Sobre o ensino superior e a crise atual – algumas reflexões. Por Júlio Marques Mota

Nota de editor:

Acabei de ler o programa das comemorações dos 50 anos da FEUC, fiquei espantado com o que li e fiquei ainda mais espantado com a intensidade do meu próprio espanto. Por outras palavras, senti-o como demasiado perfeito, demasiado formal, a transbordar de profissionalismo, com sentimento e reconhecimento a menos, o mesmo é dizer que incomodou, embora de forma muito indefinida. Havia ali algo que muito subjetivamente me incomodava, mas o quê? Talvez seja o facto de me lembrar que me tenha esquecido de enviar aos meus colegas de outrora os restantes textos da série dedicada a Jaime Ferreira, e esquecimento é coisa que ainda não é habitual em mim. Talvez seja porque ao lembrar-me deste meu esquecimento fiquei preocupado com a mistificação feita pelos políticos e pelos media em torno do que aconteceu na Inglaterra, com a queda de Liz Truss e com a ascensão de Rishi Sunak. Talvez não seja por nada disso…”.

Assim começa Júlio Marques Mota estas suas reflexões sobre o atual processo de regressão social e seu impacto no Ensino Superior, nomeadamente na área de Economia, onde deixa o alerta: “Um ensino de qualidade assente na bandeira de recusa do pensamento único seria bem mais conveniente e mais útil ao ensino de economia em Portugal, mas não foi essa opção…”.

Interrogando-se sobre a divulgação da recente série dedicada a Jaime Ferreira, aqui publicada em A Viagem dos Argonautas (ver aqui e seguintes), o autor viu-se “lançado num mundo imaginário, num país imaginário, que poderia ser Portugal, numa cidade imaginária que poderia ser Coimbra, uma cidade de ruas ou avenidas imaginariamente limpas, imaginariamente cheias de uma intensa luz branca, fria, (…). Dou por mim projetado numa cidade de ruas e avenidas imaginariamente longas, humanamente geladas…”.

Esta alegoria, para lá das reflexões que suscita ao autor sobre o ensino superior, traz também consigo o essencial dos textos da série dedicada a Jaime Ferreira, textos que nos falam da crise atual e do exemplo que dela representa a situação no Reino Unido, “dos Bancos Centrais e das manipulações feitas pelos políticos para se adaptarem ao que os Bancos Centrais pretendem impor, justificando depois sem qualquer pudor o que estão a fazer. É neste campo que se dá a demissão de Truss acusada de incompetente por querer estabelecer em força de lei o que os mercados de há tanto desejavam: bónus aumentado, tributação reduzida e benefícios fiscais para as empresas. Ninguém de bom senso pode acreditar que foi isso mesmo que a levou à demissão (…) Esta narrativa do que se passou na Inglaterra recoloca um enorme significado na nossa alegoria e de uma coisa estamos certos: o que está muito mal é o sistema económico e político inglês, o que está muito mal é o modelo cujas falhas se pretende esconder, o que está mal é dizer que a crise criada é devida à incompetência de Truss”.

Diz Júlio Mota: “O sistema produz uma imagem de si-próprio que não corresponde à realidade, imagem essa escrita e reescrita em múltiplos manuais universitários, imagens ensinadas em múltiplas universidades e é essa imagem que é necessário desmontar se queremos perceber o que é que está realmente a acontecer no capitalismo atual. Fazê-lo, é ir para lá do espelho(…) fazê-lo é efectuarmos uma viagem complicada pelos mercados financeiros, pelos seus produtos exóticos, pelos seus swaps de juros, pelos seus swaps de retorno total (…) fazê-lo levar-nos-á pelos seus mercados REPO, etc.

Desmontar o jogo de espelhos com que o neoliberalismo nos quer iludir, é o que nos propomos com uma nova série de textos [a publicar proximamente aqui no blog] sob o tema «Neoliberalismo, Pensões por capitalização e Instabilidade Social e Política»”.

FT

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29 min de leitura

Sobre o ensino superior e a crise atual – algumas reflexões

 Por Júlio Marques Mota

Em 3 de Dezembro de 2022

 

                           José Sena Goulão/Lusa

 

Acabei de ler o programa das comemorações dos 50 anos da FEUC, fiquei espantado com o que li e fiquei ainda mais espantado com a intensidade do meu próprio espanto. Por outras palavras, senti-o como demasiado perfeito, demasiado formal, a transbordar de profissionalismo, com sentimento e reconhecimento a menos, o mesmo é dizer que incomodou, embora de forma muito indefinida. Havia ali algo que muito subjetivamente me incomodava, mas o quê? Talvez seja o facto de me lembrar que me tenha esquecido de enviar aos meus colegas de outrora os restantes textos da série dedicada a Jaime Ferreira, e esquecimento é coisa que ainda não é habitual em mim. Talvez seja porque ao lembrar-me deste meu esquecimento fiquei preocupado com a mistificação feita pelos políticos e pelos media em torno do que aconteceu na Inglaterra, com a queda de Liz Truss e com a ascensão de Rishi Sunak. Talvez não seja por nada disso mas o certo é que esse sentimento de incomodidade permaneceu presente por longas horas até que se esfumou. Fica-me por saber qual a razão de tanto espanto, mas enfim, isso também não é aqui muito relevante.

Quanto ao envio dos textos para os meus antigos colegas da FEUC com quem me cruzei durante quase 4 décadas, mando ou não mando os quatro textos restantes da série dedicada ao Jaime Ferreira era a questão a resolver. Dito de outra maneira, questionei-me sobre se estou ou não estou a ser incómodo se os enviar. Eram as perguntas que me assaltavam.

De repente, dou por mim lançado num mundo imaginário, num país imaginário, que poderia ser Portugal, numa cidade imaginária que poderia ser Coimbra, uma cidade de ruas ou avenidas imaginariamente limpas, imaginariamente cheias de uma intensa luz branca, fria, de 5 a 6 mil graus Kelvin, uma luz que nos fere os olhos e incomoda a alma, um pouco como a luz que irradia da lâmina de Meursault em O estrangeiro, de Camus, e segundo a realização de Losey. Dou por mim projetado numa cidade de ruas e avenidas imaginariamente longas, humanamente geladas, a lembrar os longos e frios corredores de O último ano em Marienbad.

