CARTA DE BRAGA – “da fome e da juventude” por António Oliveira

A fome não é opção para uma cesta básica de compras, tão pouco os aumentos da temperatura como opção de vida, até lá em cima, no Ártico! 

Pensemos antes, que o objecto da História não será tanto o passado, mas sim o tempo, aquela distância entre acontecimentos que nos obriga a relacioná-los, para se conseguir montar o puzzle a que normalmente se chama memória, tanto e nossa tanto como a da comunidade, ou as das diferentes sociedades a que nos atrevemos a dizer humanidade. 

Quando tentamos comunicar o que aprendemos, tanto pela experiência como pela aprendizagem documental, não fazemos mais do que remontar a charada de peças variadas ajuntadas antes, como estamos a reconstruir memórias ou recordações para os outros, para que eles também as relacionem com as sua próprias, independentemente da forma como foram adquiridas. 

É também a única maneira de se conseguir aprender a ser cidadão, vivê-lo e também ensinar a sê-lo, pois ‘a ser cidadão se aprende’ dizia Jean-Jacques Rousseau, e nessa aprendizagem se gera um tipo de identidade que serve de reconhecimento e pertença a uma qualquer comunidade, uma cidadania que vai além do nacional, para integrar num projecto ético e social, que nos transforma em ‘cidadãos do mundo’, acrescentava o filósofo. 

Fazer coincidir tudo isto com um processo de crescimento que parece ter perdido o rumo e onde, disse António Guterres, secretário geral da ONU, ‘As corporações multinacionais estão a encher as suas contas bancárias, enquanto esvaziam o nosso mundo das riquezas naturais’, a desigualdade é um drama nesta sociedade global, quando a humanidade atingiu em Novembro último o espantoso número de 8.000 milhões de habitantes, não pelo crescimento nos países ocidentais, onde a natalidade está em baixa, mas nos países em desenvolvimento, em que o acesso ao planeamento familiar e à anticoncepção, é mais que complicado. 

Dizia um estudo do Fundo de Povoação das Nações Unidas, vindo a público no final de Dezembro, ‘Sabemos que cerca de metade das gestações não são desejadas’, o que significa que mais de 120 milhões de mulheres não queriam nem planeavam ter esses filhos. Para Michael Hermann, porta-voz daquele Fundo, ‘O desenvolvimento sustentável é satisfazer as necessidades da gente e da que vai nascer, sem destruir o meio-ambiente. Tal só será conseguido se mudarmos para formas mais ecológicas de produção e mais conscientes no consumo’.

Parece estarmos a ser levados não por nós, mas pelas tais corporações para o desastre, pois um outro estudo, este do Darwin College, da Universidade de Cambridge, salienta ‘O aquecimento global pode ser catastrófico para a humidade, se os aumentos forem piores do que os modelos actuais predizem, e se provocar tempestades de ventos ainda não estudadas, ou ambas as coisas. Para 2070 estas temperaturas e as consequências sociais e políticas ainda afectarão directamente as potências nucleares, e os sete laboratórios de contenção máxima, onde estão os patógenos mais perigosos’, desde o aumento da desigualdade e da desinformação, até ao colapso democrático e mesmo a novas formas de armamento destrutivo. 

Note-se que, no passada segunda feira, dia 13, a empresa do Abu Dhabi, especializada na extracção de gás e hidrocarbonetos, apresentou os resultados de 2022, com um lucro bruto de 746 milhões de euros, um record absoluto nesta empresa com sede nos Emiratos Árabes Unidos. A empresa anunciou ainda os planos de crescimento da ordem dos 20%, na exploração de hidrocarbonetos em terra firme e nos subsolo marítimo, e o seu ‘patrão’, o sultão Ahmed Al Jaber, foi nomeado presidente da Conferência da ONU sobre as alterações climáticas (?1?!), a realizar-se nos Emiratos, em Dezembro deste ano.

Talvez por todas estas coisas, poderemos considerar também ser bem notória a preocupação dos jovens com tais alterações, muito mais importantes para eles do que para a gente adulta de agora, pois irão ser eles a penar as consequências do que lhes deixarmos. E talvez ainda, o facto de lidarem profundamente com a net os tenha tornado mais cépticos e não tão crédulos como nós, por residir apenas neles, a esperança de se conseguir pôr um travão ao desastre que se anuncia. 

Até o filósofo Martin Heidegger, numa entrevista à ‘Der Spiegel’, publicada só depois da sua morte, já em 1976, e referindo o incrível somatório de holocaustos, genocídios, guerras, mais os ataques contínuos à ecologia, vital para este planeta, afirmou ‘Agora, só um deus nos poderá salvar’ .

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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