Seleção e tradução de Francisco Tavares
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A Entente é uma pílula amarga para o Ocidente
Publicado por
em 6 de março de 2023 (original aqui)

O Ocidente está encurralado entre o sentimento público que ele construiu e a realidade no terreno, escreve Alastair Crooke.
Mudança Estratégica Consequente – Ao sair do seu encontro com Vladimir Putin, Xi Jinping disse a Putin, “Está a chegar uma mudança que não aconteceu em 100 anos – e nós estamos a conduzir esta mudança juntos”.
A ‘Entente’ foi selada durante horas de conversações ao longo de dois dias, e no meio de uma pletora de documentos assinados. Dois estados poderosos formaram uma dualidade que, ao unir uma base de fabrico gigantesca com o proeminente fornecedor de matérias-primas e o avançado armamento e o bom senso diplomático da Rússia, deixa os EUA na sombra. Um assento na sombra (assumido através da volição, ou incapacidade de contemplar uma transição tão radical) reflecte os EUA de costas voltadas para a participação no mundo multipolar que se está a desenrolar.
Com os EUA servo da hegemonia, a emergência de uma tripartição global é inevitável – incluindo as três esferas da guerra comercial: a Eurásia, liderada pela Rússia e China; o Sul global influenciado pela Índia – e com os EUA a dominarem a UE e a Esfera Anglo-saxónica.
Mas não era essa a essência do que o Presidente Xi queria dizer com “mudança”; o comércio, o intercâmbio militar e a mudança do sistema monetário já estavam “cozinhados”. O que Xi e Putin estão a sugerir é que devemos pôr de lado os velhos óculos do orientalismo ocidental, pelos quais estamos habituados a ver o mundo, e a pensar o mundo de forma diferente e diversa.
A transformação nunca é fácil. Como é que a classe política dos EUA está a reagir? Está a agitar-se de forma selvagem. Está profundamente assustada com a manifestação desta nova entente. Reagiu, como de costume, com um derramamento de propaganda: Putin pouco recebeu da visita de Xi, salvo pompa e cerimónia; a de Xi foi uma “visita de médico” a um paciente doente; a Rússia humilhada ao tornar-se uma colónia de recursos chineses – e, para cúmulo, a cimeira não conseguiu encontrar uma resolução sobre a Ucrânia.
Toda esta propaganda é um disparate, é claro. São patranhas lançadas ao vento. Washington compreende o quão convincente é a narrativa chinesa: A China procura harmonia, paz e um modo de vida significativo para todos. A América, no entanto, representa a dominação, a divisão e a contenção – e as guerras sangrentas de tipo colonial para sempre (no meme chinês).
A narrativa de Xi tem tracção – não apenas no mundo “que recusa alinhar-se”, mas também significativamente dentro da “Outra América”. Até encontra um certo eco na Europa que, além disso, é de “pacotilha”.
O problema aqui, é que estas “duas Américas” – as intituladas Oligarquia e “Outra América” – simplesmente não foram capazes de dialogar uma com a outra, e retiraram-se em esferas separadas: As plataformas tecnológicas ocidentais (como o Twitter) foram conscientemente configuradas de modo a não ouvirem precisamente a “Outra América”. E para cancelar, ou desplataformar, vozes contrárias. O actual esquema anti-russo é mais um derivado da ‘psicologia do empurrão’, originalmente testado durante o confinamento: então, a ‘Ciência’ (tal como determinada pelos governos) oferecia ao público ‘certeza’, e ao mesmo tempo alimentava o medo de que qualquer incumprimento das regras governamentais pudesse levar à morte.
A certeza moral (reivindicada por seguir a “Ciência”) justificava julgar severamente, condenar e demitir pessoas que de alguma forma questionavam o confinamento. O actual estratagema geopolítico psicológico – um derivado do precedente do confinamento – é “colar” à esfera geopolítica a posição acordada de tolerância zero em relação ao questionamento de supostos princípios “que são invioláveis” (tais como os Direitos Humanos). Assim, o esquema utiliza a “clareza” narrativa da “invasão ilegal, não provocada e criminosa da Ucrânia” pela Rússia para dar ao público ocidental o satisfatório sentido de justiça necessário para julgar com a mesma severidade, expulsar do emprego, e denegrir publicamente qualquer pessoa que manifeste apoio à Rússia.
Isto é visto como um sucesso dos serviços de inteligência, ao contribuir para o objectivo de manter a “partilha de encargos” da NATO – e de assegurar a expressão ocidental generalizada de “ultraje moral” em relação a tudo o que é russo.
