CARTA DE BRAGA – “da fome e da partilha” por António Oliveira

Mais importante que a constatação de que a oposição até pode ser um ‘buraco negro’ da democracia, nas palavras de do filósofo Daniel Innerarity, como foi demonstrado em Washington e Brasília, devido ‘à perversão dos conceitos do discurso político, sem o qual a engrenagem da democracia não pode funcionar correctamente’,  acrescenta Innerarityparece pois, que as consequências de tal perversão estão a afectar o mundo inteiro, a ver pelos espantosos números e estórias que se vão apanhando nas páginas interiores dos jornais e revistas com que nos ajudam a entreter. 

No sábado passado, dia 14, os jornais, lá de fora, noticiavam, ‘Cinco organismos da ONU pedem uma acção urgente para proteger milhões de crianças desnutridas nos 15 países mais afectados por uma crise alimentar e nutricional sem precedentes. Qu Dongyu, director General de la FAO, advertia ser provável que a situação se agrave ainda muito mais este ano’. 

Acresce assim, o número record de 339 milhões de pessoas, mais 65 milhões do que o ano passado, que vai necessitar de ajuda humanitária no ano de 2023, de acordo com subsecretário geral dos Assuntos Humanitários da ONU, Martin Griffiths, também coordenador da ajuda de emergência; estes números querem  dizer qualquer coisa como isto um em cada 23 habitantes do planeta, necessita ajuda daquele organismo para sobreviver que por sua vez pede uma inversão de 50 mil milhões de euros, mais 25% do que pediu em 2022. 

E, numa frase só, 222 milhões de pessoas em 53 países, confrontaram-se com insegurança alimentar aguda no final de 2022, e quarenta e cinco milhões de pessoas em 37 países, correm o risco de morrer de fome. ‘Este aviso é um salva-vidas para a comunidade internacional, uma estratégia para cumprir a nada deixar atrás’, adiantou ainda Griffiths.

Mais próximo e, por estes lados, duas estórias sem a dimensão daqueles números, mas com a intensidade dramática que eles mesmos revelam. A primeira estória tem por base um pedaço de papel, apenas um pequeno recorte de uma notícia de jornal, colado sobre uma folha de papel branco, onde uma criança, talvez um rapazinho, escreveu algumas linhas e deixou na caixa de correio de uma emissora de rádio. A letra era irregular, a falta de linhas no papel também não ajudava, mas entendia-se perfeitamente e, muito mais, a preocupação da criança. 

Dizia tal recorte que o aumento dos preços, a juntar às consequências da guerra na Ucrânia, estavam a afogar os produtores da verduras, de azeitona e do azeite. Também se lhes deviam acrescentar o preço dos produtos fitossanitários, mais o combustível e os impostos, tudo problemas que, de algum modo, cada um teria de resolver no final de cada mês. Talvez o base ideal para esta pequena estória de terror, escrita pelo rapazinho.

Estória que a sua letra irregular contava assim, ‘O meu pai trabalha no campo desde pequeno, e custou-lhe muito ter um terreno só para ele. Agora, a situação está cada vez mais difícil, o gasoil para o tractor e para a máquina de regar, os impostos e a segurança social, tudo aumentou muito. Talvez esta história não tenha fantasmas, mas o meu pai não prega olho durante a noite’.

A outra estória colhi-a do DN, o único habitante de uma aldeia das Alturas do Barroso, lá em cima para os lados de Chaves, vai abandonar a casa onde vive sozinho desde a morte dos pais, apesar de a junta de freguesia, o ter ajudado nos últimos tempos, instalando lá a maneira de ter um telemóvel e ver televisão. Mas a casa onde vive e onde guarda os animais de que vai fazendo o seu sustento é já uma ruína, e vai partir apesar de até ter a promessa de uma casa noutra freguesia mais abaixo. 

O seu caso tornou-se conhecido por uma reportagem no mesmo jornal e, há uns dias, os mesmos jornalistas visitaram-no outra vez, para saber como iria passar o Natal, levando também algumas vitualhas apropriadas para ele e para a época. A terminar a reportagem, o jornalista escreve estas frases que transcrevo na íntegra, Guardo no frigorifico tudo o que não pode ficar em cima das arcas. Em cima da cama poisamos o saco das compras. Noto algum nervosismo nos gestos dele. Quer falar, Posso fazer uma pergunta: posso partilhar com quem é pobre e precisa mais do que eu?

Disse-me alguém, já não sei quem, haver muito por aí quem veja só o seu umbigo, ou o seu telemóvel, ‘Mas tu deves fazer uma lista das partes da vida que contribuam para o teu bem estar, fazer também um plano para as proteger e as ajudar a crescer, mesmo que sejam de outros!

Ámen! 

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

Leave a Reply