Espuma dos dias — Sobre os EUA, a NATO e as relações França-Rússia. Entrevista com Pierre de Gaulle

 

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

14 min de leitura

Sobre os EUA, a NATO e as relações França-Rússia. Entrevista com Pierre de Gaulle

 

Agradeço a Dennis Riches a gentiliza de me enviar esta entrevista feita a Pierre de Gaulle e conduzida por Irina Dubois. Um documento imperdível, penso eu, que tem como tema As relações França-Rússia, a NATO e os EUA, e isto qualquer que seja a posição que se tenha quanto à guerra da Ucrânia.

Aqui temos um trabalho notável de rigor de Dennis Riches na sua transposição da entrevista para texto em francês e a sua tradução para a língua inglesa. As duas versões publicadas em 05-01-2023, estão disponíveis aqui.

Júlio Marques Mota

 

Entrevista com Pierre de Gaulle: Podemos separar a França da Rússia?

Introdução

Seria bom que outras vozes para além das da direita conservadora e religiosa pudessem pronunciar-se contra a forma como os Estados Unidos e a NATO ao longo de muitos anos, transformaram a Ucrânia num instrumento para enfraquecer a Rússia. As minhas opiniões políticas raramente se alinharam com os partidos conservadores das nações ocidentais. Não quero dar apoio total àqueles que glorificam sem reservas a “grandeza da França”, por exemplo, ou as façanhas de qualquer outra nação com uma história de colonialismo ou imperialismo, ou uma história de testar armas nucleares nas terras dos seus súbditos coloniais. Pondo estas diferenças de lado, tenho de reconhecer que são apenas as vozes conservadoras que estão conscientes de que vivemos num mundo anárquico onde a única forma de proteção e força está na soberania nacional. Estas vozes são as únicas que defendem a noção de uma forma saudável de nacionalismo que poderia ser uma alternativa às forças parasitárias e niilistas do neoliberalismo e da hegemonia que se infiltraram no espectro político – conservadorismo, “a esquerda”, liberalismo, e progressismo. As nações precisam de colaborar e formar alianças, mas por vezes também precisam de dizer não, ou responder em termos ainda mais fortes quando, por exemplo, um diplomata americano diz sobre um aliado, “Que se lixe a UE”.

Na entrevista abaixo, Pierre de Gaulle-neto do General e Presidente francês (1959-1969) Charles de Gaulle descreve o longo e nefasto processo pelo qual o povo ucraniano foi transformado num instrumento americano para minar a Rússia. Ele defende o fim da corrupção da União Europeia e da NATO e o regresso de uma maior soberania nacional para as nações europeias. Em 1966, o exemplo de Charles de Gaulle dessa independência foi a retirada da França do comando militar integrado da NATO (mas não da NATO), e a França só regressou em 2009, altura que coincide com as declarações dos Estados Unidos de que iria atravessar as “brilhantes linhas vermelhas ” da Rússia ao trazer a Geórgia e a Ucrânia para a NATO.

 

Os argumentos a seguir apresentados foram expressos durante o ano passado por outras vozes dissidentes, tais como:

John Mearsheimer, Jeffrey Sachs, Benjamin Abelow, Jimmy Dore, Oliver Stone, Glenn Greenwald, Alex Christoforou, Per A. Rudling, Christopher C. Black, Douglas MacGregor, Scott Ritter, Abby Martin e François Asselineau, e publicações tais como Consortium News, The Grayzone, The Canada Files, The Greanville Post, International Magazine, e Mint Press News, para nomear apenas algumas.

Dennis Riches

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Entrevista realizada por Irina Dubois da associação Dialogue Franco-Russe, em 16 de Dezembro de 2022

 

Irina Dubois: Bom dia, Sr. de Gaulle. Obrigado por estar hoje connosco no Diálogo Franco-Russo. O senhor é um consultor em estratégia e finanças empresariais. Tem 15 anos de experiência na banca privada e é provavelmente desnecessário recordar os feitos do seu avô, o General De Gaulle. Estamos em 2022 e este é um ano sem precedentes, muito, muito complexo e difícil para as relações franco-russas. É de certa forma um ano anti russo, mas eu diria, sem falar de política, e especialmente de Setembro-Outubro em diante, há cada vez mais personalidades que, modestamente, se pronunciam a favor da normalização das relações entre a França e a Rússia, e o senhor é uma delas. Porque pensa que é tão importante que a França não quebre os laços com a Rússia?