O “estratagema da certeza” do Ocidente pode ter funcionado, na medida em que acendeu enganosamente uma fúria moral dentro de um grande segmento da opinião pública. No entanto, também pode ser uma armadilha – ao disparar uma propaganda tão carregada de emoções; a força desta última limita agora as opções ocidentais (numa altura em que as circunstâncias da guerra da Ucrânia são muito diferentes do que se esperava). O Ocidente está agora encurralado por aquela opinião pública que considera que qualquer compromisso que não seja de plena capitulação russa viola os seus “princípios inviáveis”.
A noção de expor diferentes facetas de um conflito (que constitui o âmago da mediação), proporcionando perspectivas diferentes que se aproximam, torna-se intolerável quando confrontada com a justiça “a preto e branco”. Xi e Putin são considerados pelos meios de comunicação social ocidentais como sendo tão moralmente deficientes que muitos temem ser desprezados por estarem do lado errado da linha divisória ‘moral’ numa questão tão controversa.
Notavelmente, este estratagema não funciona no resto do mundo, onde a qualificação irónica dos movimentos progressistas radicais [wokismo] tem pouca tracção.
Há, no entanto, um substrato de classe governante que se inquieta com esta técnica de negação. Surgem duas questões reais: Primeiro, poderá a América sobreviver na ausência da hegemonia dos EUA? Que laços, que significado nacional, que visão poderia substituir para manter unida uma nação tão diversa? Será “a modernidade como o vencedor da história” convincente no contexto da degenerescência cultural contemporânea? Se a “modernidade” de hoje só vem à custa da solidão pessoal e da perda da auto-estima (que é o sintoma reconhecido da alienação resultante da separação das bases comunitárias), valerá a “modernidade” tecnológica então a pena? Ou poderá algum regresso a valores anteriores tornar-se o pré-requisito orientador para um modo diferente de modernidade? – um que funcione com o grão, em vez de contra o grão do enraizamento cultural.
Esta é a questão-chave colocada pelos Presidentes Xi e Putin (através do conceito de Estado-nação civilizacional).
Em segundo lugar, os EUA passaram de ser uma potência militar a essencialmente uma hegemonia financeira rentista. Qual o preço da prosperidade empresarial duradoura dos EUA se os EUA perderem a hegemonia do dólar? O “privilégio” do dólar há muito que sustenta a prosperidade dos Estados Unidos. Mas as sanções americanas, as apreensões de bens, e novos acordos monetários colocam a questão: A ordem global mudou de tal forma que a hegemonia do dólar, para além dos EUA e das suas dependências, já não é sustentável?
As classes dirigentes ocidentais têm a certeza da resposta: A hegemonia política e a hegemonia do dólar estão interligadas. Manter o poder, enriquecendo o “bilião de ouro”, significa sustentar ambos – mesmo quando as elites podem ver claramente que a narrativa americana está a perder tracção em todo o mundo, e os estados estão a migrar para novos blocos comerciais.
Essa outra ‘Outra América’ não está tão segura de que mereça a pena a carnificina associada às intervenções intermináveis da América. Há também uma corrente de pensamento subjacente que um sistema financeiro, dependente de cada vez mais e maiores “doses” de estimulante financeiro, seja saudável (ao criar desigualdades), ou que a sua’ alavancagem piramidal possa ser sustentada a longo prazo.
Há alguns anos atrás, quando Nathan Gardels falava com Lee Kuan Yew de Singapura, disse este último: “Para a América, ser desalojada … por um povo asiático há muito desprezado e rejeitado com desprezo como decadente, débil, corrupto e inepto, é emocionalmente muito difícil de aceitar“. Yew previu: “O sentido de supremacia cultural dos americanos tornará este ajustamento mais difícil“.
Do mesmo modo, para a China, que teve uma história longa e contínua como grande potência, ser bloqueada por um “povo vindo do nada” é intolerável.
A Entente é uma pílula amarga para o Ocidente. Durante uma geração, separar a Rússia da China tem sido um objectivo primordial dos EUA – tal como inicialmente prescrito por Zbig Brzezinski: Conter tanto a Rússia como a China através da exacerbação das disputas regionais (Ucrânia, Taiwan) era o jogo de soma zero, sendo a Rússia o primeiro alvo (para a obrigar de volta ao Ocidente através da implosão económica), e depois avançar para conter a China – mas só a China. (Sim, alguns no Ocidente acreditavam que um regresso da Rússia para o Ocidente era muito possível).
Um antigo secretário de Estado adjunto dos EUA, Wess Mitchell, escreveu na revista National Interest: Para Evitar que a China Agarre Taiwan: Detenham a Rússia na Ucrânia! Em termos simples, o ponto de vista de Mitchell era: “Se os EUA infligissem dor suficiente a Putin pelo seu jogo na Ucrânia”, então Xi seria implicitamente contido.
