A Guerra na Ucrânia — Objectivo Estratégico dos EUA: Quebrar e Desmembrar a Rússia; Ou Manter a Hegemonia do Dólar Americano? Ou uma confusa mistura de “Ambos”?  Por Alastair Crooke

Seleção e tradução de Francisco Tavares

10 min de leitura

Objectivo Estratégico dos EUA: Quebrar e Desmembrar a Rússia; Ou Manter a Hegemonia do Dólar Americano? Ou uma confusa mistura de “Ambos”?

 Por Alastair Crooke

Publicado por em 9 de Janeiro de 2023 (original aqui)

 

Foto: Reuters/Dado Ruvic

 

O Ocidente não pode renunciar ao sentido de si próprio no centro do Universo, embora já não no sentido racial, escreve Alastair Crooke.

 

Um objectivo estratégico exigiria um objectivo unitário que poderia ser sucintamente delineado. Exigiria adicionalmente uma clareza convincente sobre os meios pelos quais o objectivo seria alcançado e uma visão coerente sobre como seria realmente um resultado bem sucedido.

Winston Churchill descreveu o objectivo da Segunda Guerra Mundial como a destruição da Alemanha. Mas isto era um ‘lugar-comum’, e nenhuma estratégia. Por que razão haveria que destruir a Alemanha? Que interesse teria a destruição de um parceiro comercial tão importante? Seria para salvar o sistema comercial imperial? Mas este último tinha fracassado (depois de ‘Suez’) e a Alemanha entrou numa profunda recessão. Então, qual era o resultado final pretendido? A certa altura, reclamou-se uma Alemanha completamente desindustrializada e pastoreada como resultado final do jogo (improvável).

Churchill optou pela retórica e ambiguidade.

Será o mundo anglófono de hoje mais claro sobre os seus objectivos estratégicos com a sua guerra contra a Rússia do que então? A sua estratégia é realmente a de destruir e desmembrar a Rússia? Se sim, para que fim preciso (como “ponto de partida” para a guerra contra a China?). E como se vai conseguir a destruição da Rússia – uma grande potência terrestre – a ser realizada por Estados cujos pontos fortes são principalmente o poder naval e aéreo? E o que se seguiria? Uma Torre de Babel de pequenos Estados asiáticos em confronto entre si?

A destruição da Alemanha (uma antiga potência cultural dominante) foi um adorno retórico de Churchill (bom para a moral), mas não uma estratégia. No final, foi a Rússia que fez a intervenção decisiva na Segunda Guerra. E a Grã-Bretanha terminou a guerra financeiramente falida (com enormes dívidas) – uma dependência, e refém de Washington.

Então, como agora, houve objectivos confusos e contraditórios: Desde a era da guerra dos Boers, o poder estabelecido britânico temia perder a sua “jóia da coroa” do comércio dos recursos naturais do Leste para a ambição putativa da Alemanha de se tornar um “império” comercial.

Em suma, o objectivo da Grã-Bretanha era a manutenção da hegemonia sobre as matérias-primas derivadas do Império (um terço do globo), que na altura, estavam trancadas na primazia económica da Grã-Bretanha. Esta era a consideração primordial dentro desse círculo interno de pensadores do poder estabelecido – juntamente com a intenção de alistar os EUA no conflito.

Hoje vivemos um narcisismo que tem eclipsado o pensamento estratégico: O Ocidente não pode renunciar ao sentido de si próprio no centro do Universo (embora já não no sentido racial, mas através da sua substituição de políticas de vítimas, que exige uma reparação sem fim, como a sua pretensão de primazia moral global).

No entanto, no fundo, o objectivo estratégico da actual guerra liderada pelos EUA contra a Rússia é manter a hegemonia do dólar americano – marcando assim uma nota ressonante com a luta da Grã-Bretanha para manter a sua primazia lucrativa sobre grande parte dos recursos mundiais, tanto como para fazer explodir a Rússia como concorrente político. A questão é que estes dois objectivos não se sobrepõem – mas podem puxar em direcções diferentes.

Churchill também perseguiu duas “aspirações” bastante divergentes – e em retrospectiva, não alcançou nenhuma delas. A guerra com a Alemanha não consolidou o domínio da Grã-Bretanha sobre os recursos globais; pelo contrário, com a Europa continental em ruínas, Londres expôs-se a que os EUA destruíssem, e depois assumissem para si próprios, o seu antigo império, como principal consequência de que o Reino Unido se convertesse num empobrecido devedor de guerra.

Aqui, hoje, estamos no ponto de inflexão, (sem uma guerra nuclear, que nenhuma das partes procura), que a Ucrânia não pode “vencer”. Na melhor das hipóteses, Kiev pode montar operações periódicas de sabotagem do tipo forças especiais dentro da Rússia que tenham um impacto mediático desproporcionado. No entanto, estas acções esporádicas não alteram o equilíbrio militar estratégico que, na sua esmagadora maioria, está agora inclinado a favor da Rússia.

