutos/oleodutos. A Rússia estará em alerta vermelho não só em relação ao Stream Turco, mas também em relação ao Power of Siberia. O mesmo se aplica aos chineses e ao seu labirinto de oleodutos que chegam a Xinjiang.

Seja qual for a metodologia e os actores que estiveram no circuito, isto é vingança – antecipadamente – pela inevitável derrota colectiva ocidental na Ucrânia. E um aviso brutal para o Sul Global de que o farão novamente. Contudo, a acção gera sempre reacção: a partir de agora, “coisas engraçadas” podem também acontecer aos oleodutos EUA/Reino Unido em águas internacionais.

A oligarquia da UE está a atingir um processo avançado de desintegração à velocidade da luz. A sua janela de oportunidade para pelo menos tentar um papel como actor geopolítico estrategicamente autónomo está agora fechada.

Estes EUROcratas enfrentam agora uma grave situação difícil. Uma vez que seja claro quem são os perpetradores da sabotagem no Báltico, e uma vez que compreendam todas as consequências socioeconómicas para os cidadãos pan-europeus, o teatro terá de parar. Nomeadamente a já em curso intriga super ridícula de que a Rússia fez explodir a sua própria conduta quando a Gazprom poderia simplesmente ter desligado as válvulas de vez.

E mais uma vez, a situação piora: a Gazprom ameaça processar a empresa energética ucraniana Naftofgaz por contas por pagar. Isso levaria ao fim do trânsito de gás russo pela Ucrânia em direcção à UE.

Como se tudo isto não fosse suficientemente sério, a Alemanha está contratualmente obrigada a comprar pelo menos 40 mil milhões de metros cúbicos de gás russo por ano até 2030.

Basta dizer não? Não podem: A Gazprom tem o direito legal de ser paga mesmo sem transportar gás. Esse é o espírito de um contrato a longo prazo. E já está a acontecer: devido às sanções, Berlim não recebe todo o gás de que necessita, mas mesmo assim tem de pagar.

 

Todos os demónios estão aqui

Agora é dolorosamente claro que o império retira as luvas de veludo quando se trata dos vassalos. A independência da UE: proibida. Cooperação com a China: proibida. Conectividade comercial independente com a Ásia: proibida. O único lugar para a UE é estar subjugada economicamente aos EUA: um remix de 1945-1955. Com uma torção neoliberal perversa: possuiremos a vossa capacidade industrial, e vocês não terão nada.

A sabotagem do NS e do NS2 está embutida no sonho imperial erótico de dividir a massa terrestre eurasiática em mil pedaços para evitar uma consolidação trans-Eurasiática entre a Alemanha (representando a UE), Rússia e China: 50 milhões de milhões de dólares no PIB, baseado na paridade do poder de compra (PPP), em comparação com os 20 milhões de milhões de dólares dos EUA.

Temos de voltar ao que dizia o geógrafo Mackinder: o controlo da massa terrestre eurasiática constitui o controlo do mundo. As elites americanas e os seus cavalos de Tróia por toda a Europa farão o que for preciso para não abdicarem do seu controlo.

As “elites americanas”, neste contexto, englobam a enlouquecida, e [Leo] straussiana “comunidade de inteligência”, enfeudada aos neo-conservadores e a Grande Energia, a Grande Pharma e a Grande Finança que lhes paga e que lucram não só com a abordagem da Guerra eterna do Estado Profundo, mas também querem sacar proveito da Grande Reinicialização, inventada em Davos.

Os furiosos anos vinte começaram com um assassinato – do General Soleimani [n.t. militar iraniano assassinado em Janeiro de 2020 num ataque intencionado de um drone americano em Bagdade]. Explodir oleodutos faz parte da sequência. Haverá uma auto-estrada para o inferno até 2030. No entanto, tomando de emprestado a Shakespeare, o inferno está definitivamente vazio, e todos os demónios (atlanticistas) estão aqui.

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O autor: Pepe Escobar [1954-] é um jornalista e analista geopolítico brasileiro. A sua coluna “The Roving Eye” para o Asia Times discute regularmente a “competição multinacional pelo domínio sobre o Médio Oriente e a Ásia Central”.

Em 2011, o jornalista Arnaud de Borchgrave descreveu Escobar como “bem conhecido por contar histórias no mundo árabe e muçulmano”. Em Agosto de 2000, os Talibãs prenderam Escobar e dois outros jornalistas e confiscaram o seu filme, acusando-os de tirarem fotografias num jogo de futebol. Em 30 de Agosto de 2001, a sua coluna no The Asia Times alertou para o perigo de Osama bin Laden numa peça que tem sido chamada “profética. A entrevista de Escobar de 2001 com o principal comandante da oposição do Afeganistão contra os Taliban foi também amplamente citada. A sua peça de 26 de Outubro de 2001 para o Asia Times, “Anatomia de uma ONG ‘terrorista’”, descreveu a história e os métodos do Al Rashid Trust.

“Pipelineistão” é um termo cunhado por Escobar para descrever “a vasta rede de oleodutos e gasodutos que atravessam os potenciais campos de batalha imperiais do planeta”, particularmente na Ásia Central. Como Escobar argumentou num artigo de 2009 publicado pela CBS News, a exploração de condutas de energia das nações ricas em energia perto do Mar Cáspio permitiria à Europa estar menos dependente do gás natural que actualmente recebe da Rússia, e ajudaria potencialmente o Ocidente a depender menos da OPEP. Esta situação resulta num conflito de interesses internacional sobre a região. Escobar afirmou que a guerra do Ocidente contra o terrorismo é “sempre por causa da energia”.

De acordo com Arnaud De Borchgrave, durante a Guerra Civil Líbia em 2011, Escobar escreveu uma peça “desvendando” os antecedentes de Abdelhakim Belhaj, cuja liderança militar contra Kadhafi estava a ser auxiliada pela NATO, e que tinha treinado com a Al-Qaeda no Afeganistão. Segundo a história de Escobar, publicada pelo Asia Times a 30 de Agosto de 2011, os antecedentes de Belhaj eram bem conhecidos dos serviços secretos ocidentais, mas tinham sido ocultados ao público. Entrevistado sobre a sua história pela Rádio Nova Zelândia, Escobar avisou que Belhaj e os seus colaboradores mais próximos eram fundamentalistas cujo objectivo era impor a lei islâmica uma vez que derrotassem Kadhafi.

O Global Engagement Center (GEC) do Departamento de Estado dos EUA identificou vários pontos de venda que publicam ou republicam trabalhos de Escobar como sendo utilizados pela Rússia para propaganda e desinformação. Em 2020, o GEC declarou que tanto a Fundação de Cultura Estratégica (SCF) como a Global Research, duas revistas online onde o trabalho de Escobar tem aparecido, actuaram como sítios de propaganda pró-russa. Escobar tem sido também comentador de RT e Sputnik News; ambos os pontos de venda foram destacados num relatório de 2022 da GEC como membros do “ecossistema de desinformação e propaganda da Rússia”. Em 2012, Jesse Zwick na The New Republic perguntou a Escobar porque estava disposto a trabalhar com a RT; Escobar respondeu: “Eu conhecia o envolvimento do Kremlin, mas disse, porque não usá-lo? Passados alguns meses, fiquei muito impressionado com a audiência americana. Há dezenas de milhares de espectadores. Uma história muito simples pode obter 20.000 visitas no YouTube. O feedback foi enorme”.

(fonte, Wikipedia, ver aqui)

 

 

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