                                 Tomaz Silva/Agência Brasil

Vejo estas longas ruas e avenidas cheias de jovens adultos, homens e mulheres e de gente de meia-idade aparentemente todos vestidos com classe. Estranhamente, de velhos, vi apenas Dois vultos na paisagem, a lembrar a visão de Joseph Losey sobre um mundo em que as mercadorias têm mais direitos que as próprias pessoas. Se vi bem, um deles é merecedor da mais alta consideração como intelectual e cidadão e o outro, não percebi bem por que se passeava por ali, dado o ressabiamento mostrado em tempos recentes para com os colegas que naquela avenida circulavam. Por uma razão ou por outra, estes dois reformados pareciam-me relativamente desfocados na paisagem de tanta gente relativamente jovem, de passo estugado e de linhas de ombros curvadas, tanto por falta de tempo e dinheiro para ter um personal trainer, como por muito tempo de trabalho à secretária para cumprirem os requisitos exigidos pelo sistema, todas eles com pastas na mão ou a tiracolo na aparência Louis Vitton, e muito provavelmente cheias de documentos que a burocracia exige ou mesmo apenas de livros em alguns dos casos.

De repente, fixo melhor o olhar e vejo no chão uma nota de mil euros do BCE! Tão contrastante com o passeio da rua extraordinariamente limpo que até parecia estar a cheirar a tinta fresca utilizada pelo Banco de Portugal. Chego ao pé da nota, paro, olho, e retomo o meu caminho, como se nada tivesse visto. Vivo num mundo de gente eficiente, de mercados eficientes, e se a nota de mil ainda ali está é porque é falsa. Não vale a pena apanhá-la, foi o que pensei.

Com estas imagens a saltarem-me à frente dos olhos hesito quanto a mandar ou não o resto da coleção de textos cuja publicação é dedicada a Jaime Ferreira. Hesito, porque se os textos são considerados importantes já serão conhecidos dos meus colegas e/ou amigos e, portanto, é indiferente ou inútil mandá-los, pois já os terão lido. Se não são considerados relevantes, também não serão lidos e é também inútil mandá-los.

Chegado a esta lógica, caio em mim desta visão neoliberal, desta estranha alegoria. Não, não, o meu mundo não é o mundo dos mercados autorregulados, intrinsecamente eficientes dos neoliberais, não, o meu mundo não é o mundo das harmonias universais a que se refere causticamente Pierre Dockès – e aqui lembro um livro que ofereci ao saudoso Romero de Magalhães, para que este percebesse qual era a minha visão do mundo e da economia em geral, dada a minha concordância com Pierre Dockès. Uma explicitação feita por terceira pessoa, por um autor de referência e por um livro, como sempre.

Não, o meu mundo não é o dos neoliberais, não é o de Robert Lucas, Robert Barro e tantos outros para quem a macroeconomia keynesiana devia estar enfiada na arca das velharias porque, acham eles, já ninguém se lembra dela. Com efeito, de forma incisiva e com desprezo Robert Lucas diz-nos que: “o que hoje consideramos como sendo a macroeconomia estava centrada numa série de controvérsias que tinham sido simplesmente já ultrapassadas: “a armadilha da liquidez, operações twist, a teoria dos fundos emprestáveis e todas as outras questões macroeconómicas que pareciam tão importantes nessa época e que agora é tão difícil que nos lembremos delas. Assim Keynes e aqueles que seguiram a sua liderança foram obrigados a confiar na ingenuosidade marshalliana para conseguirem obter algum dinamismo útil à teoria puramente estática” enquanto “o teórico moderno está muito mais bem equipado para enunciar com exactidão o problema que quer estudar e resolvê-lo.” E resultados dos problemas resolvidos sob a égide do neoliberalismo têm-se visto desde então: temos andado a caminhar de crise em crise.

Curiosamente leio hoje um texto de Adam Tooze que bem pode ser tomado como uma resposta a Robert Lucas e companhia quase ilimitada. Diz-nos Tooze quanto à crise de inflação que atualmente se soma a outras crises:

“A crise do custo de vida, por outro lado, não é, de modo algum, uma questão macroeconómica propriamente dita. É um problema de pobreza, desigualdade, precariedade e relações de poder desiguais nos mercados de trabalho. Se se leva a sério a resolução desses problemas, as soluções são suficientemente claras: Aumentar os níveis de benefícios substancialmente acima da taxa de inflação. Controlar os preços dos bens essenciais, se necessário, mas apenas para as compras dos que têm os rendimentos mais baixos. Tornar o sistema fiscal mais progressivo e eliminar as armadilhas de benefícios punitivos para os que têm baixos rendimentos. Reequilibrar o mercado de trabalho através de reformas institucionais que fortaleçam tanto a atividade económica como a atividade e direitos dos trabalhadores independentes. Executar esquemas positivos no mercado de trabalho. Reverter as estruturas sobrepostas de racismo e discriminação que concentram a pobreza entre as minorias, mães solteiras e crianças. Faça-se tudo isto não lentamente, mas com a urgência da crise do custo de vida às suas costas.”

Isto não pode ser um exercício de cima para baixo, um exercício numa prancha de desenho. Abordar a desigualdade, a discriminação, a pobreza não é tão simples como conduzir uma política monetária. O mundo económico foi concebido para fazer com que os bancos centrais e os seus instrumentos sejam fulcrais para a economia. Estão estruturalmente capacitados, concebidos para serem o derradeiro púlpito dos tecnocratas. Por contraste, na grande maioria dos cenários, o bem-estar e os serviços sociais estão mais ou menos deliberadamente subfinanciados, com falta de pessoal com falta de poder de decisão e com instituições limitadas nos seus objetivos fazem com que estes serviços sejam incapazes de proporcionar uma verdadeira melhoria dos serviços prestados e uma protecção duradoura e sustentável aos seus “clientes”. Não são mecanismos de autonomização, mas sim de desresponsabilização, quer para aqueles que servem, quer para o seu pessoal. Assim, uma verdadeira resposta à “crise do custo de vida” seria uma questão não só de mais despesas mas também de organização política e mobilização para criar uma estrutura estatal realmente capaz de assegurar um nível de vida decente para aqueles que se encontram na metade inferior da distribuição do rendimento e da riqueza.”

“Em última análise, a enunciação desta visão alternativa de uma resposta progressiva à inflação serve, portanto, para levar para casa uma realização bastante sombria: o consenso anti-inflação de 2022 é condicionado não por um, mas por dois momentos de resignação.

Isto está condicionado pelo facto de não haver uma poderosa espiral de preços-salários, nem muitas perspectivas de desenvolvimento de uma tal espiral e de haver um partido como o Partido Trabalhista em que dar apoio a uma política salarial militante parece, à sua liderança actual, como sendo uma proposta arriscada. Como resultado, os salários reais estão a sofrer um golpe selvagem. E assim, a crítica de esquerda vem concentrar-se na própria inflação como o problema que precisa de ser abordado.

