A Guerra na Ucrânia — A guerra num ponto de viragem? Por Manuel Raposo

Seleção de Francisco Tavares

10 min de leitura

A guerra num ponto de viragem?

Por Manuel Raposo

Publicado por em 21 Novembro 2022 (original aqui)

 

Lloyd Austin [secretário de Defesa dos EUA] e Mark Milley [chefe do estado-maior das forças armadas dos EUA] : a Ucrânia não pode pretender uma vitória militar

As informações divulgadas nos últimos dias sobre a guerra na Ucrânia, apesar de fragmentárias e mesmo contraditórias, parecem apontar num sentido: os EUA estarão a pressionar os dirigentes ucranianos para aceitarem negociações com a Rússia. A confirmar-se, será uma viragem significativa da posição dos EUA e do Ocidente em relação ao curso do conflito — aparentemente dando razão às posições de países como a Turquia ou a China, que sempre advogaram uma solução negociada, mas também a Hungria ou a Sérvia que resistiram à política europeia e norte-americana de sanções contra a Rússia e de lançar achas na fogueira.

O que poderá estar na base desta eventual viragem?

 

“Agarrar a oportunidade”

Nem tudo é claro neste momento e nem tudo vai no mesmo sentido no que respeita à posição do Ocidente. A começar nos próprios meios dirigentes dos EUA. A posição mais explícita foi a do chefe do estado-maior das forças armadas, o general Mark Milley, que aconselhou vivamente os ucranianos a aproveitar a oportunidade criada com o abrandamento das operações ditado pelo outono-inverno.

Milley afirmou que a Ucrânia não podia pretender uma vitória militar, fazendo notar que o inverno pode apresentar uma oportunidade para um compromisso diplomático. “Quando há uma oportunidade para negociar, quando a paz pode ser alcançada, há que agarrá-la. Há que agarrar o momento”, disse. (Politico, 14 novembro)

Três dias depois, em conferência de imprensa realizada no Pentágono, Milley pareceu querer fundamentar a sua ideia, dizendo exactamente: “A probabilidade de uma vitória militar ucraniana definida como chutar os russos para fora de toda a Ucrânia, (…) a probabilidade de isso acontecer nos próximos tempos não é alta, militarmente” — e daí ele encarar a possibilidade de uma “solução política”. (RT, 17 novembro)

Apesar de posições aparentemente contraditórias da Casa Branca, tudo leva a crer que a recente deslocação a Kiev (4 novembro) por parte do conselheiro de Segurança Nacional de Biden e o encontro do secretário de Estado Blinken com o ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano Kuleba (12 novembro), não obstante reafirmarem o apoio dos EUA, terão visado medir a disposição dos dirigentes ucranianos e preparar o terreno para uma mudança de direcção.

 

Evitar “erros de cálculo”

Dias depois destes contactos, o chefe da CIA, William Burns, reuniria na Turquia com o chefe dos serviços secretos russos, Sergey Narishkin, com o propósito de, segundo a linguagem cifrada destas coisas, “manter abertos os canais de contacto” entre as duas potências. A iniciativa partiu do lado norte-americano, disse o Kremlin. (Aljazeera, 14 novembro)

Um porta-voz da Casa Branca confirmou estes contactos e acrescentou que em “recentes semanas” o secretário da Defesa Lloyd Austin e o chefe do estado-maior Mark Milley tinham falado com os homólogos russos, Sergey Shoigun e Valeri Gerassimov, “para haver a certeza de que não haverá nenhuns cálculos errados” entre russos e norte-americanos. (Declarações à Bloomberg citadas pela RT, 15 novembro)

Comentando estes factos, António Guterres, presente na cimeira do G20, considerou-os “um desenvolvimento extremamente relevante em relação ao futuro”. (Aljazeera, 14 novembro)

De toda esta movimentação pode deduzir-se que as declarações de Milley só foram produzidas depois de cuidadosos contactos, de diverso nível, com os responsáveis russos. As inquietações manifestadas pelos dirigentes em Kiev percebem-se, não apenas pela mudança de rumo latente, contra tudo o que têm dito, mas também por ficarem expostos como meros peões dos EUA no seu confronto com a Rússia.