Pierre De Gaulle: Bom dia, minha senhora. Obrigado pelo vosso caloroso acolhimento e por me darem a oportunidade de falar nesta casa da cultura, que celebra tudo o que une o povo francês e o povo russo através de uma cultura de boa compreensão. Penso que é extremamente importante para a França manter, preservar e promover uma relação de entendimento e cooperação com a Rússia, em primeiro lugar devido aos laços históricos, à comunidade de destinos que nos une, e também porque preservar e manter uma relação com a Rússia é a garantia de estabilidade e prosperidade na Europa e no mundo.

Infelizmente, as consequências da crise atual fazem-se sentir na Europa, no mundo e em França, e todos sofrem, o que enfraquece muito o equilíbrio que o meu avô sempre tentou preservar, mesmo nos momentos mais difíceis da história, e durante toda a Guerra Fria. E também durante a Segunda Guerra Mundial, a Rússia foi também um dos países do lado vencedor juntamente com a França contra o ocupante nazi. O meu avô tentou sempre preservar esta relação com a Rússia. E penso que é do interesse da França continuar esta política e continuar este equilíbrio porque é essencial para a estabilidade da Europa. Penso que a opinião pública começa a tomar consciência do jogo perverso e das mentiras dos americanos, e em particular da NATO, para utilizar esta crise ucraniana para desestabilizar a Europa. A opinião pública está a tomar consciência que a Europa, aliada à Rússia, representa um bloco forte, política, económica, cultural e socialmente, de cerca de 500 milhões de pessoas. As pessoas sabem que desde a Guerra do Vietname as crises económicas seguiram-se umas às outras, ligadas em particular ao abandono do padrão de ouro em favor do dólar. Os americanos tentaram sempre pela força, pela astúcia e pela sua política, compensar esta perda de influência, tanto económica como política, para compensar a perda de influência do dólar como única moeda de troca no mundo, e para que esta política continue. Eu protesto contra esta identificação intelectual na crise ucraniana porque os agentes que desencadearam a guerra foram os americanos. Quem desencadeia a guerra são as gentes da NATO, e gostaria de citar como prova as recentes declarações da Sra. Merkel, que afirmou nunca pretender aplicar os acordos de Minsk, e acordos de Minsk que foram negociados e assinados para garantir a segurança, integridade e respeito das populações de língua russa do Donbass, e que os alemães e os franceses são garantes destes acordos para o equilíbrio, a estabilidade e a proteção das populações desta região. A Sra. Merkel, ao dizer que nunca tencionou aplicar os acordos de Minsk, fez tudo para deixar que a NATO armasse a Ucrânia, fez tudo para lançar as bases deste conflito, e penso que isto é grave porque há milhões de pessoas que estão a sofrer. Ao permitir esta expansão nacionalista ucraniana, permitiu que entre 16.000 e 18.000 pessoas fossem mortas, bombardeadas. Permitiu às suas populações nacionalistas ucranianas aniquilar a cultura russa, para aniquilar o próprio sentimento de pertença à Rússia.