Mas por que é que não se põe a tónica nos problemas sociais expostos pela crise do custo de vida em vez de se estar a colocar o centro da atenção na inflação geral? Porquê confundir os dois? Para alguns isto é, sem dúvida, uma amálgama cínica, uma versão actualizada do interesse dos rentistas que se esconde por detrás do argumento da “janela da pensão”. Mas isso não pode explicar a amplitude verificada em termos do apelo anti-inflacionista. Reflecte certamente um profundo cepticismo sobre a eficácia de uma política pró-activa de redistribuição e de aumento dos rendimentos conduzida pelo Estado, para aqueles que são mais seriamente vitimados pela crise do custo de vida.

Assim, desta dupla demissão – tanto sobre as possibilidades de mobilização social como sobre a possibilidade de uma política estatal progressiva – emerge por defeito o progressivismo do “dinheiro sólido” como a melhor opção defensiva. Ao que parece, estamos de volta à TINA (não há alternativa). Fim de citação

 

Parece-nos que estamos agora a reviver estes tempos se olharmos para o que se passou na Europa desde o rebentar da crise dita de subprimes até à defesa sistemática da política monetária seguida agora pelos Bancos Centrais com as taxas de juro em alta e os rendimentos reais de quem trabalha a ficarem em baixa.

Este processo de regressão social não poderia deixar de se fazer sentir no ensino, sobretudo no Ensino Superior. O enquadramento jurídico criado com Mariano Gago (RJIES) e a reforma dita de Bolonha com ele aprovada aí estão a prová-lo. Os silêncios e cumplicidades em torno destas duas reformas, assim como o silêncio e cumplicidade em torno dos contratos precários de professores do Ensino Superior assinados sob a curiosa figura de Manifestação de Interesses, professores pagos à hora e a uma remuneração não muito diferente do que se paga a uma mulher a dias, aí estão a confirmá-lo e só não vê quem se quer fingir de cego. E para não nos alongarmos sobre este tema, falemos de passagem sobre o que chamamos de reforma Bolonha 2, ou seja, a transposição das disciplinas leccionadas sob Bolonha em português para inglês, como se o corpo docente português dominasse fluentemente o inglês para leccionar na língua de Shakespeare, como se os estudantes, vindos de diversos cantos do mundo tivessem eles a capacidade de ouvir o inglês macarrónico que lhes seria apresentado, como se os nossos próprios estudantes tivessem a capacidade de pensar em inglês. Reproduzir a letra de uma canção não é a mesma coisa que estar a responder numa prova de exame. A menos que…

Contaram-me em tempos uma história curiosa: numa faculdade do norte do país, já não me lembro qual, houve um dito concurso de Manifestação de Interesses. A pessoa a ser colocada foi chamada para lhe darem a boa notícia e, quando o fizeram, disseram-lhe: lembramos-lhe que as aulas serão leccionadas em inglês. Mas… ia responder a candidata vencedora, cuja frase foi cortada pela professora e burocrata da faculdade em questão. Não há nenhum mas. Não sabe inglês? Não tem problema, escreve o texto em power point em português, nós traduzimo-los e a senhora lê-os nas aulas. Mas, eu… De novo, a professora e burocrata da instituição deu-lhe antecipadamente a resposta à pergunta que não chegou a formular. Não sabe ler em bom inglês? Não faz mal, os alunos também não sabem para perceber que a senhora não sabe. Também não precisam de ouvir, basta-lhes ficar com os power points e estes ficam escritos em bom inglês, esteja descansada. Estes power points são o registo que fica das suas aulas. É isto que importa.

Esta história verdadeira levada ao limite da caricatura significaria que não é preciso que o professor saiba falar corretamente, que um estudante saiba “ouvir corretamente” o mesmo é dizer que um estudante poderia entrar mudo numa Universidade de amanhã e sair dela calado, empunhando na mão um diploma de licenciado a garantir a sua passagem por ali. Isto é a imagem que podemos conceber para o ensino superior que aí vem e isto, no fundo, não é nada mais nada menos do que a reprodução da degradação económica e social a que estamos a assistir, faz parte dela. E depois vêm-nos falar em atratividade, em competitividade, em inovação tecnológica esperada para as novas gerações, gerações estas a quem nem sequer estamos a oferecer boas condições para nascerem!

Paralelamente à regressão social a que se refere Adam Tooze, o ensino superior acompanhou esta degradação verificada no plano da Política. Necessariamente assim num contexto de precariedade como é o nosso, onde o sistema precisa de gente funcional disponível para que o seu quadro ideológico se difunda. Basta olharmos para a evolução do ensino que se faz nas Faculdades de Economia e Gestão deste país e creio, quase que aposto, que se passa o mesmo noutros países. A partir dos anos 80 e particularmente desde os anos da década dos anos 2000, a Economia enquanto ciência passa a ser uma parente pobre e subalterna às licenciaturas em Gestão, uma estranha subalternização que, por exemplo, já se sente ao ler com atenção o programa de comemoração dos 50 anos da FEUC. Nesta estranha evolução, a Economia enquanto licenciatura passa a ser uma manta de retalhos constituída de diversas disciplinas supostamente técnicas, e apenas isso, em vez de um conjunto articulado de saberes capaz de gerar um verdadeiro leque de competências, e onde a introdução de algumas disciplinas de gestão é feita para conferir aos seus licenciados um ar de maior empregabilidade. Paralelamente a licenciatura em Gestão assume-se cada vez mais como um conjunto de técnicas, relativamente banalizadas de contabilidade, de análise financeira e de muito marketing, apenas isso, ao serviço dos mercados e ao sabor da evolução destes, onde a introdução de algumas disciplinas de economia serve como verniz cultural. Nada mais que isso.

Nunca mais esqueço uma situação curiosa pela qual passei: em tempos que já lá vão, em conversa com uma importante figura política e importante gestor falou-se numa operação em que se dividia 25 por cinco. Este gestor levanta-se para abrir a pasta. Perguntei-lhe o que é que estava a fazer. Ia buscar a máquina de calcular! O quê, exclamei eu! Sabes, é tudo uma questão de hábito, estamos habituados apenas a contas de somar e de sumir, foi a resposta. Tudo dito; quadros assim formados, são quadros balizados, balizados pelos números (de somar e sumir) e balizados pela sua visão do mundo e esta é necessariamente a visão criada pelo mainstream. São basicamente quadros superiores prontos a difundir o que aprenderam a não questionar.