 

Mudança de tom na grande imprensa

A imprensa de topo dos EUA entrou claramente na campanha, dando conta de que a Casa Branca estava, em privado, a convencer os responsáveis ucranianos a mostrar abertura para conversações de paz com a Rússia.

A pressão, disse nomeadamente o Washington Post, pretende evitar que a Ucrânia perca o apoio dos países em que a opinião pública se torna hostil à guerra por não ver um fim próximo para o conflito. Um representante oficial norte-americano afirmou ao jornal que “A fadiga é uma questão real para alguns dos nossos parceiros”. (WP, 5 novembro)

Na sequência do incidente com o míssil que caiu na Polónia e perante a insistência de Zelensky, contra todas as evidências, em culpar os russos, um comentador da Fox News acusou o presidente ucraniano de pretender “conduzir imediatamente os EUA para uma terceira guerra mundial”. As suas afirmações, disse, “não só são falsas” como “são uma mentira que poderia causar a morte de milhões de americanos”. Por isso, rematou, “temos de nos perguntar se não está na altura de parar de apoiar este tipo”. (Fox News, 17 novembro citada pela RT)

Pelos vistos, portanto, vários dos pilares em que tem assentado a propaganda dos EUA e da Nato dão sinais de abrir fendas. Nem a “unidade” do Ocidente é tão sólida como se tem querido mostrar, nem a “derrota” dos russos está no horizonte, nem os ganhos dos ucranianos permitem sonhar com uma vitória, nem Zelensky continuará a ser o líder de serviço em Kiev se não respeitar estritamente os interesses norte-americanos.

Independentemente dos resultados de toda esta manobra, vinda do topo da hierarquia dos EUA, duas ou três coisas ficam à vista.

 

Kerson e o resto

Confirma-se a ideia de que a retirada russa de Kerson resultou de uma negociação entre russos e norte-americanos com o propósito de aplainar o terreno negocial. Só assim se entende que a deslocação de 115 mil habitantes da cidade, de 40 mil soldados e de 5 mil peças de equipamento militar tenha decorrido sem que praticamente um tiro fosse disparado. Mesmo que a perda da cidade represente uma derrota política para os russos, está longe de ser uma derrota militar — tanto mais que permite a deslocação de dezenas de milhares de tropas para outras frentes de combate.

Este reforço e os 300 mil novos efectivos recém-mobilizados, são, na opinião de especialistas militares (por exemplo, os majores-generais Agostinho Costa e Carlos Branco), um contingente que pode dar aos russos um poder ofensivo capaz de virar o curso das operações verificado nos últimos dois meses. Contribuirá igualmente para esta possibilidade a campanha de bombardeamentos de infraestruturas eléctricas e de fontes de energia levada a cabo pelos russos, que comprometem as vias de abastecimento das tropas ucranianas situadas na frente de combate no leste do país.

Não obstante algumas derrotas sofridas no terreno, não se pode esquecer que a Federação Russa continua a deter perto de 20% do território que antes de 24 de fevereiro era ucraniano, e nada leva a crer que o venha a perder. Não são as palestras de Zelensky que podem mudar esta realidade.

 

Vantagem russa

Entre o início do conflito e o presente, a Rússia destroçou o exército ucraniano existente à data de fevereiro, o qual tinha sido formado e municiado pela Nato desde 2014, nomeadamente incorporando as conhecidas milícias nazis. Quem combate pela Ucrânia neste momento são umas novas forças armadas, igualmente formadas e municiadas pelo Ocidente, recrutadas, não o esqueçamos, numa população naturalmente mais exausta e empobrecida. Nada diz que não possam ter a sorte das primeiras.

As margens de recrutamento dos ucranianos, com efeito, são muito mais limitadas que as dos russos. Numa guerra prolongada, estes terão, neste capítulo, sempre vantagem. E enquanto a guerra decorrer à custa do sacrifício dos ucranianos e estritamente no território ucraniano — como os EUA , a UE e a Nato querem e repetidamente sublinham —, a Rússia terá inevitavelmente uma superioridade estratégica no conflito, não sendo atingida no seu próprio território (descontando as regiões anexadas), não precisando de empregar todos os seus recursos militares e gerindo o tempo no sentido de ir triturando a resposta ucraniana.