Como tal, a Rússia irá impor os termos da derrota ucraniana – o que quer que isso signifique em termos de geografia e estrutura política. Não há nada a discutir com “colegas” ocidentais. Essa “ponte” foi queimada quando Angel Merkel e François Hollande admitiram que a estratégia ocidental a partir da “revolução” Maidan – e incluindo os Acordos de Minsk – era um estratagema para mascarar os preparativos da NATO para uma guerra por procuração contra a Rússia.

Agora que este subterfúgio saiu à luz do dia, o Ocidente tem a sua “guerra por procuração” liderada pela NATO; mas a sequela destes enganos é que o Colectivo Putin e o povo russo compreendem agora que um fim negociado do conflito está fora de questão: Minsk é agora “águas passadas debaixo da ponte”. E uma vez que o Ocidente se recusa a compreender a essência da Ucrânia como uma guerra civil ardente, que incendiaram deliberadamente através da sua ávida defesa de um nacionalismo anti-russo “excêntrico”, a Ucrânia representa agora um génio que há muito escapou da sua garrafa.

Enquanto o Ocidente joga com uma guerra “eterna” por procuração contra a Rússia, não tem uma vantagem estratégica clara a partir da qual montar tal curso de desgaste. A base de armamento militar-industrial ocidental está esgotada. E a Ucrânia tem hemorragia de homens, armamento, infra-estruturas e recursos financeiros.

Sim, a NATO pode montar uma força expedicionária da NATO – uma “coligação de vontades” na Ucrânia ocidental. Essa força pode desenvolver-se bem (ou não), mas não irá prevalecer. Qual seria, portanto, o objectivo? O ‘zezinho’ ucraniano já caiu do seu muro e jaz em pedaços.

Pelo seu controlo total dos meios de comunicação e plataformas tecnológicas, o Ocidente pode impedir as suas populações de se aperceberem até que ponto o poder e as pretensões ocidentais foram perfurados durante mais algum tempo. Mas para que fim? A consequente dinâmica global – os factos da esfera de batalha – acabará por ‘falar’ mais alto.

Então, será que Washington vai começar a preparar o público? (ou seja, a fraqueza ocidental de John Bolton poderia ainda permitir a Putin arrebatar a vitória das garras da derrota) reproduzindo a narrativa neoconservadora sobre o Vietname: “Teríamos ganho se o Ocidente tivesse mostrado a força da sua determinação”. E depois rapidamente ‘passar’ da Ucrânia, deixando a história desvanecer-se? Talvez.

Mas será que a destruição da Rússia foi sempre o principal objectivo estratégico dos EUA? Não será o objectivo – antes – assegurar a sobrevivência das estruturas financeiras e militares associadas, tanto norte-americanas como internacionais, que permitem enormes lucros e a transferência de poupanças globais para a segurança ocidental ‘ciborgue’? Ou, dito de forma simples, a preservação do domínio da hegemonia financeira dos EUA.

Como Oleg Nesterenko escreve “esta sobrevivência é simplesmente impossível sem o domínio militar-económico, ou mais precisamente, militar-financeiro do mundo”. O conceito de sobrevivência à custa do domínio mundial foi claramente articulado no final da Guerra Fria por Paul Wolfowitz, o Subsecretário da Defesa dos EUA, na sua chamada Doutrina Wolfowitz, que via os Estados Unidos como a única superpotência remanescente no mundo e cujo principal objectivo era manter esse estatuto: “impedir o reaparecimento de um novo rival, quer na ex-União Soviética, quer em qualquer outro lugar, que constituiria uma ameaça que na anterior ordem era representada pela União Soviética”.

A questão aqui é que embora a lógica da situação pareça exigir um pivot americano de uma guerra na Ucrânia impossível de ganhar para uma “mudança” para outra “ameaça”, na prática o cálculo é provavelmente mais complicado.

O célebre estratega militar Clausewitz, fez uma distinção clara entre aquilo a que agora chamamos “guerras de escolha” e aquilo a que este último chamou “guerras de decisão” – sendo estas últimas conflitos existenciais, por definição.

Presume-se que a guerra da Ucrânia se enquadra geralmente na primeira categoria de “uma guerra de escolha”. Mas será isto correcto? Os acontecimentos têm-se desenrolado longe do que era esperado pela Casa Branca. A economia russa não entrou em colapso – como previsto de forma presunçosa. O apoio do Presidente Putin é elevado, 81%; e a Rússia colectiva consolidou-se em torno dos objectivos estratégicos mais vastos da Rússia. Além disso, a Rússia não está isolada globalmente.

Essencialmente, a Equipa Biden pode ter-se entregado a um pensamento preconceituoso – projectando na actual muito diferente Rússia, culturalmente ortodoxa, opiniões que formaram durante a era anterior da União Soviética.

É possível então que os cálculos da Equipa Biden tenham tido que mudar com a compreensão destes resultados imprevistos. E especialmente, a exposição do desafio militar americano e da NATO como sendo inferior à sua reputação?