Percebe-se assim que as disciplinas de macroeconomia geral, de macroeconomia financeira ou de economia aberta assim como a de política económica tenham tendência a ficarem diluídas e insignificantes em importância curricular ou têm mesmo tendência a desaparecer dos planos de curso de muitas faculdades. Para quê mantê-las, questionarão os neoliberais de hoje. Ensinar a pensar à Tinbergen, como eu dizia a um velho professor meu do ISEG, Mário Valadas, é arte que possivelmente já não se pratica em lado nenhum.

A fragmentação dos saberes contra a articulação dos saberes seria hoje a grande questão se se quisesse pensar seriamente a reforma do ensino superior. Aqui relembro uma história antiga. Entre 1975 e 1980 creio eu, levou-se a cabo uma reforma em profundidade da licenciatura em Economia na FEUC. Para essa reforma era chave definir em sentido lato o que se pretendia como perfil de um economista. Pedimos apoio ao saudoso Francisco Pereira de Moura. Eu, o Mário Neto – e este é estranhamente um professor esquecido da FEUC -, o Joaquim Feio e, creio, também o João Sousa Andrade, deslocámo-nos a Lisboa duas ou três vezes para discutir o plano de curso de Economia com o Professor Moura. Nessas conversas ainda me lembro bem de uma das posições de Pereira de Moura.

Segundo Francisco Pereira de Moura deveria haver no plano de curso duas cadeiras de História do Pensamento Económico: uma no segundo semestre do segundo ano e uma outra no segundo semestre do quinto ano. A razão apontada era mais ou menos a seguinte: a disciplina do segundo ano abria ou estimulava o estudante para os grandes temas de economia a partir dos textos de autores bem selecionados. Abria aos estudantes as estradas para o pensamento, para o conhecimento, era a tese de Pereira de Moura. A disciplina do quinto ano tinha o papel de unificador de conhecimentos partindo da disciplina anterior e enquadrado pelos conhecimentos, entretanto adquiridos. Unificava pontos, era a sua tese, para esta segunda disciplina em História do Pensamento Económico. Era curioso sentir a profundidade que Pereira de Moura pretendia para estas duas disciplinas quando o manual de referência, muito bom para a altura, era a obra de Henri Denis intitulada História do Pensamento Económico, publicado pela Editora Livros Horizonte, numa tradução de António Borges Coelho (1974). Pessoalmente, o livro era muito bom mas claramente Pereira de Moura queria bem mais para a segunda disciplina desta área e compreende-se que assim fosse.

Nada disto se discute hoje, que eu saiba. No caso da FEUC de então, os nossos parâmetros não eram os de Lisboa: eram os de uma cidade do “interior”, cujo tecido produtivo era constituído maioritariamente por micro e pequenas empresas e cuja maioria dos estudantes provinha de meios ainda mais longínquos face aos grandes centros que eram Lisboa e Porto. Procurou-se uma estrutura de curso que fornecesse ao estudante um ensino teórico em profundidade de modo que este adquirisse uma boa capacidade de aprender, esta é a grande missão da Universidade, e ao mesmo tempo, um conjunto de disciplinas que lhes garantisse empregabilidade no mundo empresarial que nos rodeava. Neste quadro, o espaço disponível não era muito, e falamos de um curso de cinco anos, pelo que na área do Pensamento Económico, optou-se por uma só disciplina semestral e no segundo semestre do quinto ano, criando-se assim a disciplina Análise Comparada das Modernas Teorias Económicas, em boa hora a ficar sob a orientação do professor Joaquim Feio. Tratava-se de uma disciplina que exigia tanto um profundo conhecimento teórico do que estava a ser ensinado como uma profunda cultura sobre o contexto social, cultural e político subjacente ao que estava a ser ensinado e a este nível não conheci ninguém tão capaz como ele. Era uma disciplina difícil de construir.

Sobre o tipo de licenciatura que se produziu com esta reforma, aqui vos deixo quatro pormenores:

  1. Nos anos 80 um Professor do ISEG escreve um relatório sobre o Ensino Superior endereçado ao ministro da tutela onde explicitava que o curso de Economia lecionado na FEUC era o mais equilibrado de todos os que existiam no país.
  2. O saudoso Pedro Nogueira Ramos obteve o grau de mestre na Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa. Expressou-me pessoalmente o seu espanto quando viu que havia matérias leccionadas nesse mestrado que eram semelhantes às que eram lecionadas na licenciatura em Economia: e como exemplo ainda me lembro de ter citado a teoria das transferências em economia aberta, teoria que ganhou mais tarde foros de nobreza com a crise da dívida pública na União Europeia.
  3. Durante vários anos, o ICEP, hoje AICEP, oferecia anualmente um estágio remunerado de 6 meses ou um ano ao melhor aluno de Economia Internacional da FEUC. Dizia-me um dos responsáveis do ICEP, o dr. Francisco Bandeira, que os nossos alunos três meses depois de entrarem no ICEP diferenciavam-se positivamente dos melhores alunos da Universidade Nova, mas apenas três meses depois, sublinhe-se. Estes três meses representavam a marca do meio social de onde vinham os estudantes, ou de outra forma, era o custo em termos de interioridade geográfica, e não esqueçamos que a Universidade Nova era o cadinho dos filhos da burguesia de Lisboa. O resto genericamente era a marca da Faculdade de onde vinham e não ficávamos a perder.

Este exemplo mostra ainda que a articulação coerente de conhecimentos levou a que a FEUC estivesse à altura da missão que lhe era atribuída: ensinar a aprender e que o ICEP cumpriu a sua: ensinar a fazer.

  1. Entre 2015 e 2017, não me lembro com precisão da data, numa troca de ideias com Michael Pettis, considerado pelo Financial Times um dos maiores especialistas da atualidade em problemas de macroeconomia em economia aberta, em torno do seu livro The Great Rebalancing, sugeri–lhe a leitura de três a quatro textos de autores que lhe estavam no plano teórico muito próximos. Dois a três deles eram já antigos e utilizados na FEUC e o último, de Wilhelm Lautenbach, era um texto alemão que só muito recentemente teve direito a tradução de excertos em inglês. E a resposta a esta sugestão foi rápida: agradeceu a sugestão e quanto aos textos utilizados na FEUC, disse que se tratava de autores que tinha estudado em profundidade quando fez o seu mestrado na Universidade de Columbia e esta é uma Universidade de referência mundial.

 

Era assim naquele tempo. A coerência e profundidade curricular de então, contra a dispersão de saberes simplificados de hoje em qualquer Faculdade do país mostra que a FEUC de então cumpria bem o seu papel, o de ensinar a aprender. Hoje, olhando para o programa de curso de qualquer Faculdade de Economia, com as suas múltiplas disciplinas de opção livre, à vontade do cliente-rei, somos levados a acreditar que não se dispõe sequer de uma massa de conhecimentos suficiente que permita construir de forma séria e profunda no final da licenciatura uma disciplina de História do Pensamento Económico quanto mais uma disciplina como a de Análise Comparada das Modernas Teorias Económicas. Aqui o plural diz tudo!