Aniquilou a sua capacidade de praticarem a sua língua, e permitiu, infelizmente, que estes crimes tivessem lugar. Isto significa que eles contribuíram conscientemente para esta guerra, e conscientemente contribuíram para esta escalada. Os Estados Unidos continuam infelizmente esta escalada militar da qual o povo ucraniano é o primeiro a sofrer, mas também as populações europeias. A extensão, número e profundidade das sanções mostram que tudo isto foi organizado com muito tempo de antecedência, e que se trata na realidade de uma guerra económica em que os americanos são os beneficiários. Os americanos vendem para os europeus o gás a 4 a 7 vezes o preço a que o vendem para o seu próprio país. E infelizmente, todos na Europa estão a sofrer na sua vida diária porque tudo isto está a causar uma crise económica e financeira absolutamente sem precedentes. É-nos dito que a culpa é dos russos. Muito bem, mas os russos estão a defender-se porque lhes foram impostas 11.000 sanções. Mais uma nona ronda de sanções que foi decidida ontem. Portanto, penso que é perfeitamente legítimo e normal que os russos se defendam. Na situação atual, as qualidades fundamentais do patriotismo, do amor ao país e da defesa do povo são consideradas anormais. Penso que isto é muito grave, e mais uma vez, estou feliz por um certo número de figuras políticas do mundo intelectual, do mundo económico e das elites estarem a regressar a considerações de equilíbrio, a regressar a uma certa lógica, e a regressar ao que sempre foi a história das relações entre a França e a Rússia; ou seja, a preservar este equilíbrio, a preservar a compreensão, a preservar a cooperação, a preservar o diálogo das civilizações. Estou a pensar, à medida que se aproxima o Natal, em tudo o que nos une para o futuro e para o nosso destino comum. De facto, para mim, esta necessidade, este imperativo de manter uma boa relação com a Rússia é, creio, não só perfeitamente legítimo, mas também um dever para a Europa e para a estabilidade no mundo, e na Europa.

 

Irina Dubois: Exatamente, porque quando falamos de estabilidade, nós no Diálogo Franco-Russo falamos muito de soberania, a soberania dos Estados. Esta famosa fórmula do General de Gaulle, a Europa das nações, já não existe. Como podemos construir uma relação internacional independente no mundo globalizado de hoje?

Pierre De Gaulle: No que diz respeito à Europa, o meu avô era de facto a favor de uma Europa de nações. Ou seja, onde cada país cooperava com vista a uma união europeia, tanto económica como politicamente, mas também com uma certa autonomia de política e decisão. Encontramo-nos agora num sistema em que enfrentamos uma tecnocracia que impõe diretivas que podem ser aplicadas em cada um dos estados-membros, uma tecnocracia que é, infelizmente, extremamente corrupta. Não falamos disso agora, mas na altura, quando a Presidente da Comissão Europeia foi nomeada, ela ainda deixou atrás de si cerca de 100 milhões de euros em despesas inexplicáveis para o emprego de consultores externos de empresas de consultoria quando era Ministra da Defesa [alemã]. Estas questões são ignoradas. Muito se tem falado também das ligações da Presidente da Comissão Europeia com as indústrias farmacêuticas. Recordo que o seu filho trabalha para uma empresa americana de biotecnologia e recordo o que se disse recentemente, no que diz respeito às ligações entre a Sra. von der Leyen e o CEO da Pfizer. Por duas vezes o CEO da Pfizer foi chamado a depor e a pronunciar-se perante a Comissão Europeia. Por duas vezes recusou. Gostaria de ver um pouco mais de honestidade e transparência a nível da Comissão Europeia, que tem o poder de fazer muitas leis. São pessoas que não foram eleitas, que não têm respeito pela manutenção da sua palavra. Este é, infelizmente, o mal dos atuais líderes europeus. Gostaria que houvesse um pouco mais de transparência. Recentemente, no caso do Qatar, vimos malas de dinheiro que, estranhamente, tinham acabado na casa de um dos líderes da Comissão Europeia. Assim, numa altura em que nos encontramos numa grande crise, uma crise política e uma crise económica, mais uma vez perfeitamente desejada e orquestrada pelos americanos e pela NATO, gostaria mais uma vez de ver um pouco mais de transparência e honestidade no diálogo, e acima de tudo respeito pela palavra dada. Mais uma vez, se a Alemanha, se a França, se a OSCE (Organização para a Segurança e Cooperação na Europa), os garantes dos acordos de Minsk, tivessem cumprido a sua palavra, não estaríamos na situação atual.

