Nota de editor
Inicialmente concebidos num contexto de uma série de maior dimensão e complexidade analítica – Neoliberalismo, Pensões por capitalização e Instabilidade Social e Política –, optou-se por publicar de imediato os textos respeitantes ao troço “O Reino Unido no centro do furacão criado pelo neoliberalismo”, uma vez que, conforme diz o autor da série, Júlio Marques Mota, “… o que neles se escreve não é diferente do que poderá ser escrito sobre qualquer outro país europeu neste momento”, podendo mesmo fornecer “… uma ótima grelha de leitura sobre a realidade atual e atrevo-me mesmo a dizer sobre o futuro próximo que aí vem” (ver aqui “Hoje faço 80 anos… tempos difíceis, o vinho que não bebi e que nunca procurei beber”).
Este é o terceiro dos doze textos que compõem a parte I da série “O Reino Unido no centro do furacão criado pelo neoliberalismo”.
FT
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
8 min de leitura
Texto 3. Adeus, Primeira-Ministra
Publicado por
em 21 Outubro de 2022 (original aqui)

A culpa, meu caro Brutus, não está nas estrelas
mas em nós mesmos, que somos subalternos.
William Shakespeare (1564-1616), Julius Caesar, Act 1, Scene 2 (1599)
Os futuros historiadores britânicos irão chamar a 2022 o ano de dois monarcas e três primeiros-ministros. Ou serão quatro?
Liz Truss demitiu-se ontem, após seis semanas agonizantes no número 10 da Downing Street. O folheto que ela distribuiu aos cerca de 160.000 membros (não sabemos o número exato porque eles não nos dizem) do partido Tory tinha sido virado ao contrário como um guarda-chuva de inverno no cais de Southend Pier. Foi expulsa porque os homens de fato e gravata lhe disseram na cara que não havia nenhuma hipótese dela recuperar a credibilidade necessária para ocupar um tal cargo. Nenhum primeiro-ministro pode sobreviver à perda de um chanceler e de um ministro do Interior no prazo de uma semana – especialmente se o seu programa estiver em farrapos. Politicamente é uma mulher arruinada.
Truss beijou as mãos a uma Rainha Elizabeth II moribunda em 6 de Setembro. A morte e o funeral da estimada monarca serão recordados por muitos. Embora a primeira-ministra que leu o Evangelho nesse funeral não tenha sido reconhecida pela maioria dos observadores – ao contrário do seu antecessor, que é mundialmente famoso. Em breve, será como se nunca tenha sido primeira-ministra.
Esta manhã, os principais meios de comunicação social vieram para enterrar Truss, não para a elogiar. Ela era e é desprovida de carisma; mas ela tinha as suas virtudes e os seus apoiantes entusiastas. Os membros do Partido Conservador, os Tories, que votaram em Truss para se tornar PM tinham a intenção de uma mudança radical na política económica.
Os argumentos a favor da Trussonomics eram racionais. O crescimento da Grã-Bretanha desde a crise financeira estagnou. A nossa produtividade é mais baixa do que a dos nossos pares. Existe um défice orçamental estrutural que está a deteriorar-se. Temos um défice comercial maciço e crescente. O rácio da dívida em relação ao PIB é cada vez mais elevado. A dimensão do Estado tem vindo a crescer. A taxa de impostos em proporção do PIB está no seu nível mais elevado desde o início da década de 1950, quando ainda estávamos a recuperar da Segunda Guerra Mundial.
Sob o comando de Boris Johnson e do seu Chanceler, Rishi Sunak, havia uma tendência para uma política económica à Gordon Brown em que o Estado estava sempre disponível para resolver qualquer problema que surgisse. Isto deveu-se em parte à pandemia do coronavírus, que monopolizou o governo durante mais de dois anos e durante o qual Johnson prometeu “envolver os braços do Estado” em torno do indivíduo. Durante este tempo, quaisquer reformas tornadas possíveis pela retirada da Grã-Bretanha da União Europeia – supostamente o grande sucesso de Boris – foram bloqueadas. O homem que fez mais do que ninguém para tirar a Grã-Bretanha da Europa não conseguiu articular o que a Grã-Bretanha do Brexit se tornaria.
Além disso, o clima económico tem vindo a piorar durante o último ano ou mesmo mais. As taxas de juro já estavam a subir em todo o mundo desenvolvido, mesmo antes de Putin ter começado a manipular os preços do gás no Outono do ano passado. Depois ele desencadeou uma guerra brutal em grande escala no coração da Europa: os preços dos hidrocarbonetos subiram, assim como os preços dos alimentos, devido à escassez de cereais e aos preços dos fertilizantes que subiram em flecha. O tsunami inflacionista atingiu as nossas costas no início deste ano e continuará a causar estragos durante pelo menos mais um ano. Esta semana, a taxa de inflação oficial foi reportada em 10,1 por cento. A inflação de dois dígitos representa um perigo tanto político como económico.