Nas conversas com Francisco Pereira de Moura estávamos a falar de um curso que tinha duração de cinco anos e que depois foi sendo minado ao longo do tempo, um pouco como a lei Glass-Steagall do tempo do New Deal foi sendo minada aos poucos e poucos. Esta levou a estocada final com a sua revogação feita por Robert Rubin que a seguir a esta revogação passou de Secretário de Estado para dirigente do Citi a cerca de 50 milhões por ano! O nosso plano de curso sob pressão de Sousa Andrade e outros passou para 4 anos com redução de carga horária de muitas das suas disciplinas. Era necessário concorrer com a Universidade Nova, era o que ele me dizia enquanto o Romero de Magalhães me dizia que era necessário deixar tempo aos estudantes para estudarem, tirando-lhes tempo de aprendizagem! Depois veio a estocada final, veio a reforma de Bolonha que estendeu a redução da carga anterior a todas as disciplinas e reduziu os cursos superiores, regra geral, a uma duração de três anos. Aqui, na FEUC, não houve sequer a preocupação de defender os Mestrados integrados: blocos coerentes de disciplinas que confeririam ao fim de cinco anos o diploma de Mestre com a especialidade X, Y ou Z. Não, continuou a preferir-se copiar a Universidade Nova, penso eu, tal como quando se deu a passagem de 5 para 4 anos. O que todos nós devíamos saber é o que o dito prestígio da Universidade Nova não assentava, é a minha opinião, num ensino comparativamente melhor, longe disso. Assentava sobretudo num investimento brutal em marketing direto ou indireto, e na necessidade da burguesia lisboeta propagandear os méritos da Faculdade onde tinha os filhos. Porquê não levar em conta isso? Exemplo disto: ainda me recordo de uma intervenção de José António Ferreira Machado, na altura da Troika, dizer na televisão que o desemprego dos economistas era principalmente devido ao facto de estes não serem licenciados pela Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa. E a leitura que vi fazer a muitos estudantes já licenciados é que era melhor fazer o mestrado na Universidade Nova para aumentar as suas possibilidades de emprego. Curiosamente, um mestrado custa na ordem dos 11,000 euros.

Curiosamente todos esqueceram, a começar pelo diretor da Faculdade de Economia da Universidade Nova, que no nosso país e a partir do meio da escala remuneratória, a maioria dos empregos têm mais a ver com o peso da situação de classe, da cunha valente ou dos laços subterrâneos que ligam certas pessoas, do que com o mérito tido ou adquirido via ensino superior e qualquer que seja a Faculdade de saída. Aliás, muitos alunos da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa têm já emprego garantido e antes mesmo de entrarem para a Faculdade. Ignorar esta realidade é puro cinismo político e levar famílias com menos rendimentos a pagarem os valores acima em nome da pressuposta garantia de emprego é, na minha modesta opinião, uma fraude. Lamentavelmente esta é a realidade e até nisto existe um profundo desrespeito pela nossa juventude. O país assim como os nossos filhos e netos merecem mais seriedade de processos.

Fico com uma dúvida, será que não o sabíamos, que do ponto de vista da qualidade de ensino a Nova era como as outras, com a diferença de ser a bandeira do pensamento único, do pensamento monolítico? Penso que o sabíamos, mas as figuras dominantes de então na FEUC, os seus mandarins, convenceram os outros de que a solução escolhida era a que mais nos convinha. Lembro-me ainda de uma afirmação emblemática sobre isso proferida pelo coordenador das reuniões sobre Bolonha: concordo com o curso de quatro anos mas só aceito discussão sobre o curso de 3 anos. A explicação para a opção escolhida, a de colagem à Universidade Nova, em vez dos mestrados integrados, cada um caraterizado pela especialidade conferida talvez seja bem simples. Criar uma licenciatura definida pelos diversos tipos de grau de Mestre conferidos, os diversos blocos de conhecimentos a ensinar do terceiro ao quinto ano, com algumas cadeiras comuns obrigatórias, como Política Económica 2, na sequência de Política Económica 1, que seria cadeira obrigatória do segundo semestre do terceiro ano, era uma tarefa de muito trabalho, um trabalho para 5 a 6 anos até tudo ficar estabilizado, disciplinas e programas. Isso implicaria muito mais responsabilização para uma série de pessoas que possivelmente não estariam já para se incomodar e também porque a dominante do individualismo já reinante levaria a privilegiar mais as carreiras que preenchem diversas linhas dos CV do que este tipo de trabalho que é curricularmente muito menos rentável. Não esqueçamos que a lógica introduzida por Mariano Gago leva a que ensinar seja encarado mais como um escolho à carreira do que uma vocação a ser desejada. O meu amigo José Almeida Serra, que foi ministro de um dos governos de Mário Soares, diz-me que a razão é outra: não há já saberes para organizar cursos (integrados) de 5 anos. Hoje, concordarei plenamente com a sua posição, não há quem saiba construir licenciaturas deste tipo, mas é hoje e não ontem, enquanto eu estou a referir-me ao que se passou há pouco mais de 20 anos. Refira-se ainda que quando digo não há, não me refiro a uma pessoa só, refiro-me a equipas organizadas de polímatas de formação em economia e em áreas conexas como Direito, Matemática e História. Naquele tempo, na FEUC havia pessoas interessadas e empenhadas, havia saberes polímatas, havia disponibilidades, havia empenhos, havia então características fundamentais para essa missão, características estas que o tempo se encarregou de queimar, o que não havia era disponibilidade política de quem a devia ter para levar a cabo este tipo de projeto. Colarmo-nos à posição do ministro de tutela era mais cómodo e foi o que foi feito. Um ensino de qualidade assente na bandeira de recusa do pensamento único seria bem mais conveniente e mais útil ao ensino de economia em Portugal, mas não foi essa opção.

Curiosamente nem estes mestrados integrados resistiriam muito tempo à pressão do governo em criar e lançar no mercado de trabalho uma enorme massa de gente licenciada, mas técnica e culturalmente pouco diferenciada, porque isso, em princípio, reduziria os custos na formação e com a precariedade de conhecimentos tornariam esta juventude mais maleável e mais facilmente sujeita aos interesses dos mercados, ou seja, dos empregadores. Com efeito muito recentemente e por decisão ministerial estes mestrados passaram a ser proibidos!