 

Irina Dubois: O general de Gaulle sempre quis prosseguir, como acabou de dizer, a relação com a Rússia em todos os momentos, e li nas suas Memórias de Guerra, ainda ontem antes do nosso encontro, excertos da sua viagem à Rússia em 1944 quando conheceu Estaline, e que gostaria de citar. “Notei o quanto o facto de a Rússia e a França se terem separado uma da outra tinha influenciado o desencadear das ambições germânicas. Face à agressão germânica, a ação conjunta da Rússia e da França era exigida”. O general considerava a relação franco-russa como natural, e repete-o várias vezes em vários excertos das suas memórias. Quero perguntar-lhe se pensa que o Gaullismo ainda está vivo em França ou não. Se sim, quem são esses políticos, na sua opinião, quer os possa nomear ou não? Ou qual é, precisamente, o legado do general?

Pierre De Gaulle: Ouça, não vou tomar partido por nenhum político em particular em França, exceto dizer que sou contra a política atualmente praticada pelo Presidente da República e o seu governo, particularmente no que diz respeito às relações com a Rússia. Penso que, como tenho dito frequentemente em entrevistas, não se tem um duelo ao mesmo tempo com países tão fortes, no seu conjunto, tão importantes como a Rússia, como a China, ou mesmo a Argélia. Fazê-lo é sinal de que não se compreende a cultura e mentalidade russa. Significa também não respeitar toda a história, toda a proximidade das relações que temos tido com a Rússia. Quanto ao Gaullismo, bem, é uma herança. É uma parte da nossa herança. É a capacidade de, em todas as vertentes, promover a grandeza da França, da nação, e do país, que são valores normais e fundamentais que infelizmente são hoje em dia desprezados. O vosso presidente [Putin] lançou um programa, penso que foi chamado “valores essenciais” ou “realidades essenciais” para a juventude russa. Envolvia ter a pátria, o hastear da bandeira, e os valores patrióticos, e o amor à nação. Isto é perfeitamente normal. Fui educado nesse ambiente. Em muitos países como a Argélia, como a China, como o Reino Unido, os Estados Unidos, celebram o hastear da bandeira, o amor à pátria. Isto é bastante normal, e agora está a ser tornado anormal por um sistema que relaxa o apego a esses valores, que tende a desconstruir os valores essenciais da família, tradição e religião, e felizmente, no seu país, o Presidente Putin mantém estes valores. Eu gostaria que em França houvesse um líder político que promovesse estes valores e a grandeza da França. O legado do General De Gaulle é de facto uma certa ideia de França – uma França presente na cena internacional, mas também uma França que se dá a si própria os meios para realizar a sua política. É também o legado de um líder carismático com uma visão, uma verdadeira estratégia e uma legitimidade republicana.

Penso que desenvolver uma relação internacional independente significa obviamente ter os meios para implementar a sua própria política, mas também ter toda esta perspetiva de antecipar decisões. Significa ter uma estratégia clara. Significa ter uma visão clara. Significa ter mensagens francas, mensagens precisas, uma verdadeira estratégia para os franceses e para o povo que estes líderes representam, porque estão ao serviço do povo, estão ao serviço da nação. Estão ao serviço da pátria, e devem em tudo promover e levar os valores do seu país. Infelizmente, não vejo em França nenhuma figura emergente que pegue nesta tocha, neste tema como guia, mas o meu avô trabalhou toda a sua vida pela grandeza da França. Ele também deixou um legado, e esse legado está nas mãos dos franceses. É escrito pela história e cabe a cada um de nós continuar este trabalho e assumir essa tocha.

 

Irina Dubois: A sociedade em França está dividida sobre a situação de conflito na Ucrânia. Há uma categoria de pessoas que pensam que de toda a maneira não importa o que a Rússia pense. São contra porque veem a Rússia como uma ditadura, um país que nada tem a ver com os valores democráticos da Europa. Há outra categoria que pensa que os interesses económicos da França não estão na Ucrânia e não estão ligados a este conflito. Ou há aqueles que, penso eu, são bastante indiferentes ao conflito. Há uma categoria de pessoas que acreditam realmente que esta é a luta da civilização, que isto é algo que vai para além da guerra na Ucrânia. E falou sobre isto logo no início. Poderia desenvolver este aspeto um pouco mais?

