População mundial: excesso de população ou excesso de desigualdade de riqueza? — “Já somos 8 mil milhões de humanos, mas nem todos comem diariamente”. Por Maxime Doucrot

Seleção e tradução de Francisco Tavares

3 min de leitura

 

Já somos 8 mil milhões de humanos, mas nem todos comem diariamente

Por Maxime Doucrot

Publicado por  em 8 de Novembro de 2022 (original aqui)

 

 

Em alguns dias, em 15 de novembro, seremos 8 mil milhões de pessoas no Planeta Terra, a metade das quais não pode permitir-se manter uma dieta saudável. Os especialistas dizem que “não necessariamente” não se trata de sermos demasiados habitantes, e alertam antes para o consumo excessivo dos recursos pela parte mais rica do planeta.

Eles preocupam-se menos com a questão da sobrepopulação, com demasiadas pessoas e recursos insuficientes para que todos vivam dignamente. Os 8.000 milhões de seres humanos já estão aqui e a população continuará a crescer, atingindo 9,7 mil milhões em 2050, segundo as Nações Unidas, dado o número de jovens atualmente.

Jennifer Sciubba, investigadora do centro de pesquisas Wilson Center, afirmou que é tanto cómodo como prejudicial culpar a sobrepopulação pela escassez de recursos e pelo aquecimento global, e não o comportamento dos países ricos e seus modelos económicos. Apesar de serem produzidos alimentos suficientes para os oito mil milhões de pessoas, 925 milhões, ou seja, 11,7% da população mundial, enfrentam níveis moderados ou graves de insegurança alimentar, e mais de 10% sofre atualmente de desnutrição crónica.

O último relatório das Nações Unidas (2021) destaca que a relação da insegurança alimentar com a diferença de género continua a aumentar: 32% das mulheres do mundo sofriam de insegurança alimentar moderada ou grave, em comparação com 27,6% dos homens. Quase 4 mil milhões de pessoas não podem permitir-se ter uma dieta saudável, o que é reflexo, em parte, dos efeitos da inflação dos preços dos alimentos no consumidor.

A ONU calcula que 45 milhões de crianças menores de cinco anos padecem de emaciação, a forma mais mortal de desnutrição, que aumenta em até doze vezes o risco de mortalidade infantil. Além disso, 149 milhões de crianças de até cinco anos sofrem atraso no crescimento e desenvolvimento devido à falta crónica de nutrientes essenciais na sua dieta, enquanto 39 milhões tinham sobrepeso. Esses eram números de 2021, que se agravaram este ano.

 

“Oito mil milhões é um marco importante para a humanidade”, disse a chefe do Fundo de Nações para a População, a panamenha Natalia Kanem, que mostrou alegria pelo aumento da esperança de vida e a queda da mortalidade infantil e materna. “No entanto, dou-me conta de que nem todo o mundo celebra. Alguns estão preocupados com a sobrepopulação, com pessoas demasiadas e recursos insuficientes para viver”, disse.

Joel Cohen, da Universidade Rockefeller, em Nova York, destaca que a pergunta sobre a quantidade de pessoas que a Terra pode aguentar é uma moeda de duas faces: as restrições ou os limites naturais, de um lado, e as decisões que os humanos tomam, do outro.

Essas decisões fazem com que se consumam muitos mais recursos biológicos (florestas, peixes, terras) do que o planeta Terra pode regenerar anualmente, e também que haja um consumo excessivo de energias fósseis, que geram cada vez mais emissões de CO2, responsáveis pelo aquecimento global. Quanto aos recursos, seriam necessários 1,75 planetas Terra para satisfazer as necessidades da população de maneira sustentável, segundo a ONG Global Footprint Network e a WWF.

Em relação ao clima, o último relatório dos especialistas da ONU destaca que o crescimento da população é um dos principais motores da alta de emissões de gases de efeito estufa – mas que o seu impacto é inferior ao do crescimento económico. “Somos estúpidos. Falta-nos visão. Somos glutões. É aí que residem os problemas e as decisões”, disse Cohen, que nos exorta a não considerarmos a humanidade como se fosse uma “praga”.

“O nosso impacto no planeta está determinado mais pelo nosso comportamento do que pela quantidade de gente”, disse por sua vez Jeniffer Sciubba, do Wilson Center. “É cómodo mas também prejudicial continuar a culpar a sobrepopulação”, ao invés de mudar o comportamento dos países ricos, disse ela.

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A autora: Maxime Doucrot é analista económica francesa da Agência Latinoamericana de Informação e Análise (Alia2), associada ao Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE).

 

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