O resultado está bem à vista. Com este texto já pronto e em fase de revisão leio um texto de Helena Lopes publicado no jornal Público sobre a juventude onde se diz:

Se os responsáveis nos ministérios da Educação e do Ensino Superior não facultarem aos jovens os conhecimentos que lhes são pedidos, arriscam-se a ser considerados “fabulosamente medíocres” por não enfrentarem a realidade. O certo é que sem a mobilização da sociedade civil, os governos não tomarão as medidas necessárias” [1] Fim de citação

 

Percebe-se pois que o mundo universitário de hoje não é o meu mundo. Não, o meu mundo é o do contínuo dos grandes clássicos, Adam Smith, Ricardo e Marx, é o mundo de Sraffa, Keynes e Kalecky, é o mundo de Roy Harrod e de Evsey Domar, é o mundo de Marriner Eccles, Arghiri Emmanuel, Michael Pettis e Stglitz, de Ronald Meek, Geoffrey Harcourt, Maurice Dobb, de Bertram Schefold e Luigi Pasinetti, entre muitos outros. Com exclusão de Adam Smith [2], Ricardo [3] e Keynes [4], todos os outros serão nomes menores ou mesmo desconhecidos nas licenciaturas em Economia nas Faculdades deste meu país.

O meu mundo intelectual é fundamentalmente feito a partir do trabalho destes autores e o mundo económico e social sobre o qual se debruça é aqui o espaço onde se desenrolam, se registam, se analisam os conflitos de classes, os conflitos e opções na produção e na consequente repartição do rendimento, é o espaço sobre o qual em termos de História se debruçava também Jaime Ferreira. É este mundo económico e social que é espelhado pela coletânea de textos que agora lhe foi dedicada. O meu mundo é esse mesmo e é, também, o das solidariedades humanas que nas lutas contra estes conflitos de interesses se tecem, os fios invisíveis com que a humanidade como um todo por vezes se veste, e com que cada um de nós sustenta muitas das nossas relações pessoais. Portanto, à luz deste meu mundo, executo agora o que tinha decidido antes: enviar os quatro textos restantes.

 

 

Mas os textos da série dedicada a Jaime Ferreira (ver aqui e seguintes) justificam a alegoria acima por uma outra razão. Os textos falam-nos sobretudo dos Bancos Centrais e das manipulações feitas pelos políticos para se adaptarem ao que os Bancos Centrais pretendem impor, justificando depois sem qualquer pudor o que estão a fazer. É neste campo que se dá a demissão de Truss acusada de incompetente por querer estabelecer em força de lei o que os mercados de há tanto desejavam: bónus aumentado, tributação reduzida e benefícios fiscais para as empresas. Ninguém de bom senso pode acreditar que foi isso mesmo que a levou à demissão.

A série dedicada a Jaime Ferreira e publicada no blog A Viagem dos Argonautas, como conclusão, leva-nos pois a não aceitar que os problemas da sociedade inglesa se reduzem à incompetência pessoal de um ou outro político e menos ainda que são também resultantes do Brexit, como querem os defensores da atual configuração da União Europeia. Uma argumentação deste tipo esquece que quem vai ao volante do carro chamado Reino Unido o que vê pelo seu espelho retrovisor é exactamente o carro da União Europeia com a condução a debater-se com os mesmos problemas. Necessariamente assim, uma vez que o modelo de sociedade e de capitalismo é exatamente o mesmo e a classe política é em muito semelhante.

Esta realidade leva-nos a ir um pouco mais além, havendo já mais de um mês de distância sobre o quase colapso bolsista de outubro em Londres e, por isso, irei fazer uma nova série de textos tendo como tema o Neoliberalismo, as Pensões por capitalização e a Instabilidade Política e Social a ser publicada em A Viagem dos Argonautas e não será de forma alguma enviada por esta lista de email. É necessário e urgente que se vá para lá dos espelhos que fabricam as imagens com que nos querem convencer que vivemos no melhor dos mundos possíveis e é isso que nos propomos fazer neste caso, tomando como exemplo o caso britânico.

Entretanto com a queda de Liz Truss é Sunak que assume o poder para fazer o inverso da que fez com Boris Johnson e aí, como Chanceler do Tesouro, deu dinheiro para as pessoas irem comer aos restaurantes e assim animar o setor da restauração, aqui, como Primeiro-ministro, tira dinheiro destinado às pessoas para que estes se pudessem aquecer e proteger dos rigores do Inverno [5]. Entretanto, estivemos à beira de um cataclismo financeiro que não seria menos grave do que o que aconteceu com Lehman Brothers e que lançou o mundo na recessão dita de subprimes: agora, Outubro de 2022, os fundos de pensões, um dos elementos da crise dos mercados financeiros de agora, estavam á beira da falência e o Banco Central inglês teve que fazer marcha atrás na sua politica monetária austeritária anteriormente publicitada. Sublinhe-se que os fundos de pensões, gestores das pensões de reforma por capitalização, são um ícone do mundo neoliberal, do mundo financeirizado e assumem um papel importante nos mercados financeiros.

Com estes fundos, corremos o risco de incendiar a Europa mais do que o que ela já está. Na calha estavam já os fundos de pensões da Holanda a correr o risco de arderem e possivelmente os mais perigosos de todos, os fundos de pensões dos EUA corriam o perigo de sofrer igual destino. Inacreditável o que aconteceu, e o que se fez, via FMI, foi sugerir que a política orçamental inglesa fosse a par com a política monetária austeritária do seu Banco Central e que a esta última se adequasse [6]. Se repararem isso não é nada diferente do que foi imposto na Europa pela Troika, onde a dívida pública tem que ser subscrita pelo mercado, e quanto ao resto nada a mexer, porque os mercados têm sempre razão, sobretudo os financeiros. Esta é a conclusão que se pode tirar desta história tão mal contada.

Mas se olharmos para um passado bem longínquo, 1932, se tivermos em conta o clima económico e social que se vivia na altura, percebemos que o discurso, hoje, seja de Lagarde, do BCE, e de Robert Habeck que atualmente exerce o cargo de Vice-Chanceler da Alemanha e Ministro das Finanças e Proteção Climática, seja de Sunak e do seu Chanceler do Tesouro, Jeremy Hunt, seja de Fernando Medina e Mário Centeno, estão todos eles ligados por um fio comum bem explícito para quem o quer ver, o fio da política austeritária que a Troika aplicou e que se quer voltar a aplicar. Alguém tem que pagar os custos da crise em que estamos mergulhados, e esse alguém terão de ser as classes sociais mais desfavorecidas. Indefesas perante o capital, sem consciência de classe, desagregadas perante a mistificação organizada pelos media, pelos ministros da propaganda, pelos centros de reflexão universitários só lhes resta sobreviver em desespero. O aumento das taxas de juro com o objetivo de reduzir o consumo aí está a mostrá-lo. Ninguém com dinheiro deixa de consumir porque as taxas de juro ao crédito é alto!

