CARTA DE BRAGA – “de mudanças e perguntas” por António Oliveira

Vivemos tempos convulsos, mesmo sem saber para onde vamos, nem os caminhos que percorremos, parece estarmos a viver uma nova época da riquíssima e trágica história do homem, onde impera a desigualdade, o poderio do terror descoberto ou encoberto, mas onde os perdedores vão ser outra vez os mesmos de há séculos, pois os vencedores, embora menos, mas com caras e cargos novos, serão também os mesmos de sempre.

É uma tristeza ouvir alguns a pensar e mesmo a voltar a dizer ‘Grande’, quando referem uma terra, um povo ou um país, mas sem pensar em ‘valores’ e nunca em pobreza, em desigualdade, exclusão social, divergência entre géneros, dramas da alteração climática e fuga de povos inteiros, aumento no preços dos combustíveis.

A História mantem-se igual a si mesma, sem mudar, por os ‘senhores’ também não mudarem, porque mudar poderia significar prosperidade e estabilidade para todo o mundo, educação e saúde ao alcance de todos, uma sociedade informada e obviamente a saber os caminhos de andar.

Se olharmos em volta, a tentar descobrir qual o número de estórias que as pessoas ou meios de comunicação divulgam, sobre a aplicação real da justiça, a recuperação de uma dignidade perdida ou ofendida, uma verdade finalmente encontrada e reposta, a recuperação de uma memória enxovalhada, encontraremos sempre pessoas ou instituições revestidas de autoridade difícil de movimentar, bem sentada e sempre ‘sem tempo para coisas dessas’!

A classe média, a eterna sonhadora da subida no ‘elevador social’, a que sempre pagou e continuará a pagar por essa utopia, está a perder lenta, mas progressivamente, o lugar que ainda ocupa, pois quanto mais trabalhadores existirem, quanto mais os salários se forem reduzindo, e a gora as desculpas são imensas-, mais nos aproximaremos do Dostoievski de ‘O Grande Inquisidor’.

Os ‘senhores’ dirão então, quando já não houver salários, ou mal chegarem para tapar as vergonhas, ‘Sem nós, estarão sempre com fome. Nenhuma ciência lhes dará o pão enquanto estiverem livres; e hão-de depô-la a nossos pés, a essa liberdade, e dirão: Fazei de nós escravos, mas alimentai-nos. Compreenderão, enfim, que a liberdade é inconciliável com o pão da Terra à discrição, porque nunca hão-de saber reparti-lo entre si! Também se hão-de convencer da sua impotência para se tornarem livres, porque são fracos e depravados, revoltados e nulos

E não se pode aqui falar ou alegar a necessidade de sacrifício, porque fazê-lo implica que se saiba ‘porquê ou para quê’, que neste caso não parece que se venha algum dia a saber, a não ser que as coisas mudem inteiramente; para isso, não podemos cair naquilo que o economista João Rodrigues, escreveu no blog ‘Ladrões de Bicicletas’ já no início de Setembro, ‘É caso para se falar dos três D desta ordem monetária pós-democrática: para manter e reforçar a disciplina nas classes trabalhadoras, o BCE usa o desemprego como instrumento de combate, ou seja, gera deliberadamente desperdício, através da recessão’ .

A tal classe média, é o conjunto de pessoas que não dispõe do capital suficiente para viver e, por isso, necessita de trabalhar para o conseguir fazer. Acontece, que muitos ‘senhores’, até da política, quando referem os impostos, têm o cuidado de dizer ‘classe média’ e também, ‘classe trabalhadora’. Diz o economista Joaquín Estefanía, numa crónica na Cadena Ser, ‘Se a questão é colocada em qualquer sondagem, a maioria dos cidadãos sente pertencer à classe média, mas muitos não têm rendimentos que lhes permita dizer-se assim e, uns quantos, estão muito acima disso. Mas não gostam de se dizer ricos’ .

Dostoievski em forma de instituição, BCE, em pleno século XXI, ou escrito de outra maneira, como já li não sei onde, sobre o imposto às grandes fortunas, ‘A pátria na carteira’!

É evidente que estamos a viver tempos de mudança profunda, mas mesmo que essa mudança seja lenta, não sabemos nem fazemos ideia de quais serão as consequências, mas há um problema de fundo nisto tudo, que são as desigualdades sociais e humanas existentes. E será aqui que todas as questões irão parar pois, como garante uma das grande vozes da poesia em espanhol, Clara Janés, ‘Tudo anda tão rápido que o que ontem eram respostas, hoje já são perguntas’.

E quem tem a resposta para o facto de, por cá, os pensionistas receberem metade do estava previsto inicialmente, isto é em vez de seguirem a fórmula e aumentarem as reformas entre 8% e 7,1% vão aplicar uma atualização entre 4,43% e 3,53%, de acordo com o DN do dia 11?

Parece termos voltado aos tempos da ‘peste grisalha’, escrito para sempre por alguém ligado à bancada do lado direito da AR, e também tenho a impressão tanto mais que o cálculo da próxima pensão será feito a partir da metade que ficou que dentro em pouco, por se terem acabado os trocos para as rações, seremos confrontados com as notícias de cães e gatos a serem entregues a canis e gatis, de estar a aumentar a ‘caça’ aos selos dos supermercados, e desaparecerem as compras de outras quase ninharias, para uma pessoa se sentir bem.

Estou mesmo arrependido de não ter nascido rico, para também poder carregar a pátria na carteira.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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