 

Ucrânia: destroçada e avassalada

Para além da destruição física resultante dos combates, a Ucrânia tem a economia arrasada. O produto interno bruto sofreu uma contracção de 35% em 2022, sobre o facto de a Ucrânia ser um dos países mais pobres da Europa: em final de 2020, muito antes do conflito iniciado em fevereiro, 45% da população da Ucrânia vivia na pobreza. (Dados do Banco Mundial, outubro 2022)

Ainda por cima, as dívidas acumuladas pelo “auxílio” norte-americano e europeu — a pagar por gerações intermináveis de ucranianos — reduzem o país à condição de vassalo dos generosos aliados que o empurraram para a guerra e o incentivam a continuar.

A miséria induzida pelo arrastar da guerra, a percepção de que o futuro nada oferece de bom, a noção de que as próximas gerações vão herdar um país destruído, serão seguramente factores de desmoralização da população ucraniana, por muito que, cinicamente, o Ocidente louve o seu “sacrifício”. 

 

Sinais de “fadiga” a ocidente

As manifestações crescentes em muitos países europeus contra os efeitos da guerra — carestia, falta de bens, escassez de energia, desvio de recursos sociais, quebras salariais, em nome de uma política guerreira imposta às populações sem direito de réplica — podem transformar-se a breve trecho em manifestações contra a própria guerra, assim haja a percepção por parte dessas populações da ligação directa entre uma coisa e outra.

A fragilização política dos poderes europeus, pode estar mais perto do que se imagina, como se deduz das preocupações acima citadas acerca da “fadiga” que atinge sobretudo a Europa. E isso significará, para os EUA e seus aliados, um factor de isolamento suplementar — neste caso, interno — a somar à relutância com que a maioria da população do globo encarou as sanções contra a Rússia, rejeitando-as.

Não vestimos a farda dos militares e dos dirigentes norte-americanos. Mas pelo menos este conjunto de factores, que uma observação objectiva do conflito evidencia, certamente não escapou ao estado-maior dos EUA quando concluiu, contra tudo o que até agora tem sido afirmado pelo Ocidente, que a Ucrânia não pode pretender vencer a guerra.

 

No campo das hipóteses

Se esta posição fizer vencimento, e se negociações forem para a frente, vai ser interessante observar os argumentos dos actores ocidentais. Seguramente, procurarão provar que arrancaram uma vitória, mesmo diante de inevitáveis cedências por parte da Ucrânia que sejam negociadas em função de um acordo que convenha aos reais contendores: os EUA e a Rússia.

Se isso acontecer, a Europa e a Ucrânia verão finalmente de forma clara o papel de cordeiros sacrificiais que desempenham em toda esta história às mãos dos EUA, pelo menos desde 2014.

Não esqueçamos as fanfarronadas incendiárias do comissário europeu Josep Borrell de que a guerra só terminaria com a plena derrota militar da Rússia e a expulsão de todas as suas tropas, ideia que o ministro português dos Negócios Estrangeiros, João Gomes Cravinho, achou muito boa e repetiu.

Não esqueçamos as palavras comprometedoras de um outro factotum, o secretário-geral da Nato, Stoltenberg, que (num momento de excesso de zelo) disse que uma vitória da Rússia seria uma derrota da Nato, e por isso nunca poderia ocorrer — com isso colocando a Nato, e não a Ucrânia, no centro do tabuleiro, e estabelecendo uma equação indesejável para qualquer negociador ocidental obrigado a fazer cedências.

Talvez assistamos a um esforço de Macron e de Sholtz a porem-se em bicos de pés como paladinos da paz. Tentarão por certo disfarçar a sua cobardia e as suas constantes tergiversações — telefonando a Putin mas cedendo às imposições de Biden, assistindo sem pio à sabotagem do Nord Stream pelos seus próprios aliados, pagando petróleo e gás norte-americanos a preço de monopólio, aceitando impávidos a destruição económica da Europa, consentindo na própria fragmentação da UE de que reclamavam ser “o eixo”.