Estes discursos em uníssono, lamento dizê-lo, podem ser encarados como eco de uma outra época, a da crise desencadeada em 1929 e que atingiu o seu pico em 1933. Com efeito, como assinala Mark Nelson:

O Presidente Hoover informou o Congresso no seu discurso anual, proferido em Dezembro de 1931, no que seguramente se pode classificar como um dos discursos mais insensíveis e mais desprovidos de sentido pronunciados por um dirigente político em toda a história do país, “que os dados do Serviço de Saúde Pública indicavam uma melhoria real nas situações de doença e na mortalidade em geral: “Não há prova maior de que o nosso povo tenha sido protegido da fome e do frio e de que o sentido da responsabilidade da Nação tenha respondido às necessidades criadas pelo infortúnio”

Para termos uma ideia do que foi este período e da crueldade que representa a posição do Presidente Hoover vejam-se alguns dados de então:

“No verão de 1932 mais de 25% da força de trabalho estava desempregada e havia muitos milhões de trabalhadores que viram os seus horários reduzidos: As siderurgias estavam a trabalhar a 12% da sua capacidade. Entre 1930 e 1933 um recorde de 7.149 bancos comerciais entraram em falência com 1947 destes bancos a serem bancos nacionais; eles arrastaram consigo mais de 9 milhões de contas-poupança. De sublinhar o dado notável de que 45% dos créditos agrícolas garantidos por hipotecas – representando 52% do valor total da dívida hipotecária agrícola estavam em situação de incumprimento. Nestes anos, o PNB em termos reais declinou aproximadamente 35%. Milhões de pessoas perderam as suas casas e os seus empregos”. Fim de citação.

Perante tudo isto, sublinhe-se que a ideia dominante da Administração Americana é bem sintetizada por Hoover em campanha eleitoral em 1932 quando afirmava que “a diminuição da dívida pública era a base de toda a estabilidade financeira pública e de toda a confiança pública.” Não nos parece que haja qualquer diferença entre o que disse o Presidente Herbert Hoover e o que diz António Costa quanto às contas certas, 90 anos depois.

Ora, entre 1932 e 2022 estão vividos noventa anos e pelos vistos confirma-se o que nos diz John Gray: os homens são muito rápidos a esquecer, são muito lentos a aprender. Neste arco de tempo bem parece que nada se aprendeu e que quanto ao sofrimento que políticas erradas provocaram tudo se esqueceu. As similitudes no que toca ao cinismo da classe política dos anos da crise de 29 e da classe política de agora são evidentes. E os anos 30 foram o que foram, deram no que deram. E agora, a continuar assim, o que é que se espera? Uma outra guerra mundial?

Esta narrativa do que se passou na Inglaterra recoloca um enorme significado na nossa alegoria e de uma coisa estamos certos: o que está muito mal é o sistema económico e político inglês, o que está muito mal é o modelo cujas falhas se pretende esconder, o que está mal é dizer que a crise criada é devida à incompetência de Truss. O que ela queria fazer como clonagem de Margaret Thatcher, era liberalizar ainda mais a economia britânica, beneficiando o mundo empresarial, reduzir os impostos às empresas, o que vai no mesmo sentido, e uma política expansionista supostamente sustentada para proteger as classes sociais de menores rendimentos face à crise presente.

Esta política expansionista de Truss seria financiada pelo recurso ao empréstimo público, pela ida aos mercados de capitais. Não é isso que faz a União Europeia com os Programas de Recuperação e Resiliência? Depois, Truss dava uns bons rebuçados aos mercados de capitais: dava-lhes possibilidade de aumentar os bónus dos banqueiros e dos operadores da City, queria baixar a tributação dos ricos de 45% para 40 % e esta última taxa foi durante anos e anos a tributação imposta pelo Partido Trabalhista. E eis que em nome da honra dos banqueiros estes recusam os rebuçados que andavam a exigir e exigem por isso mesmo a sua demissão!

O sistema produz uma imagem de si-próprio que não corresponde à realidade, imagem essa escrita e reescrita em múltiplos manuais universitários, imagens ensinadas em múltiplas universidades e é essa imagem que é necessário desmontar se queremos perceber o que é que está realmente a acontecer no capitalismo atual. Fazê-lo, é ir para lá do espelho, a lembrar Lewis Carroll e a sua personagem de referência, Alice, fazê-lo é efectuarmos uma viagem complicada pelos mercados financeiros, pelos seus produtos exóticos, pelos seus swaps de juros, pelos seus swaps de retorno total – e lembremo-nos de Bill Hwang e das suas apostas multimilionárias de dezenas de milhares de milhões que se esfumaram em horas -, fazê-lo levar-nos-á pelos seus mercados REPO, etc.

Depois de percebermos algumas das técnicas utilizadas, procuraremos perceber a importância dos fundos de pensões no capitalismo moderno. Só a partir daqui estaremos em condições de recolocar a demissão de Liz Truss e a política monetária do Banco de Inglaterra no contexto macroeconómico deste país. E, como se disse em nota acima, serão também publicados três artigos descrevendo a realidade económica e social inglesa neste momento, três imagens portanto deste país esmagado pela financeirização e pela crise. As fotografias tiradas, parece-me, não serão nada agradáveis de se ver.

Desmontar o jogo de espelhos com que o neoliberalismo nos quer iludir, é o que nos propomos com uma nova série de textos sob o tema Neoliberalismo, Pensões por capitalização e Instabilidade Social e Política que não será distribuída por esta lista de “emails” uma vez que não há aqui nenhuma ligação directa com a FEUC nem com ninguém que nela trabalhe.

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Notas

[1] Aqui dou dois exemplos.