Assim, uma reinicialização da política económica não era um esquema louco. Agora, os meios de comunicação social de esquerda consideram o mini orçamento kamikaze do Sr. Kwarteng de 23 de Setembro como um putsch ilícito por parte dos extremistas libertários da Tufton Street. Tratava-se, de facto, de um orçamento completamente normal. Era o timing e a sequência, mais a ausência de números de apoio, que eram condenatórios.
Sob o governo do New Labour de 1997-2010, a taxa máxima do imposto sobre o rendimento manteve-se em 40% durante todo o período – até aos últimos meses de Gordon Brown, quando a taxa mais elevada foi elevada para 50% para pessoas que ganhavam mais de £150.000. Ninguém falou de “economia trickle-down” nos anos de Blair, porque a ideia de que os melhores não deviam ser sacrificados era uma ideia dominante. Peter Mandelson era célebre pela sua descontração face às “pessoas podres de ricas” (como ele agora se tornou). O que era desagradável na eliminação da taxa mais alta agora era que a perda relativamente menor de receitas de 2 mil milhões teria de ser paga inteiramente através de novos empréstimos.
O desmantelamento do aumento das contribuições definido por Sunak para a segurança social nacional foi nominalmente a política do Partido Trabalhista; e o Partido Trabalhista apoiou a proposta de redução da taxa básica do imposto sobre o rendimento para 19 cêntimos da libra. Quanto ao imposto sobre as sociedades, uma das maiores realizações do governo de Cameron-Osborne foi a redução dos impostos sobre as empresas para níveis mais competitivos. Não faz sentido punir as empresas que investem numa economia mais produtiva. O mini-orçamento, se implementado, teria baixado as receitas fiscais relativamente ao PIB de 36,5% para 36% do PIB – manifestamente um valor não muito revolucionário.
O que fez falhar o mini orçamento não foi o ataque dos Trabalhistas, mas sim a reação dos mercados. Os mercados financeiros dependem de um fluxo de dados analisados pelos geeks [1]. Os geeks receberam muito poucos dados para serem analisados – e, portanto, assumiram o pior: que o governo Truss-Kwarteng estava em vias de ir ao mercado de capitais levantar massivamente fundos antes de assegurar reformas do lado da oferta na economia britânica, cujos benefícios são, de qualquer forma, impossíveis de quantificar.
Sabemos agora que aquilo a que recentemente chamei “a oscilação do mercado de títulos da dívida pública ” foi muito mais grave do que na altura tínhamos considerado (ou seja, durante a semana de 26 de Setembro). O Banco de Inglaterra fez saber que alguns gestores de fundos de pensões estavam ao telefone a falar de um “evento de liquidação em grande escala”. O ciclo da catástrofe – em que os fundos foram forçados a vender títulos para gerar liquidez, colocando assim mais pressão no sentido da baixa dos preços das obrigações de dívida pública – foi apenas evitado pela intervenção do Banco de Inglaterra.
Uma explicação para a oscilação do valor dos títulos referidos é que, no fim-de-semana que se seguiu ao orçamento kamikaze, o então chanceler Sr. Kwarteng disse a um grupo de empresários em privado que estavam a caminho mais cortes nos impostos, numa altura em que os mercados já tinham ficado assustados. A minha própria opinião é que a gestão desses fundos de pensões emblemáticos mostrou estar manifestamente não preparada para uma subida de rendimentos dos títulos que tinha sido prevista nos últimos 18 meses ou mais. Todos podiam ver que o Fed estava a aumentar as taxas de juro sem contemplações e que o Banco de Inglaterra e o BCE teriam de seguir atrás do FED. Se os veículos [2] de investimento orientados por passivos (liability-driven investment- LDI) dos quais os fundos se tinham tornado dependentes fossem incapazes de resistir a um aumento súbito dos rendimentos dos títulos da dívida pública (descida do valor corrente dos respetivos títulos) isso não era necessariamente culpa do governo Truss-Kwarteng.
Mas o facto é que o Labour e outros conseguiram marcar um ponto político fácil: as pessoas estão a ser forçadas a pagar mais pelas suas hipotecas por causa da louca política económica dos Tory. As taxas hipotecárias subiram mais depressa e mais alto na América do que no Reino Unido – mas ninguém fala sobre isso.