Vai igualmente ser interessante ver como é que toda a tribo que tem feito coro por Zelensky e pela guerra-até-ao-fim — jornalistas, comentadores, especialistas de “relações internacionais”, militares, ex-ministros, ex-embaixadores, porta-vozes da Nato e da embaixada norte-americana, verbos de encher, psicóticos anti-Putin, e tutti quanti — vão engolir o que têm dito sem freio quando os responsáveis norte-americanos (e, atrás deles, os  europeus) calibrarem o apoio “eterno” à Ucrânia e declararem que os tempos são outros.

Só nessa altura, talvez, todos esses personagens vão perceber que a repetida promessa de apoiar a Ucrânia “pelo tempo que for necessário” significa, afinal, o tempo necessário para que o Ocidente considere chegado o momento de encontrar um entendimento que lhe convenha, evitando males maiores.

Males maiores são o descalabro das economias ocidentais, a revolta das populações empobrecidas, a crise política que mina os sistemas parlamentares capitalistas, a desagregação da União Europeia — e a possibilidade de três quartos do mundo apostar num rumo de desenvolvimento centrado em novas instituições internacionais sustentadas por potências como a China, a Rússia ou a Índia.

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O autor: Manuel Raposo é o editor de Mudar de Vida, um jornal político popular que se edita em dois suportes: internet e papel [apenas internet desde Outubro de 2017]. Um primeiro número experimental, em papel, foi amplamente divulgado no 25 de Abril e no 1.º de Maio de 2007; e, em 30 de Maio, foi distribuído um suplemento dedicado à greve geral. A edição de papel sai com regularidade mensal a partir da primeira semana de Outubro de 2007. Os propósitos de MUDAR DE VIDA estão expressos no seu estatuto editorial. Sem suportes financeiros, sem estrutura partidária que o apoie, MUDAR DE VIDA depende inteiramente do acolhimento que encontrar.

 

 

1 Comment

  1. Bom, deixem-me cá recapitular, assim, muito resumidamente :
    1970epoucachinho: eua aumentam apoio ao governo fantoche de saigão …
    1970eumpoucachinho mais: eua abandonam os telhados da embaixada em saigão e (felizmente!) deixam descalço o exército sul-vietnamita …
    1953 eua derrubam o democraticamente eleito Mosadehc e entronizam o (carniceiro) xá rehza pahlevi …
    1979 eua deixam descalço o xá perante a revolução islâmica que levou ao poder o aiatola até lá (democraticamente) exilado em frança …
    1981 eua substituem o recém falecido num “acidente aéreo” Omar Torrijos pelo general noriega …
    1988 eua invadem o panamá e prendem o general noriega por tráfico de droga …
    1963 eua “apoiam” o golpe do partido baath (de saddam hussein) que derruba o nacionalista pró-soviético Qasim …
    2003 eua invadem o iraque para derrubar saddam hussein … e abandonam aquilo deixando lá uma guerra civil de 10 anos …
    1979 eua apoiam fundamentalistas islâmicos a derrubar o laico governo afegão (apoiado pela urss)
    1996 eua deixam descalços os fundamentalistas antigos que são substituidos por fundamentalistas islâmicos ainda mais radicalmente fundamentalistas …
    2001 eua invadem o afeganistão para substituirem os muito fundamentalistas muito radicais por fundamentalistas islâmicos menos fundamentalistas mais moderadozitos…
    2020 eua abandonam os “fundamentalistas um bocadinho moderados” afegãos deixando-os nas mãos dos muito fundamentalistas …
    Concluindo: malta, se aceitarem a a”juda” dos eua vão-se logo preparando para o futuro em que os eua vos vão deixar descalços 😉

    https://aviagemdosargonautas.net/2022/11/25/a-guerra-na-ucrania-a-guerra-num-ponto-de-viragem-por-manuel-raposo/

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