  1. No final dos anos 80, penso eu, com o curso ainda em cinco anos, uma aluna minha, Mariana de Carvalho, um dos estudantes dinamizadores do Movimento Associativo (na altura havia disso) que foi muito importante na demissão de um professor de gestão que primava pelo desrespeito a todas as normas de decência pedagógica, concorreu a um emprego numa multinacional alemã e para a área financeira. Pela análise curricular foi um dos candidatos selecionados. Foi à prova final, uma entrevista com o diretor da filial em Portugal. E esta decorreu da seguinte forma. A candidata apresentou-se, cumprimentaram-se e o diretor amável, mas distante disse-lhe: À sua frente tem um bloco de notas A4 e uma esferográfica. Dispõe de 10 minutos para escrever o que quiser, em inglês. A entrevista foi só isto. Acabados os 10 minutos, o diretor recolheu o bloco e a esferográfica, despediram-se. Foi a candidata selecionada. Anos depois era a diretora financeira. Isto não é muito diferente da pergunta que nessa mesma altura selecionava os candidatos para a entrada numa das mais prestigiadas instituições universitárias em Paris, Science Po. E a pergunta era: fale-nos de um livro que tenha gostado tanto que ache indispensável que os seus amigos o leiam.
  2. Por volta de 2010, sob Bolonha, um aluno licenciado em Economia, sobrinho de um conhecido meu e já agora, filho da média burguesia local, concorre à admissão a uma Escola Superior de Hotelaria em Zurique. Fez uma prova de admissão a que se seguiu a entrevista e aí é-lhe dito: É admitido com uma condição: não sabe o suficiente em Contabilidade e como tal, tem um ano zero nesta Escola, onde só irá estudar Contabilidade. Se aceita, pode ficar, se não aceita também não é aceite por nós. E o aluno ficou.

Tudo isto vem a propósito da frase:

“não facultarem aos jovens os conhecimentos que lhes são pedidos,”

Dois tipos de cursos separam estes dois acontecimentos, um curso de 5 anos seriamente construído muito antes de Bolonha e um curso de três anos cheio de opções à vontade do cliente, dez anos depois de iniciado o processo de Bolonha. Tirem-se as conclusões que se quiserem, mas uma coisa é certa: quando as coisas se passam assim, quando o ensino se degrada, os custos económicos e sociais são enormes, seja a nível individual seja a nível coletivo. Tenhamos consciência disso.

Acrescente-se uma pequena nota relativamente à aluna Mariana de Carvalho. Era uma rapariga culturalmente diferenciada, o exemplo da entrevista confirma-o, com quem tive o prazer de trabalhar de perto no processo que levou à demissão do professor acima referido. E como expressão dessa amigável relação, aquando do términus da sua licenciatura, num jantar de fim de curso com a família para que fui convidado, ofereci-lhe como lembrança, a obra poética de Eugénio de Andrade. Tratava-se de escolha que não foi feita por acaso.

[2] Adam Smith será sobretudo referido não pela sua teoria do valor trabalho, não por esse fabuloso conceito dito de trabalho comandado, não será referido pela sua problemática de trabalho produtivo-improdutivo mas sim pela sua ideia da mão invisível, da liberalização subjacente dos mercados e da divisão nacional e internacional do trabalho (a sua fábrica de alfinetes e a sua conceção de vantagens absolutas em comércio internacional)

Relembro aqui o que disse Stiglitz: diz-se mão invisível e está correto dizê-lo, porque esta não existe!

[3] Ricardo, se for referido, não o será pelas suas preocupações em termos de teoria do valor e da determinação dos preços, não o será também pela análise da dinâmica do capitalismo mas sim pelo teorema das vantagens comparativas em que se fundamenta a justificação para a globalização de matriz neoliberal a que temos assistido nas últimas décadas e pela sua teoria da renda diferencial em que se fundamenta a política europeia dos preços da eletricidade.

[4] Keynes, pelo que vimos de Lucas e de outros será reduzido a um papel de autor menor, de criador de um multiplicador de rendimento a abrir e fechar buracos! Mesmo a visão de Keynes elaborada por Hicks e Hansen, o aparato das curvas IS-LM, se ensinada, será relativamente desvalorizada. O maior economista de todos os tempos, na opinião de muita gente, Keynes, passará a ser minimizado se não mesmo ignorado nas Faculdades de Economia. Um autor italiano, cujo nome não me recordo, e num texto que publiquei há mais de um ano, queixava-se da pouca importância que nas Universidades europeias, salvo Roma III creio eu, era dada à obra fundamental de Keynes, a Teoria Geral.

Esta é a evolução do ensino em Economia de que se começam a ver claros sinais e tem um nome: a ditadura do pensamento único.

[5] Para termos uma noção da gravidade da situação económica e social inglesa sobre a qual se quer agora aplicar mais austeridade, terminaremos esta nova série com três artigos: de Mary Harrington, A sórdida crise habitacional da Grã-Bretanha (original aqui), de Madeleine Bunting A traição das cidades britânicas do litoral (original aqui), de Victor Hill O caso misterioso dos trabalhadores desaparecidos (original aqui).

[6] “Nesta lógica, a conformidade da política orçamental, aprovada nos Comuns, por gente eleita pelo povo, à política monetária austeritária decidida pelos tecnocratas (não eleitos) na cave do BoE significa a perversão da Democracia, significa que esta fica a reboque dos tecnocratas e, neste contexto, não é pois estranho que o plano de construção de 300 mil habitações de Truss tenha sido lançado às urtigas por Sunak. Sobre a crise habitacional na Inglaterra diz-nos Mary Harrington:

“Hoje em dia, a procura de habitação ultrapassa tão radicalmente a oferta que os jovens não têm dinheiro para comprar casa. O número de pessoas a dormir na rua tem aumentado 165% desde 2010. Uma em cada dez famílias britânicas vive agora em habitações sobrelotadas. Já em 2016, quatro em cada dez casas britânicas estavam a viver abaixo dos mínimos aceitáveis. No ano passado, 2.300 pessoas morreram enquanto definhavam na lista de espera por habitação social e passada a porta de entrada, a situação é muitas vezes profundamente sombria.

Dada a escala e as desastrosas consequências sociais desta crise, então, é incrível que o último Primeiro-Ministro Tory já se tenha recusado a abordá-la. Rishi Sunak retirou da votação esta semana Levelling Up and Regeneration Bill, depois de cerca de 50 deputados conservadores terem apresentado uma emenda que suprime os objectivos obrigatórios de construção de casas estabelecidos por Liz Truss {n. t. cerca de 300. 000 casas por ano]”. Fim de citação.

3 Comments

  1. Recebido de DF:
    “Muito grato pelo texto…. É profundamente lamentável o que se passa no ensino superior…
    Enquanto aluno tenho pena de ter apanhado a reforma de Bolonha… Gostava muito de ter sido aluno quando a Licenciatura era de 5 anos….enfim…
    Muitas saudades das suas aulas nas disciplinas de Economia Internacional e Finanças Internacionais; bem como do Ciclo de Cinema e Debates.
    Saudações Académicas”

  2. De AF:
    “Excelente texto. Obrigado …. Professor Júlio.
    A profundidade e importância dos temas que aborda é comovente e ao mesmo tempo preocupante.
    Fico a aguardar pelos textos sobre o tema Neoliberalismo, Pensões por capitalização e Instabilidade Social e Política!”

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