DESVINCULAÇÃO DO PARTIDO SOCIALISTA, Carta a António Costa por José de Almeida Serra

José de Almeida Serra

 

INTRODUÇÃO

 

Acompanhei, posso dizer que minuto a minuto, a desvinculação de José de Almeida Serra (JAS) do Partido Socialista —vínhamos conversando sobre isso desde que eu decidi desvincular-me—, pensando eu que terei sido um dos primeiros a conhecer o conteúdo da carta enviada por JAS a António Costa.

Logo que a carta foi enviada por JAS, ofereci-lhe a possibilidade de a divulgar no blogue «aviagemdosargonautas.net», ao que JAS me respondeu que «talvez mais tarde».

Ora, esse «talvez mais tarde» chegou finalmente, o que justifica a diferença entre a data da carta e a sua divulgação agora no blogue, ou seja, também JAS deixou de ter ilusões, perante a deriva do PS para a direita, hoje ocupando o espaço do centro-direita de Sá Carneiro e do seu Partido Popular Democrático/Partido Social Democrata, cumprindo António Costa o seu principal (ou único?) objectivo, que é a manutenção do poder, pouco importando o interesse de Portugal e dos portugueses, o que me leva a escrever o que eu pensava não me ser possível um dia dizer: se fosse Sá Carneiro -em quem eu nunca votei nem votaria- a ocupar o lugar de primeiro-ministro, provavelmente, não estaríamos a ser sucessivamente ultrapassados pelos novos membros da União Europeia, geograficamente a Leste da Europa. Até pela Roménia, o que acontecerá brevemente segundo notícias recentemente divulgadas, apesar de ser também um país latino!

Por fim, aí está a carta que eu sempre quis divulgar.

António Gomes Marques

 

 

A carta:

 

José de Almeida Serra

Rua das Musas, 10 – 2º. Esq.

1990 – 169 Lisboa

Número PS: 9992 (salvo erro)

Lisboa, 19 de Janeiro de 2021

Exmo Senhor

Dr. António Costa, Secretário Geral do PS

Venho por este meio apresentar a minha demissão do Partido Socialista, onde entrei a seguir à primeira vitória da AD. No Rato cruzavam-se então os muito poucos que entravam com a multidão dos que saiam ou se disfarçavam na turbamulta.

Julgo deixar as quotas em dia (junto comprovativo), mas se algo faltar peço que me seja comunicado.

Evidentemente tenho que constatar que o PS não tem (nunca teve depois de Soares) um projecto nacional que contemple os vectores de desenvolvimento, social e de camaradagem e é encarado pela “plebe” como uma máquina de interesses e de interessados, leitura que tenho alguma dificuldade em contrariar.

Imensos sectores, que são vitais numa sociedade, nada ou quase nada fazem; outros, segundo a comunicação social e parte significativa da população, desenvolvem-se a olhos vistos (de que a corrupção e o compadrio são simples e gritantes exemplos). Na Sociedade em geral, a par dos mais desafortunados, os mais capazes emigram, sendo que fomos nós que lhes pagámos a formação de que outros povos mais avançados beneficiarão. Noção clara do socialismo à portuguesa (mas aqui não tem o exclusivo).

Sendo que é muito fácil “fazer coisas” e evitar a corrupção: nisso tive particulares experiências, de que me orgulho. Quem se lembra das regras da 1ª campanha do Dr. Soares para PR e de como funcionou o partido nos períodos Constâncio-Sampaio? Porque terá sido o último projecto da Siderurgia Nacional o único grande projecto público que ficou bastante abaixo do orçamento (a norma foi sempre a da ultrapassagem em várias dezenas percentuais nas realizações; tudo é demonstrável a partir do DR).

Planear o país a dez anos seria o mínimo (até Salazar-Marcello o fizeram, embora para períodos de seis anos, em tempos-outros), mas limitamo-nos ao dia presente. E o que se faz quando há problemas? Criam-se grupos de trabalho com amigos, alguns “licenciados” que mal entraram numa universidade..

Simples exemplo, os fogos. Portugal vai continuar a arder e daqui a dez anos teremos verdadeiras catástrofes, muito piores do que as anteriores. Mas teremos criado inúmeras task forces e grupos de trabalho para estudar as soluções (gestão para os noticiários). E os responsáveis (actuais) gozarão de chorudas reformas, pagas por todos os que trabalham e produzem, quando não emigram.

Pertenci ao PS onde, felizmente, nunca ganhei coisa nenhuma. Só perdi (quando a tempo completo ocupei determinadas funções governamentais) e no resto foi tudo “pro-bono”, do que me regozijo.

Lamentei que, no discurso de vitória, o actual SG não tivesse tido uma única palavra para com o candidato derrotado, mas para cada um, os princípios e valores são os que tem.

A “plebe” percebe perfeitamente que desde Guterres (incluindo-o) caminhamos para o abismo. Até quando aguentará? Qual o valor “desta” liberdade para os mais desfavorecidos e desprotegidos?

As razões que me levaram a entrar no PS, obrigam-me a sair, tendo-me emocionalmente sacrificado imenso para aguentar até aqui. Mas tentarei, obviamente, contribuir para os grandes princípios de humanismo, fraternidade, solidariedade e de igualdade de oportunidades.

Com votos de introdução de melhorias profundas no político, no desenvolvimento, no social e na reconstrução de uma ampla solidariedade de oportunidades, subscrevo-me.

José de Almeida Serra

Ex-9992

2 Comments

  1. Almeida Serra terá razão em muito do que diz. Naturalmente, mais dia menos dia, António Costa, como SG do PS, terá de ponderar se o seu pragmatismo imediatista e o seu discurso triunfalista são adequados ao confronto incontornável com uma comunicação feroz ao social ao serviço da mão cada vez mais visível dos interesses empresariais, ansiosos por se sentarem a mesa do orçamento e capturarem o aparelho do Estado. A querer persistir, o tom e o conteúdo do discurso de António Costa, do PS e do seu governo terão de ser outros, alinhando-os decisivamente com as expectativas da grande maioria da população que nada espera da direita. Não faço mesmo que Almeida Serra porque não encontraria partido onde coubesem as minhas convicções e, apesar da “ganga”, ainda há muito de bom no PS.

  2. Caro António Teixeira, durante muito tempo hesitei em sair por também ter consciência de que não encontraria um partido onde, como diz, coubessem as minhas convicções, até que cheguei à conclusão de que, perante a certeza de que o PS não mudaria e cada vez se inclinava mais para ocupar o centro direita, não havia lugar para mim naquele partido, no qual, ainda militante, tinha deixado de votar. Infelizmente, com o decorrer do tempo verifiquei a minha razão.
    Hoje, considero-me um homem de esquerda sem partido, absolutamente convencido de que a maioria dos portugueses não é de esquerda, um mito que, com interesses contraditórios, alguns teimam em afirmar e muitos portugueses vão na conversa.
    Curiosamente, até um homem de direita, como é o Director do Expresso, João Vieira Pereira, escreve hoje um texto no seu semanário que intitula «A apatia do Zé Povinho». Se fosse o PSD/CDS ou o PSD coligado com outro partido, até com a Chega, ele escreveria um texto destes?
    Vivemos numa democracia formal, numa democracia de fantochada, hipócrita, e eu, tendo em conta a minha idade, já não me imagino a viver, um dia, numa verdadeira democracia.

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