Pierre de Gaulle: Este conflito tem repercussões no mundo e na Europa. Foi provocado por vontade dos americanos e da NATO e é em grande parte mantido pela Comissão Europeia. É uma crise fundamental e grave que afeta a vida quotidiana de todos. Tenho ouvido testemunhos de pequenos artesãos, pequenos comerciantes, pessoas que sofrem com esta situação. Cerca de 50% dos padeiros estão falidos, tanto em França como na Bélgica e na Europa, porque as suas contas de eletricidade subiram de 1.500 euros por mês para 5.000, o que os impossibilita totalmente de continuar a sua atividade, e que irá lançar centenas de milhares de pessoas na Europa para o desemprego e a crise. Esta crise é grave porque as suas repercussões vão muito mais longe – o que, infelizmente, os jornalistas escondem. E a comunidade intelectual tipifica a situação para evitar qualquer diálogo ou qualquer debate entre pró-russos ou pró-americanos, ou invocam uma qualquer ditadura. Bem, é preciso saber que menos de 50% da ajuda, que é mais precisamente subsídios que são concedidos aos ucranianos, chega aos ucranianos. É preciso saber que 50% das armas que são dadas aos ucranianos são revendidas nos mercados internacionais para alimentar terroristas, para alimentar crises e conflitos políticos, e para alimentar revoluções. Recentemente, o governo ucraniano publicou um catálogo de quase 1000 páginas de armas destinadas a serem vendidas na América do Sul, África, países árabes e que irão alimentar o terrorismo em todo o mundo. Estas são armas pesadas e armas ligeiras. É, infelizmente, um dos países mais corruptos do mundo. Não estou de forma alguma a criticar os ucranianos. Critico o regime que foi posto em prática pelos americanos em 2014 com este famoso golpe de Estado no qual a Sra. Nuland [alta funcionária do Departamento de Estado dos EUA], que é de origem ucraniana … se expressou dizendo “Que se lixe a UE”. Perdoem-me, estou a citá-la. Estou a citar textualmente. Ou seja, há um desrespeito mesmo para com os ucranianos. Os EUA estabeleceram uma ditadura.

Estou indignado e escandalizado que em França e na Europa, as pessoas prestem apoio a um batalhão chamado Azov que usa os mesmos emblemas que os da divisão Das Reich. Os meus pais lutaram contra o nazismo. Os meus avós foram mesmo deportados por razões de resistência. E para mim, é absolutamente escandaloso que pessoas que massacraram, mataram e discriminaram pessoas no Donbass sejam promovidas. Já em 2019, o conselheiro mais próximo do que viria a ser o Presidente Zelenski – Arestovich – numa entrevista em Fevereiro de 2019 dizia que uma guerra contra a Rússia era absolutamente necessária, que ele a queria e que em qualquer caso iriam receber subsídios de armas, apoio da União Europeia, apoio da NATO e que a Ucrânia não podia perder a guerra. Os americanos enganaram totalmente a população ucraniana e o governo ucraniano no que diz respeito às perspetivas realistas de vitória da Ucrânia porque, em qualquer caso, o grande perdedor nesta guerra é a própria população ucraniana, e também, por consequência, a Europa, com a crise que tem sido causada pela vontade dos políticos.

 

Irina Dubois: Na verdade é muito, muito triste. É triste o sofrimento da Europa. É triste o sofrimento do povo.

Pierre de Gaulle: Penso que é muito urgente regressar à realidade. É por isso que é muito importante para mim denunciar todas estas mentiras e toda a lógica que conduziu a este conflito.

