“POR UMA SIMPLES QUESTÃO DE SENSATEZ, NÃO ACREDITO EM DEUS. EM NENHUM.” – de CARLOS LOURES

(1937 – 2022)

Não gosto do Natal. É uma época desagradável para mim. Não sou crente e, portanto, a face religiosa da festa, não me diz nada. Festa da família? A minha família não precisa de dias especiais para se reunir, nem de datas certas para manifestarmos os sentimentos que nos unem. Porém, não consigo fugir totalmente aos tentáculos do polvo comercial que, em Dezembro, esbraceja para sacar às pessoas em geral, crentes ou não, tudo o que possa.

E depois é o sortilégio da comida. Não gosto do Natal, mas gosto de algumas iguarias a ele associadas – a começar pelo bolo-rei. E assim, todos os anos nos reunimos no almoço dia 25. Em 1977, eu e minha mulher e os filhos, com os meus pais, estávamos à mesa, embora já tivéssemos almoçado.

Ainda fumava e estava a contas com uma cigarrilha, acompanhado pelo meu pai que só fumava em ocasiões especiais. A televisão estava acesa, mas com o som desligado, e ninguém lhe prestava atenção. Começaram a dar filmes e fotografias do Charlot e pensámos que era mais um programa natalício. Porém, estranhámos a frequente intervenção do locutor que, com ar grave, falava entre os pequenos filmes que estavam a emitir. Como todos, dos mais novos aos mais velhos, éramos seus admiradores, subi o som. Então percebemos – Charles Chaplin tinha morrido.

Charles Chaplin nasceu em Londres em 1889. Os pais, artistas de music-hall, separaram-se após o seu nascimento. Em 1903, com catorze anos, começou a sua carreira – foi o ardina em Sherlock Holmes, papel que representou até 1906. Seguiu-se um show de variedades e depois foi palhaço em “Fun Factory”. Chegou aos Estados Unidos em Outubro de 1912. Na mesma trupe estava também Arthur Stanley Jefferson, que se tornaria conhecido  como Stan Laurel, o «Estica» da dupla «Bucha e Estica». Chaplin e Laurel compartilharam um quarto  numa pensão. Em 1919, fundou o estúdio United Artists com Mary Pickford, Douglas Fairbanks e D. W. Griffith. Apesar de o sonoro ter surgido em 1927, Chaplin só o usou em 1930. Tempos Modernos foi sonorizado, embora quase não existam falas. Charlot, numa das cenas finais canta num restaurante uma canção totalmente em mímica, onde os versos nada significavam, pois Charlot não decorara a letra.

O Grande Ditador (The Great Dictator, 1940) foi o seu primeiro filme com diálogo. Era uma sátira a Adolf Hitler e ao fascismo que reinava na época. Foi filmado e lançado nos Estados Unidos um ano antes da entrada do país na Guerra. O papel de Chaplin era duplo: o de Adenoid Hynkel, uma clara alusão ao nome de Hitler, e de um barbeiro judeu. Hitler era um grande fã de filmes, e pensa-se que ele tenha visto o filme duas vezes (segundo registos de seu cinema particular). Quando soube do Holocausto,  lamentou ter brincado com o regime nazi.

Chaplin sempre foi progressista, embora moderado. Em alguns dos seus filmes essa tendência era notória, principalmente em Tempos Modernos (Modern Times, 1936), crítica à situação da classe operária e dos pobres em geral.  Quando do período da «caça às bruxas», foi incluído na lista Negra de Hollywood. Chaplin, ao dizer que iria viajar para a Inglaterra com sua mulher, em 1952, foi ameaçado de confisco de seus bens pelo governo americano. A sua atitude foi surpreendente: disse que poderiam vender tudo. Quando quis regressar aos EUA foi proibido pelo Serviço de Imigração, com a cassação do visto, acusado de “actividades anti-americanas”, na época do macarthismo, num processo encabeçado por J. Edgar Hoover. Deecidiu então ficar na Europa, escolhendo a Suíça como local de exílio.

A primeira nomeação para o Oscar foi em 1929. Chaplin fora nomeado como melhor realizador de comédia e melhor actor em The Circus, mas a Academia de Hollywood, para o humilhar, atribuiu-lhe um prémio especial pela “versatilidade e excelência na actuação, guião, realização e produção”. Chaplin não levava a sério estes prémios considerando-os uma mistificação comercial. Soube-se que a estatueta que ganhara em 1929 a usava para impedir uma porta de se fechar. A Academia de Hollywood, quando este pormenor foi divulgado, deu largas à sua ira e talvez assim se perceba por que razão Luzes da Cidade e Tempos Modernos, considerados dos melhores filmes de todos os tempos, nunca estiveram na lista da Academia. O Grande Ditador (1940) recebeu nomeações como melhor filme, melhor actor, melhor guião e música original, mas não foi premiado. Em 1952, Chaplin ganhou o Oscar de melhor música para filme dramático por Luzes da Ribalta (Limelight, 1952). O seu último filme foi A Condessa de Hong Kong, de 1967.

“Por uma simples questão de sensatez, não acredito em Deus. Em nenhum”.  O autor desta frase morreu com 88 anos no tal dia de Natal de 1977.

Não gosto nada do Natal.


Este artigo foi publicado pela primeira vez no Estrolabio a 25 de Dezembro de 2010. Clique em:

https://estrolabio.blogs.sapo.pt/473223.html

 

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