Nota de editor
Inicialmente concebidos num contexto de uma série de maior dimensão e complexidade analítica – Neoliberalismo, Pensões por capitalização e Instabilidade Social e Política –, optou-se por publicar de imediato os textos respeitantes ao troço “O Reino Unido no centro do furacão criado pelo neoliberalismo”, uma vez que, conforme diz o autor da série, Júlio Marques Mota, “… o que neles se escreve não é diferente do que poderá ser escrito sobre qualquer outro país europeu neste momento”, podendo mesmo fornecer “… uma ótima grelha de leitura sobre a realidade atual e atrevo-me mesmo a dizer sobre o futuro próximo que aí vem” (ver aqui “Hoje faço 80 anos… tempos difíceis, o vinho que não bebi e que nunca procurei beber”).
Este é o oitavo dos treze textos que compõem a parte II da série “O Reino Unido no centro do furacão criado pelo neoliberalismo”.
FT
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
5 min de leitura
Parte II – Texto 8. O inverno britânico de descontentamento é o resultado inevitável da austeridade
Uma década de cortes nas despesas dos Tory deixou o país vulnerável aos choques externos dos últimos dois anos
Publicado por
em 23 de dezembro de 2022 (original aqui)
Quando o tristemente célebre “mini-orçamento “ de Liz Truss e Kwasi Kwarteng atirou as finanças públicas britânicas para um mar fortemente agitado em Setembro, foi considerado como um exemplo flagrante de colocar a ideologia acima das evidências. Os seus dois arquitetos já se foram embora, numa questão de semanas, e um partido conservador castigado anunciou uma série de reviravoltas. O mal estava feito, mas foi relativamente breve.
Isto é tanto mais trágico quanto uma anterior política catastrófica não tenha tido o mesmo destino em tempo devido. Os efeitos do programa de austeridade dos Conservadores durante os anos de Cameron-Osborne têm vindo a acumular-se constantemente ao longo da última década, mas este Inverno esse fio de água tornou-se uma torrente.
O programa de austeridade dos Conservadores, fez cortes profundos e duradouros na despesa pública, especialmente no investimento, corroendo a capacidade do Estado britânico
Evolução das despesas e investimentos governamentais nos serviços públicos, Reino Unido (repartidos por partido no governo) versus países pares
Com um pouco de sorte, a situação poderás safar-te com o corte de investimento durante alguns anos. Tudo se torna um pouco mais frágil, mas desde que não haja choques externos desagradáveis, poder-se-á talvez evitar o desastre. Os efeitos do corte nos serviços públicos são um pouco mais difíceis de esconder, mas poderás safar-te com uma degradação gradual dos mesmos.
O problema é que, quando se é atingido por uma pandemia, uma crise energética e um ato de autossabotagem económica grosseira no curto prazo, os teus agora frágeis e exaustos serviços públicos vão ceder onde um sistema saudável teria suportado a tensão.
Doze anos após o início da austeridade, os dados pintam um quadro arrasador, desde salários estagnados e produtividade congelada até doenças crónicas crescentes e um serviço de saúde de joelhos.
Os salários reais do RU são hoje mais baixos que há 18 anos, e estão piores do que no caso de qualquer outra nação similar
Evolução dos salários médios anuais reais
Os salários reais no Reino Unido estão abaixo dos valores que se verificaram há 18 anos. A esperança de vida estagnou, com a Grã-Bretanha a situar-se abaixo da maioria dos outros países desenvolvidos, e a mortalidade evitável – mortes prematuras que não deveriam ocorrer com cuidados de saúde atempados e eficazes – a subir para o nível mais alto entre os seus pares, com exceção dos EUA, cuja crise de opiáceos os torna inigualáveis.
Sim, o orçamento do SNS foi protegido ao longo de todo o processo, mas a contenção das despesas de saúde ocultou falhas desastrosas sob a superfície.
Com uma população em rápido envelhecimento e enferma, a mera manutenção das despesas era insuficiente. Na última década, a Grã-Bretanha afastou-se dos seus pares em termos de despesas globais com a saúde, enquanto o investimento em infraestruturas de saúde diminuiu para metade entre 2010 e 2013. Isto deixou o SNS inglês com menos capacidade de reserva do que qualquer outro país desenvolvido quando apareceu a pandemia. Isto mostrou-se como sendo um enorme entrave à produtividade, deixando os trabalhadores do sector da saúde do Reino Unido paralisados pela escassez de camas e equipamento.
As consequências foram nefastas, desde o disparo das listas de espera, a degradação do desempenho dos serviços de urgência, até ao aumento do número de mortes evitáveis e a diminuição da esperança de vida
A hipótese implícita de que as despesas que protegem e promovem a saúde da população se situam somente dentro do orçamento do SNS também se mostrou que era uma hipótese errada. Os cortes nos orçamentos da habitação e das comunidades deixaram as habitações britânicas num estado tão terrível que estão agora a causar mortes entre as crianças.
Vidas perdidas, rendimentos perdidos, anos de trabalho perdidos. Ao contrário da Trussonomics, a austeridade é uma assassina lenta e silenciosa. Durante a melhor parte dos doze anos, os Conservadores semearam as sementes da austeridade. Este ano, estão a colher os seus frutos.
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O autor: John Burn-Murdoch jornalista repórter de dados no Financial Times, desde 2013. É licenciado em Geografia pela Universidade de Durham, e mestre em Jornalismo Interativo pela City, Universidade de Londres e mestre em Ciência de Dados pela Universidade de Dundee.