Mas neste conflito estão a tentar fazer-nos acreditar que a Rússia está isolada. Isto é totalmente falso, em primeiro lugar porque há pessoas que estão conscientes dos desafios e realidades em França, na Europa e no mundo, porque estas pessoas são responsáveis por restabelecer as verdades fundamentais, denunciando as mentiras, e denunciando a lógica que conduziu a esta guerra. Agora também acredito na renovação. Também acredito na reconstrução que se seguirá simplesmente porque volto ao que disse sobre o meu avô. Não podemos passar sem a Rússia. Não podemos passar sem este continente em si mesmo. Não é bem um continente, mas é de qualquer forma o maior país do mundo que, devido à sua geografia, cultura e história, representa um potencial económico, político, industrial, geopolítico e cultural absolutamente considerável. Nesta crise, a Rússia está a tirar partido, na minha opinião com razão, de uma reorientação dos interesses políticos, económicos e financeiros para o Leste e será um dos árbitros do que se chama Eurásia. Ou seja, um continente fantástico que reúne a Europa e a Ásia e que assistirá à emergência de novos centros de decisão. Infelizmente, a Europa vai perder esta oportunidade, que é absolutamente fantástica, dado que a Eurásia é um continente que é autossuficiente.

Gostaria também de denunciar a hipocrisia deste regime de sanções, uma vez que continuamos a comprar petróleo russo. Obviamente, não podemos passar sem ele. Continuamos a comprar gás russo. Continuamos a comprar metais industriais. 60% dos metais industriais nos mercados mundiais que são, diria eu, dominados pela Rússia. Continuamos a comprar urânio. Os americanos também continuam a comprar metais para a nova geração de reatores nucleares.

Felizmente continuamos no que nos une. Ou seja, arte, destinos comuns, história, e tudo o que compõe a comunidade científica, tudo o que compõe os intercâmbios da comunidade intelectual. A Estação Espacial Internacional continua graças a esta cooperação que vai para além deste conflito. É isto que nos une, e é isto que temos absolutamente de continuar.

 

Irina Dubois: Precisamente, ainda há coisas que nos unem, e isto é nomeadamente na cultura das celebrações de Natal. Os franceses irão celebrar o Natal muito em breve, um pouco antes do Natal ortodoxo russo, que será celebrado a 7 de Janeiro. Aqui no Diálogo Franco-Russo, uma vez que acreditamos nos nossos laços históricos e culturais muito, muito fortes, estamos a organizar um concerto de Natal no dia 22 de Dezembro. É apenas a cultura que nos resta neste momento, o que nos une?

Pierre de Gaulle: Há muitas outras coisas que nos unem. Eu estava a dizer-vos, e foi isto que o meu avô salientou, que a França e a Rússia eram ambas filhas da Europa, tinham origens comuns e estavam ligadas por uma comunidade de destinos e interesses. Isto vai muito para além da cultura, vai muito para além das trocas económicas. Isto é o que une as nações. É o que nos une, e é o que permanece para além dos conflitos e diferenças de interesses.

O que também gostaria de dizer é que, nesta história comum, a paz deve ser feita, e a paz é inevitável. A paz é o sucessor de qualquer conflito. É a paz que une as pessoas. Esta paz implica necessariamente um restabelecimento do diálogo, depois um entendimento, depois uma cooperação económica. Isto é o que restaurou, diria eu, o que criou continuidade mesmo na época da Guerra Fria. É isto que faz a continuidade entre os povos, e eu gostaria de dar uma mensagem de esperança e união, porque acredito nesta comunidade de cultura e destino. Creio que o que nos une – as relações entre a França e a Rússia – é extremamente antigo, e todos falam atualmente de paz. Fui um dos primeiros a denunciar as mentiras, a injustiça e a espoliação do vosso povo, o que considero absolutamente escandaloso porque não se pode punir uma nação. Não se pode punir um povo por razões de crise, sabendo que isto não só é contrário às liberdades fundamentais, como também ao direito internacional. É uma grande injustiça. Penso que nenhuma outra nação desde as perseguições judaicas durante a Segunda Guerra Mundial sofreu tanta pilhagem como o povo russo tem até agora sofrido.  Para mim, isso choca-me. É uma grande injustiça. Para mim, isto é chocante. É uma grande injustiça.

