CARTA DE BRAGA – “das ruas à felicidade” por António Oliveira

Passamos ou passeamos por este país, mas a dar atenção particular às pequenas vilas e aldeias do interior e, não raro nos encontramos com uma rua deserta, às vezes intransitável, canalizações à mostra aguardando trabalho apropriado, se calhar à espera de lhe taparem os buracos, para ali poder aparecer um qualquer espaço verde, onde também se consiga respirar ar puro e paz; nas grandes cidades impera o automóvel, a buzina e a ausência de sinalização própria, porque será que a maioria dos automóveis que se vende neste país, também não vêm equipados com um banal, simples e barato, mas muito necessário pisca?

Jorge Luis Borges olhava para as ruas de modo diferente, com o coração e muito carinho, sabendo-as a pátria dos cidadãos, ‘As ruas de Buenos Aires/ já são minhas entranhas./ Não as ávidas ruas,/ incómodas de gente e de bulício,/ mas as ruas indolentes do bairro,/ quase invisíveis de tão usuais,/ enternecidas de penumbra e de ocaso…’ 

O fundador da organização para a conservação da natureza, fauna e flora mediterrânica FUNDEM, afirmou recentemente, talvez a propósito, ‘Quem tem a sensibilidade de sacrificar uma manhã do seu tempo livre, para visitar um jardim, já é alguém especial’, e quantos o farão, em que bairros e em que ruas? 

Não podemos esquecer que aquilo a que fomos e estamos habituados a chamar ‘progresso’ e ‘desenvolvimento’, se deve fundamentalmente à queima e super utilização dos combustíveis fósseis a começar pelo carvão e pela cómoda e irresponsável abundância energética, que tal queima proporcionou às sociedades desenvolvidas. É hoje bem claro, que uma parte significativa da crise actual, a alteração dramática, depende exactamente desses uso e abuso, tendo nós já a quase certeza de virmos a tornar este planeta inabitável daqui a alguns, mas poucos anos, a não ser que passemos a olhar o planeta da mesma maneira que Borges olhava as ruas de Buenos Aires e, se ainda houver algum jardim para visitar. 

Separámo-nos da natureza de uma maneira radical e rigorosa, principalmente ao nível das grandes cidades, aquelas onde toda a gente quer viver; repare-se também como no alto de um monte, perante uma vista assombrosa, ou em frente de uma praia tranquila e sossegada, a maioria faz selfies e manda fotos pelo móvel, sem se sentar a desfrutar daquela paz em quietude, admiração e silêncio. 

Devemos recuperar a ligação que já tivemos com a natureza, tratando todos os seres da mesma maneira que gostaríamos de ser tratados, ou continuaremos à espera que um qualquer Bezos, Musk, Zuckerberg, outro semelhante ou afim, tenha a nossa salvação na sua megalomania, o que creio impossível, por a sua carteira contar muito mais que o resto da Humanidade. 

Obviamente que a cultura é parte fundamental de todo este processo, como foi salientado por Guilherme d’Oliveira Martins, numa crónica no DN, ‘Desde o tempo em que os aedos transmitiam oralmente a poesia e a arte, até à comunicação digital, há um conjunto vasto de instrumentos, dos copistas a Gutenberg, que devemos pôr ao serviço da cultura. Quem esquecer a memória tende a perder a consciência, de que a criação tem lugar num permanente contínuo, entre o que recebemos e o que transmitimos. A recordação do efémero permite ligar lembrança e democracia, como sistema de valores, que exige tempo, mediação e reflexão’.

Mas para isso, não podemos nem devemos esquecer que contamos com o cérebro, aquela pequena coisa com mais de 100.000 milhões de neurónios, a permitir saber quem somos, de onde e onde somos ou estamos, bem como entender o mundo que nos rodeia e participar nele, amando, emocionando-nos com a leitura de um poema, com um pôr do sol, ou idealizar um quadro, uma música, mesmo um prato de comida, ou até mandar uma nave para os confins do espaço. 

Talvez por ter consciência disso, alguém disse um dia, ‘Cada um de nós, mesmo sem ter coisa alguma, pode fazer magia na vida dos demais, ao salientar-lhe o talento, pois um olhar de admiração dá asas, e todos o necessitamos’.

E será mesmo verdade, porque de acordo com um psiquiatra, também catedrático, ‘Nós, seres humanos, não vivemos a realidade, só a pensamos!’, que pode ser completada com a espantosa afirmação, a um jornalista europeu, de um líder queniano dos Masai’s, conhecidos pelo seu inigualável respeito à natureza, ‘Vocês têm muitas coisas, nós só temos felicidade!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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