Este foi um receio que Biden expôs na sua reunião na Casa Branca durante a visita de Zelensky antes do Natal. Será que a NATO sobreviveria a tal franqueza? Será que a UE permaneceria intacta? Grave considerações. Biden disse que tinha passado centenas de horas a falar com os líderes da UE para mitigar estes riscos.

Mais concretamente, será que os mercados ocidentais sobreviveriam a tal franqueza? O que acontece se a Rússia, durante os meses de Inverno, levar a Ucrânia à beira do colapso do sistema? Será que Biden e a sua administração fortemente anti-russa irão simplesmente levantar as mãos e conceder a vitória à Rússia? Com base na sua retórica maximalista e no seu empenho na vitória ucraniana, isso parece improvável.

A questão aqui é que os mercados permanecem altamente voláteis, uma vez que o Ocidente está à beira de uma contracção recessiva que o FMI advertiu que provavelmente causará danos fundamentais à economia global. Ou seja, a economia dos Estados Unidos encontra-se no momento mais delicado – à beira de um possível abismo financeiro.

Não poderia Biden “dizer explicitamente” que não é provável que as sanções contra a Rússia sejam invertidas; que a interrupção da linha de abastecimento irá persistir; e que a inflação e as taxas de juro irão subir, sendo suficientes para empurrar os mercados “para além do limite”?

Estas são incógnitas. Mas a ansiedade afeta a “sobrevivência” dos EUA – ou seja, a sobrevivência da hegemonia do dólar. Tal como a guerra britânica contra a Alemanha não reafirmou nem restaurou o sistema colonial (bem pelo contrário) – também a guerra do Team Biden contra a Rússia não conseguiu reafirmar o apoio à ordem global liderada pelos EUA. Pelo contrário, acendeu uma onda de desafio dirigida à ordem global.

A metamorfose no sentimento global arrisca o início de uma espiral viciosa: “O afrouxamento do sistema petrodólar poderia dar um golpe significativo no mercado de obrigações do Tesouro dos EUA. A queda da procura do dólar na arena internacional provocará automaticamente uma desvalorização da moeda; e, de facto, uma queda na procura de bilhetes do tesouro de Washington. E isso em si mesmo conduzirá – mecanicamente – a um aumento das taxas de juro”.

Em águas tão agitadas, não poderia a Equipa Biden preferir impedir o público ocidental de se aperceber do estado incerto da situação, continuando a narrativa “a Ucrânia está a ganhar”? Um objectivo principal foi sempre o de gerir a inflação e as expectativas das taxas de juro – através da esperança de um colapso em Moscovo. Um colapso que devolveria a esfera ocidental ao “normal” da abundante energia russa barata e das matérias-primas baratas e abundantes.

Os EUA têm um controlo extraordinário dos meios de comunicação e plataformas sociais ocidentais. Será que os funcionários da Casa Branca esperam manter um dedo tapando a fenda no dique, retendo o dilúvio, na esperança de que a inflação possa de alguma forma ser moderada (através de algum Deus ex Machina indefinido) – e que a América seja poupada ao aviso de Jamie Dimon em Nova Iorque, em Junho passado, quando ele mudou a sua descrição das perspectivas económicas, de tempestade para furacão?

Tentar ambos os objectivos de uma Rússia enfraquecida e manter intacta a hegemonia global do dólar, no entanto, pode não ser possível. Corre o risco de não alcançar nenhum dos dois objetivos – como a Grã-Bretanha descobriu no rescaldo da Segunda Guerra Mundial. Em vez disso, a Grã-Bretanha viu-se a si própria ‘afundada’.

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O autor: Alastair Crooke [1949-] Ex-diplomata britânico, fundador e diretor do Fórum de Conflitos, uma organização que advoga o compromisso entre o Islão político e o Ocidente. Anteriormente, era uma figura de destaque tanto na inteligência britânica (MI6) como na diplomacia da União Europeia. Era espião do Governo britânico, mas reformou-se pouco depois de se casar. Crooke foi conselheiro para o Médio Oriente de Javier Solana, Alto Representante para a Política Externa e de Segurança Comum da União Europeia (PESC) de 1997 a 2003, facilitou uma série de desescaladas da violência e de retiradas militares nos Territórios Palestinianos com movimentos islamistas de 2000 a 2003 e esteve envolvido nos esforços diplomáticos no Cerco da Igreja da Natividade em Belém. Foi membro do Comité Mitchell para as causas da Segunda Intifada em 2000. Realizou reuniões clandestinas com a liderança do Hamas em Junho de 2002. É um defensor activo do envolvimento com o Hamas, ao qual se referiu como “Resistentes ou Combatentes da Resistência”. É autor do livro Resistance: The Essence of the Islamist Revolution. Tem um Master of Arts em Política e Economia pela Universidade de St. Andrews (Escócia).

 

 

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