Penso que, independentemente das crises atuais, devemos ter um equilíbrio entre os povos. Temos de ter um equilíbrio entre as nações. Devemos ter um equilíbrio entre o mundo e a Europa. É claro que a cultura é uma das formas preferidas e universais de reunir os nossos dois povos. Penso que o que nos une e uniu é também a nossa história comum. O resto, como posso dizer? O amor, a imensa consideração que tenho, que a minha família tem pela riqueza da cultura russa, pela riqueza do mundo russo. Recentemente, um Prémio Nobel da Física disse que querem destruir a cultura russa, mas como se pode destruir um país responsável por mais de metade das descobertas fundamentais da química, da física e da matemática? Sois um grande país. É um país com uma história fantástica e, infelizmente, o modelo neoliberal, inspirado nos americanos, visa destruir algo muito mais fundamental do que a gestão de um equilíbrio económico e político. Visa também destruir toda uma cultura. E, como já disse, são os seus fundamentos que estão a ser minadas. Mina-se a consciência de um povo porque se quer destruir os dois pilares da civilização, que são a religião e a fé, e substituí-los por uma cultura de curto prazo, de satisfação pessoal. Atacam-se os fundamentos, até mesmo a educação. E eu penso que este é um assunto muito sério, e temos de manter estes muros de proteção. É isto que tradicionalmente nos tem unido desde há muito tempo. Com a cultura russa, existe esta noção, eu diria um pouco irracional, um pouco louca, como Dostoievski a descreveu muito bem. É o que, de facto, faz a fé. A fé é um dos pilares da Rússia, e creio que Dostoievski citou: “Ninguém pode arrancar ao russo a sua própria fé a não ser ele próprio”. Isto é o que faz a sua força e a sua coesão. É isso que faz também a força dos franceses. Isto é o que faz a força de cada nação, de cada país europeu. Do mesmo modo que a noção de patriotismo, de amor à nação, à família e à religião, que são, infelizmente, valores que se pretende destruir para melhor reduzir a capacidade dos povos, dos indivíduos para se emanciparem, o que visa destruir a sua integridade e, portanto, manipulá-los melhor porque isso resulta numa perda de pontos de referência.

 

Irina Dubois: Muito obrigada, Sr. de Gaulle, por esta mensagem de esperança. Continuaremos as nossas ações nos anos vindouros. Digo “nos anos vindouros” porque vamos precisar destas relações fortes, estratégicas e cordiais com e entre a Rússia e a França, e porque o diálogo nunca deve ser dado por terminado. Muito obrigado.

Pierre de Gaulle: Em qualquer caso, deve saber que não está sozinha, que há muitas pessoas no mundo, mais uma vez, dois terços da população mundial, em França e na Europa, que estão consigo e que vão continuar este trabalho com vocês. E podem contar com o meu apoio e a minha cooperação para continuar esta reconstrução na esperança e na renovação. Obrigado, minha senhora.

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A entrevistadora

Irina Dubois foi encarregada de missões da associação Dialogue Franco-Russe na comunidade diplomática na Rússia entre 2005 e 2010. É especialista em comunicação internacional e tem ampla experiência em empresas francesas sediadas em Moscovo. A associação Dialogue Franco-Russe foi fundada em 2004 com o fim de desenvolver a cooperação económica entre os dois países.

 

O entrevistado

Pierre de Gaulle, é conselheiro senior em M&A and Corporate Transactions, é um executivo realizado com 30 anos de experiência em banca privada e de negócios, expansão estratégica e empresarial, desenvolvimento de novos mercados, reestruturação organizacional e optimização da governação, financiamento de projectos e transacções. Líder decisivo com sucesso comprovado no desenvolvimento da UHNWI & clientes institucionais, relações públicas, reguladores & negociação e contratação governamentais. Líder visionário, persuasivo e carismático com um forte historial. Orientado para os resultados, excelente ética de trabalho e integridade. Voluntariamente preside o comité BICE (Bureau International Catholique de l’Enfance) e é co-fundador de Eura Chine. É licenciado em Finanças pela Universidade Paris Dauphine.

 

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