O escritor e reformador social norte-americano Upton Sinclair, que desenvolveu toda a vida activa na escrita, na política e na análise social durante as primeiras décadas do século passado, afirmou várias vezes ‘É difícil fazer um homem compreender algo quando seu salário depende, acima de tudo, de que não o compreenda’.
Vem isto a propósito de duas notícias saídas num jornal de grande circulação e consulta neste país; a primeira começa assim –Cada pensionista está a perder cerca de 471 euros por mês ou 6594 euros anuais, face ao valor do último salário, segundo as respostas dadas por reformados portugueses, entre os 65 e 84 anos– atribuindo a valia dos dados a um inquérito da Deco Proteste.
A segunda, publicada um dia depois, afirma isto –Há sinais inequívocos de que muitas famílias “sobretudo as mais pobres, com menos rendimento disponível, e as mais vulneráveis à subida das taxas de juro, porque têm dívidas bancárias a aumentar com o avanço das taxas de juro” estão mesmo a cortar na alimentação para conseguir poupar mais um pouco– e a responsabilidade da afirmação é atribuída ao INE.
Esta segunda notícia tem agarrados números de estremecer, pois se não houvesse inflação, o corte na alimentação, isto é, a despesa com os alimentos teria caído na mesma e, em 2022, a quebra real foi a maior das séries oficiais daquele instituto, que remontam a 1955, –o equivalente a menos 573 milhões de euros em comida face a 2021–
Ainda de acordo com o INE, mas numa outra notícia, –os portugueses perderam 9,5 mil milhões de euros nos últimos oito anos, o que significa um corte de 12,6% na massa salarial, de acordo com a série estatística do INE que deflaciona as remunerações a janeiro de 2014, altura em que a inflação era nula–; e depois de apresentar mais uma série de números, afirma –tendo em conta as penalizações globais geradas desde o último ano da troika em Portugal,há uma perda global por trabalhador de 2976 euros. Ao contabilizar todos os 742 400 funcionários públicos existentes em 2022, chegamos a um recuo nas remunerações que supera os 2,2 mil milhões de euros; no setor privado, e porque o universo de trabalhadores é muito superior, o impacto é maior, ultrapassando os 3,6 milhões–
Não posso acrescentar mais números a esta Carta, por a poder tornar uma espécie de visita ao ‘Fantasma da Rua Morgue’, o célebre conto de Edgar Allan Poe, de onde saiu um já clássico filme de terror, interpretado por Bela Lugosi; mas sirvo-me das afirmações de António Guterres, vindas a público no princípio de Dezembro último, ‘Nas nossas economias globalizadas, as empresas e os investidores, contam com as benesses da natureza em todo o mundo e o melhor seria pensar na sua protecção; significa que a indústria alimentar e agrícola deve avançar para uma produção sustentável, e a indústria biotecnológica, farmacêutica e outras que usam a biodiversidade, devem comparticipar os benefícios de uma maneira justa e equitativa, com as instituições financeiras internacionais e bancos de desenvolvimento, a alinhar as suas carteiras com a conservação e uso sustentado da biodiversidade’.
A terminar esta Carta, toda números, recortes e citações, termino com mais uma do historiador António Araújo, vinda a público no final de Fevereiro, ‘Somos imperfeitos, moral e humanamente, individual e colectivamente imperfeitos, como pessoas e como sociedade, ou, se quisermos, como modelo político e social, apoiado em excesso na materialidade da produção e consumo. Em todo o caso, será́ grande avanço se, ao menos, tivermos consciência disso. A consciência, no fundo, de que a recusa em olhar o outro, é negação de nós próprios’.
Mas temos consciência também e, por olhar os outros, como dizia, há muitos anos, um bom amigo nascido em Vitória, no país basco, ‘Los ricos también lloran… pero siguen siendo ricos’.
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor
Muito importantes os dados da Deco e do INE aqui divulgados. E que mostram, a meu ver, como o governo do PS, desde que acedeu ao poder, tem vindo sempre a fugir com o rabo à seringa. Ou seja, muita parra mas pouca uva. Não alterou no essencial o trabalho da Troika/Passos Coelho/Portas. Bruxelas (leia-se, neoliberalismo) dixit, e Portugal continua o seu papel de aluno aplicado. Agora, até também a propósito da Ucrânia. Enquanto o pm de Espanha Pedro Sanchéz diz que a proposta da China sobre a Ucrânia tem pontos interessantes (o que sempre é um abrir de porta…), o nosso (guerreiro) Costa diz “A paz só é possível com a vitória da Ucrânia e a derrota da Rússia”. Tal como com os cortes no poder de compra dos portugueses, sobretudo os mais frágeis, são estas políticas no interesse dos portugueses? Inacreditável!
Obrigado caro Amigo, obrigado por ler estes desabafos e obrigado por lhe merecerem uma opinião, mesmo que seja em desacordo.
Precisamos disso, os que vamos escrevendo coisas na esperança de alguém as ler também e actuar se tiver poder.
Um abraço
A.O.
Muito importantes os dados da Deco e do INE aqui divulgados. E que mostram, a meu ver, como o governo do PS, desde que acedeu ao poder, tem vindo sempre a fugir com o rabo à seringa. Ou seja, muita parra mas pouca uva. Não alterou no essencial o trabalho da Troika/Passos Coelho/Portas. Bruxelas (leia-se, neoliberalismo) dixit, e Portugal continua o seu papel de aluno aplicado. Agora, até também a propósito da Ucrânia. Enquanto o pm de Espanha Pedro Sanchéz diz que a proposta da China sobre a Ucrânia tem pontos interessantes (o que sempre é um abrir de porta…), o nosso (guerreiro) Costa diz “A paz só é possível com a vitória da Ucrânia e a derrota da Rússia”. Tal como com os cortes no poder de compra dos portugueses, sobretudo os mais frágeis, são estas políticas no interesse dos portugueses? Inacreditável!
Obrigado caro Amigo, obrigado por ler estes desabafos e obrigado por lhe merecerem uma opinião, mesmo que seja em desacordo.
Precisamos disso, os que vamos escrevendo coisas na esperança de alguém as ler também e actuar se tiver poder.
Um abraço
A.O.