Não “salvámos os ucranianos” e a Europa não sairá mais forte – por Andrea Zhok

Andrea Zhok

 

Não “salvámos os ucranianos” e a Europa não sairá mais forte

(original aqui)

por Andrea Zhok (1)

in: l’AntiDiplomatico – 27 de Novembro de 2022

tradução de Júlio Marques Mota

 

Em fevereiro deste ano, nas semanas que antecederam a entrada das tropas russas em Donbass, houve uma discussão nos jornais e talk shows sobre possíveis perspetivas.

Para aqueles que apelaram à renúncia da Ucrânia à adesão à NATO,  à aceitação de um estatuto de neutralidade e à concessão de um grau de autonomia administrativa às províncias de língua russa (segundo o acordo de Minsk II) – sempre no quadro do Estado ucraniano – como sensato, e até mesmo conveniente, os peritos do regime retorquiram com raiva que esta era uma perspetiva inaceitável, que a soberania ucraniana estava em jogo, e que um Estado deveria ter o direito de escolher as suas alianças militares. (NB: a autonomia administrativa do Tirol do Sul é motivada pela presença de 69% da população de língua alemã; nas áreas de Donetsk e Lugansk, a população de língua russa de pré-guerra ultrapassava os 90%).

E ainda no rescaldo da invasão, houve quem recomendasse que as conversações de paz fossem realizadas o mais rapidamente possível em vez do envio de armas, porque este teria prolongado o conflito indefinidamente, e isso teria sido pago duramente pelos ucranianos em primeiro lugar e pela Europa no seu conjunto em segundo lugar.

A estes os mesmos peritos na Primavera responderam estridentemente que era uma questão de soberania, que havia um agressor e um agredido, que este não era o momento para negociações, que a Europa sairia mais forte do que antes (tenho uma recordação clara de um jornalista conhecido e de um antigo embaixador num estúdio de televisão argumentando veementemente estas teses em resposta a mim).

Hoje, nove meses depois, a Ucrânia começa a parecer um monte de escombros congelados e 6 milhões de refugiados ucranianos já chegaram à União Europeia (a maior crise de refugiados na Europa desde 1945) e pelo menos tantos mais se estão a preparar para chegar.

Só para o ano em curso, os custos de subsistência estimados para a hospitalidade europeia ascendem a 43 mil milhões de euros. Os mortos na frente estão na ordem de grandeza de centenas de milhares.

O colossal fornecimento de armas da NATO (três vezes o orçamento anual da Rússia) tem seguido em grande parte o caminho do mercado negro, onde mísseis terra-ar, morteiros, metralhadoras pesadas, etc. podem agora ser encontrados a um preço de pechincha (o crime organizado irá lucrar com eles durante décadas).

Quanto à “soberania” ucraniana que era necessário defender a todo o custo, mesmo os mais distraídos sabem hoje que se tratava de um conto de fadas durante muito tempo: o apoio americano e o apoio ao golpe de Maidan é bem conhecido, tal como sabemos dos ataques irrefletidos do Presidente Biden aos juízes ucranianos que estavam a processar os assuntos ucranianos do seu filho Hunter.

Quanto à ideia de que a Ucrânia “soberana” não representava qualquer ameaça e de que não havia qualquer hipótese real de se tornar parte da NATO, desde então surgiu discretamente que, após os acordos de Minsk II (2015), a NATO tem vindo a treinar o exército ucraniano, fornecendo-lhe armas, construindo fortificações, e que a assinatura dos acordos tem sido um mero estratagema para estagnar e permitir que a Ucrânia se reforce militarmente (testemunho de Poroshenko e de diversos oficiais americanos).

Ainda na ótica da tutela da soberania ucraniana, entretanto a Rússia estabilizou uma grande parte dos territórios conquistados, Mariupol já foi mesmo parcialmente reconstruída, foram realizados referendos de anexação, e a perspetiva de estes territórios regressarem às mãos ucranianas é considerada risível mesmo pela liderança americana.

O conflito foi agora explicitamente caracterizado como um conflito entre a NATO e a Rússia, embora ninguém queira que isto seja oficialmente reconhecido, pois representaria uma deflagração mundial. Os “voluntários” estrangeiros lutam cada vez mais em território ucraniano, com instrutores da NATO, armamento da NATO e financiamento da NATO. O exército regular ucraniano há muito que perdeu as suas tropas mais “prontas para o combate” e é agora apenas a carne para canhão nas suas periódicas saídas sangrentas.

Entretanto, a Europa está a sofrer uma estagflação, com o planeamento contínuo de novas fábricas pelo sector industrial já a decorrer fora das fronteiras da Europa.

De facto, o acentuado corte político contra a Rússia criou uma crise terminal no fornecimento de energia e matérias-primas, uma vez que todos os principais atores não diretamente subordinados aos EUA estão, pela primeira vez, a apreciar a possibilidade de afirmar o seu poder de negociação como fornecedores de matérias-primas – poder de negociação que aumentou enormemente com o quase bloqueio dos fornecimentos da Rússia e da Ucrânia. Sem energia e matérias-primas, a Europa é um museu moribundo.

Como é previsível e previsto por muitos desde fevereiro, o caminho percorrido há nove meses está a conduzir exatamente para onde deveria ter conduzido.

Não “salvámos os ucranianos”, mas alimentámos e prolongámos um processo que está a exterminar o país e a matar dezenas de milhares de pessoas.

Não “salvámos a soberania ucraniana”, quer porque já era quase inexistente (e agora está reduzida a fantoches e atores), quer porque o Estado ucraniano se dissolveu, um quarto da sua população migrou, e as perdas territoriais serão quase certamente permanentes.

Por outro lado, destruímos o pouco que restava da Europa, que está a perder muito rapidamente o seu único “bem” competitivo real, ou seja, as suas capacidades de processamento industrial (na ausência de fontes de energia abundantes e baratas, esta orientação é sem esperança).

Mas talvez alguns possam esperar que, afinal de contas, um colapso seja frequentemente seguido de uma palingenesia, e que talvez seja o momento certo, não?

Só que a verdadeira pedra tumular em qualquer esperança de renascimento reside na deteção do obstáculo estrutural que bloqueia qualquer possibilidade de sensibilização e renovação: todo o circo mediático de “especialistas” e “acreditados”, toda a banda de fracassados bem-sucedidos, de paraninfos do poder que criam e moldam a famosa “opinião pública” estão lá, firmemente na sela, e continuarão a sua ação de envenenamento, manipulação e engano por tempo indefinido.

(1)ANDREA ZHOK

Professore di Filosofia Morale all’Università di Milano

Curriculum vitae in: https://work.unimi.it/chiedove/cv/ENG/andrea_zhok.pdf

 

 

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