CARTA DE BRAGA – “de Cervantes a Sade” por António Oliveira

Miguel de Cervantes, o romancista e dramaturgo castelhano do século XVI, pôs na boca de Don Quixote estas palavras bem simples ‘A cada porco chegará o seu São Martinho’, que, sem coincidir exactamente com os usos e costumes do nosso país, não deixarão de ser compreendidas, pois o sentido e a interpretação da vida são distintos em cada pessoa, de um dia para o outro e até e de uma hora para a seguinte. 

Mas aquela expressão também foi usada por Alfredo Pastor, catedrático de economia em Madrid, depois de ter afirmado, num artigo na página de opinião de um importante diário, ‘Entre os economistas é conhecida como o princípio do porco, a máxima que afirma que, quando uma coisa é boa, mais é melhor’; de facto apertar o cinto no meio da fartura, só serve para diminuir o nosso bem estar, moral ou material. 

Vem isto a propósito de notícias como esta (DN, 10.02), ‘Lucro da banca disparou 70% em 2022 para 2,5 mil milhões de euros; em termos consolidados, este indicador, referente à diferença entre os juros cobrados e os juros pagos, totalizou 5,7 mil milhões de euros no ano passado, e as comissões bancarias cobradas pelos seis maiores bancos do país durante o ano passado, geraram uma receita global tão elevada quanto os lucros por eles obtidos’.

E Alfredo Pastor, terminava o seu artigo assim ‘Um pouco de austeridade e algo mais de fraternidade para com os menos favorecidos, ajudarão a ordenar caprichos, desejos e necessidades; o princípio do porco já deu os seus frutos e é hora de o abandonar, por caber a cada um o seu próprio São Martinho’.

Estou a meter-me em temas que estão muito longe das minhas ‘praias’, porque as noções que tenho de economia serem fundamentalmente marcadas perlo caso de me faltar ou sobrar mês no final da reforma, deve substituir-se esta palavra por vencimento ou ordenado a quem o tiver por ser ‘O terreno comum em que cada pessoa baseia os seus primeiros valores’, disse uma vez Albert Camus. 

De qualquer maneira, no dia em que me atirei para a fazedura desta Carta, noticiavam alguns órgãos de comunicação, ‘A maioria dos analistas espera uma subida de 0,25 pontos no preço do dinheiro apesar do problema dos bancos, mas a inflação continua s ser o tema dominante das reuniões sobre política monetária’, sem ter em conta o tudo o resto atrás referido, como afirma no blog ‘Ladrões de Bicicletas’, o economista Vicente Ferreira, mencionando apenas este país, ‘ao longo do último ano, houve uma quebra generalizada do poder de compra e a queda dos salários reais atingiu os 5%’. 

O filósofo Santiago Alba Rico refere este tema de um modo mais contundente, ‘A miséria mesmo simbólica no melhor dos casos deixou os povos à mercê de vanguardas organizadas, das direitas ou das esquerdas, que poderiam usar melhor o seu poder, mas acabam sempre por explorar a seu favor, a decomposição dos laços sociais’, decomposição altamente trabalhada pelos numerosos ecrãs que nos comandam as vidas, desde aqueles que transportamos no bolso em permanência, que olhamos entre três a cinco horas por dia, até aos outros a funcionar por, ou devido a, plataformas de titularidades indefinidas, mas altamente efectivas. 

Aliás Maria Ressa, Prémio Nobel da Paz em 2021, garantiu ao DN do passado dia 19, ‘As plataformas que dão as notícias a uma parte significativa da população mundial, são tendenciosas em relação aos factos e espalham mentiras temperadas com raiva e ódio”, muito mais depressa do que os factos. Sem factos, não pode haver verdade. Sem verdade, não pode haver confiança. Sem estas três coisas, não temos realidade partilhada, e a democracia tal como a conhecemos –bem como todos os esforços humanos significativos- estão mortos’.

Não consigo terminar esta Carta sem uma citação do Marquês de Sade, o aristocrata revolucionário como político, filósofo e escritor, abalado há pouco mais duzentos anos, ‘Não há outro inferno para o homem, além da estupidez ou da maldade dos seus semelhantes’.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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