Ainda a crise no Reino Unido – o partido Trabalhista nas mãos da City — “Keir Starmer vendeu-se à City”.   Por Dan Hitchens

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

3 min de leitura

Keir Starmer vendeu-se à City

O líder trabalhista pode ter resolvido os problemas de financiamento do seu partido – mas a que custo?

  Por Dan Hitchens

Publicado por  em 8 de Dezembro de 2022 (original aqui)

 

Keir Starmer. Credit: Getty

 

Mais uma semana, mais uma festança de empresa para Sir Keir Starmer. Hoje, algures no meio das torres brilhantes de Canary Wharf, o líder trabalhista e os seus colegas do gabinete sombra estarão no centro do palco de “uma conferência de um dia inteiro para líderes empresariais”, relata Private Eye. Os principais patrocinadores são o HSBC e a empresa de energia SSE; também ajudam com os custos um par de empresas de lobbying. Bem, quando se começa a expulsar muitos dos ativistas mais empenhados dos Trabalhistas do partido, é preciso todo o dinheiro que se possa obter.

Dito isto, os problemas de financiamento dos Trabalhistas podem em breve ser uma coisa do passado. A reconciliação de Starmer com as grandes empresas, e em particular com a City de Londres, está bem encaminhada. “Festas privadas foram lançadas para Starmer e a sua líder adjunta Angela Rayner em muitos dos prestigiados bairros de Londres”, relatou recentemente a Bloomberg, enquanto “o advogado da cidade Ian Rosenblatt […] disse que os Trabalhistas estavam agora a recolher dinheiro das mãos dos grandes empresários. “

Os comentários públicos de Starmer – sobre questões de transsexuais, sindicatos, Brexit, imigração, nacionalização – tendem a ser compostos de embuste, auto-contradição e ambiguidade. Mas vejam quem é que ele está a cortejar e a direção da viagem é clara. Estamos a assistir a uma espécie de aquisição do Partido Trabalhista por parte das grandes empresas.

A conferência do partido este ano, referia o Financial Times, foi invadida por “grupos de lobistas vestidos a rigor”. Kevin Maguire, do New Statesman, que assistia a uma  conferência para “espertalhões da City”, sugeriu que o acontecimento mais significativo da era Starmer poderia ser a emergência de “Banqueiros a favor do Partido Trabalhista “. De facto, Starmer gabou-se de que a conferência tinha conseguido um recorde de 1 milhão de libras de empresas que pagavam para aí terem bancas de apoio. Uma delas foi a Deliveroo; empresas de economia gig, a  economia de trabalho precário, que se pode ingenuamente assumir que são a antítese da filosofia trabalhista, estão cada vez mais enredadas com o Partido,  empregando ex-funcionários e doando bilhetes para eventos no valor de milhares de libras. Noutros lugares, os lobistas empresariais estão a ser destacados para trabalhar nos escritórios dos membros do gabinete sombra.

A explicação inocente para tudo isto é que uma administração trabalhista terá de governar para todos, e por isso deveria estender um acolhimento semelhante ao de Blair às empresas e ao empreendedorismo. A City pode não ser perfeita, mas é a nossa potência económica, mantendo a libra forte, os impostos a fluir e muitas pessoas empregadas. Um governo sério e adulto investirá nas competências, na indústria e na construção de habitações, em vez de escolher andar a lutar contra as empresas mais bem sucedidas do país.

E aqui está a explicação menos inocente: que Starmer está a destruir qualquer possibilidade de uma verdadeira reforma económica. Quando ele e o seu porta-voz da City, Tulip Siddiq, dizem à City AM que os serviços financeiros têm um futuro excitante se conseguirem romper com os regulamentos “impositivos”, ele está a sinalizar que quer mais do mesmo. Mais domínio de Londres, mesmo que isso seja à custa de absorver dinheiro e energia do resto do país. Mais fuga de cérebros, através da qual os licenciados mais inteligentes são sugados pelas empresas da City. Mais ataques de fundos de capitais privados a empresas britânicas, e mais esvaziamento de sectores cruciais como a assistência social e os serviços municipais através de esquemas duvidosos de obtenção de lucros. Mais financeirização de terrenos, enquanto a crise habitacional se agrava. Mais serviços duvidosos para oligarcas, tudo isto enquanto o papel da Grã-Bretanha como um “paraíso de tudo” lança uma luz cada vez mais fraca sobre a nossa vida nacional. Mais assunção de riscos, apesar do que aconteceu em 2008.

O melhor cenário para um governo Starmer foi delineado aqui há alguns meses por Adrian Pabst: uma administração Blue Labour, “economicamente radical e socialmente moderada”. Mas para ser socialmente moderada seria necessário fazer frente aos ativistas woke [despertos] que, é o que a experiência sugere, tendem a fazer o seu próprio caminho. Quanto ao radicalismo económico, ele pode ter acabado de se afundar nas águas geladas de Canary Wharf (o novo centro financeiro de Londres).


O autor: Dan Hitchens [1989-] é um jornalista inglês que colabora com diversas publicações como Unherd, The Spectator, First Things, National Review, The Critic. Escreve o boletim informativo The Pineapple e foi editor no Catholic Herald. Estudou nas universidades de Cambridge e Oxford.

 

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