Se houve um homem que selou o destino do Sr. Kwarteng foi o Governador do Banco de Inglaterra, Andrew Bailey. Foi ele quem emitiu um aviso abrupto aos mercados obrigacionistas na noite de 11 de Outubro em Washington de que só lhes restavam três dias para “fazer isto”. Os rendimentos das obrigações de dívida pública começaram de novo a subir novamente, e o pobre Sr. Kwarteng foi chamado de volta a Londres para ser despedido.
O substituto de Kwarteng, Jeremy Hunt, começou então a destruir tudo o que restava do mini orçamento. O OBR [Office for Budget Responsability] estimou que se tinha aberto um buraco de cerca de 60 mil milhões de libras entre receitas fiscais e despesas do governo, mesmo sem o impacto do mini-orçamento. Assim, o chanceler Jeremy Hunt, que presumivelmente aceitou o cargo na condição de que ele (tal como Gordon Brown) teria o controlo exclusivo da economia, pode apresentar argumentos a favor tanto dos aumentos de impostos como os cortes nas despesas. O Governador do Banco de Inglaterra proclamou um “encontro de vontades” com o novo Chanceler. A infeliz primeira-ministra encontrou-se assim à frente de um governo que deveria prosseguir políticas totalmente contrárias às que ela tinha defendido como sendo as suas. A sua posição tinha-se tornado insustentável – e mesmo assim ela não se demitiu até a sua Ministra do Interior ter apresentado a sua demissão.
Porque existe um desacordo fundamental sobre a direção da política económica no seio do partido Tory, é difícil prever que quem suceder a Liz Truss será capaz de gerar um consenso. Há os Conservadores que acreditam em mercados livres e deixam os empresários prosperar sem serem molestados pelo Estado: a sua palavra de ordem, como com Truss, é “crescimento”. E depois há os “conservadores compassivos” que querem gastar para remediar. Ambos apregoam a “responsabilidade orçamental” Os primeiros mostram-se despreocupados quanto à remoção de restrições ao planeamento e imigração; mas a maioria dos Conservadores no terreno ressentem-se da construção de casas em zonas verdes e da imigração em grande escala. É difícil conciliar pontos de vista tão fundamentalmente diferentes.
Se os Conservadores são incapazes de cortar impostos para criar uma economia mais dinâmica, então quem o pode fazer? E, de facto, como já perguntei antes: para que servem os Conservadores? A realidade é que cortes de gastos de quase todos os tipos seriam politicamente tóxicos. A pensão de reforma dos funcionários públicos é responsável por cerca de 12% das despesas governamentais. Costumava ser vista como uma prestação do Estado, como um benefício, mas é agora considerada como um direito. Os reformados têm-se saído melhor do que os jovens, economicamente falando, desde a crise financeira; e no entanto, a questão de manter ou não o “triplo mecanismo de proteção ” das pensões do Estado é uma verdadeira dinamite política.
Mas se os Conservadores estão numa situação difícil, considere que qualquer governo trabalhista do país teria também um espaço de manobra muito limitado. Mesmo os aumentos de impostos sobre “os ricos” não fariam diferença suficiente nas receitas fiscais para financiar todos os seus sonhos de gastos. Gordon Brown ficou célebre por ter respeitado os planos de despesa pública dos Conservadores durante três anos após 1997; Rachel Reeves [ministra trabalhista sombra das finanças] teria provavelmente de fazer o mesmo. A revolução teve de ser adiada.
A última eleição para a liderança nos Conservadores – em que se desperdiçou de forma muito complacente todo um Verão numa altura de crise económica e geopolítica – foi uma escolha entre uma agenda de crescimento radical e mais do mesmo. Os Conservadores escolheram a agenda de crescimento. Isso explodiu. Desta vez, é provável que desabem por mais do mesmo. E se eles escolherem Boris, como se diz esta manhã, isso seria realmente um regresso ao futuro.
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Notas
[1] N.T. Segundo Wikipédia, a palavra Geek é um anglicismo e uma gíria inglesa que se refere a pessoas peculiares ou excêntricas, fãs de tecnologia, eletrónica, jogos eletrónicos ou de tabuleiro, histórias em quadrinhos, mangás, livros, filmes e séries.
[2] N.T. OS LDI são estratégias de investimento orientado por metas e passivos (LDI) e centram-se em ativos que se correspondem com passivos futuros. As estratégias LDI envolvem alguns riscos que os potenciais investidores deveriam avaliar e entender antes de tomar a decisão de investir. Tais riscos podem incluir, entre outros, risco de taxa de juros, risco da contraparte, risco de liquidez e risco de alavancagem.
O autor: Victor Hill é economista financeiro, consultor, formador e escritor, com vasta experiência em banca comercial e de investimento e gestão de fundos. A sua carreira inclui passagens pelo JP Morgan, Argyll Investment Management e Banco Mundial IFC.