Assim, conter a Rússia através da Ucrânia era “isso”: “Se os Estados Unidos vão ameaçar sanções catastróficas contra a Rússia por causa da Ucrânia, é bom que sejam catastróficas, porque a credibilidade do sistema financeiro liderado pelos EUA para punir a agressão em larga escala – está em jogo”, avisou Mitchell. “Os Estados Unidos terão apenas uma oportunidade de demonstrar essa credibilidade – e a Ucrânia é isso“.
Mitchell continuou,
“A boa notícia em tudo isto é que a Ucrânia deu aos EUA uma janela momentânea, e perecível, para agir decisivamente e não só lidar com a situação na Ucrânia – mas dissuadir um movimento contra Taiwan… O impacto da brutalidade de Putin na galvanização da partilha de encargos europeia é uma mudança de jogo para a estratégia global dos EUA. Com a Alemanha a gastar nos próximos anos mais na defesa do que a Rússia (110 mil milhões de dólares anuais contra 62 mil milhões de dólares), os Estados Unidos poderão concentrar mais das suas forças convencionais disponíveis na dissuasão da China“.
“Uma janela momentânea”? Mas aqui estava o flagrante desfasamento: os EUA apostavam no ‘momento perecível’, mas a Rússia preparava-se para uma guerra de longo prazo. As sanções financeiras não funcionaram; o isolamento da Rússia não aconteceu; e a estratégia de contenção contribuiu antes para desestabilizar o sistema financeiro global, em detrimento do Ocidente.
A Administração Biden tinha apostado tudo numa estratégia de contenção destinada a evitar uma guerra de duas frentes – uma estratégia que não funcionou, como se esperava. Mais do que isso, o abate do balão chinês e os subsequentes gritos de batalha anti-chineses vindos de todos os quadrantes nos EUA convenceram os chineses de que a sua anterior tentativa de desanuviamento com os EUA e a Europa no G20 de Bali, em Novembro, tinha “morrido na praia”.
A China recalibrou; e preparou-se para a guerra. (No mínimo, uma Guerra Fria de sanção, mas finalmente, para a Guerra Quente). A todo o vapor com a Entente. A estratégia de Brzezinski de dividir e governar tinha sido atingida abaixo da linha de água e afundou-se.
O Ocidente está agora encurralado: Não pode sustentar a guerra simultaneamente contra a Rússia e contra a China, mas a sua manipulação exagerada, deliberadamente enganosa, da opinião pública para criar “coesão” ocidental torna a desescalada quase impossível.
O público nos Estados Unidos e na Europa vê agora a Rússia e a China nos tons mais escuros do Demiurgo maniqueísta. Tem-lhes sido repetidamente dito que a Rússia está à beira do colapso total, e que a Ucrânia “está a ganhar”. A maioria dos americanos, a maioria dos europeus acredita nisso. Muitos têm vindo a desprezar estes novos adversários.
A classe dirigente norte-americana não pode recuar. No entanto, não tem os meios para travar uma guerra de duas frentes. A armadilha consiste em propaganda resultante de um anterior esquema de confinamento que foi concebido para assustar, e desinformar o público. Um dos principais objectivos era fazer com que a dúvida ou o cepticismo parecessem moralmente irresponsáveis dentro do discurso público. Do mesmo modo, o novo esquema de controlo público ocidental pelo qual os Presidentes Xi e Putin são levados a parecer tão moralmente deficientes que grande parte do público receia criticar a guerra contra a Rússia – teve um efeito de ricochete. Essa “certeza” significa que seria moralmente irresponsável desistir de uma guerra – mesmo uma que se está a perder. A guerra tem agora de prosseguir até à derrota do regime ucraniano – um resultado muito mais humilhante do que um fim negociado teria sido. Mas a opinião pública não vai permitir nada menos do que a humilhação de Putin. O Ocidente está encurralado entre o sentimento público que ele construiu e a realidade no terreno.
Desta forma, o Ocidente caiu na sua própria “armadilha da certeza”.
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O autor: Alastair Crooke [1949-] Ex-diplomata britânico, fundador e diretor do Fórum de Conflitos, uma organização que advoga o compromisso entre o Islão político e o Ocidente. Anteriormente, era uma figura de destaque tanto na inteligência britânica (MI6) como na diplomacia da União Europeia. Era espião do Governo britânico, mas reformou-se pouco depois de se casar. Crooke foi conselheiro para o Médio Oriente de Javier Solana, Alto Representante para a Política Externa e de Segurança Comum da União Europeia (PESC) de 1997 a 2003, facilitou uma série de desescaladas da violência e de retiradas militares nos Territórios Palestinianos com movimentos islamistas de 2000 a 2003 e esteve envolvido nos esforços diplomáticos no Cerco da Igreja da Natividade em Belém. Foi membro do Comité Mitchell para as causas da Segunda Intifada em 2000. Realizou reuniões clandestinas com a liderança do Hamas em Junho de 2002. É um defensor activo do envolvimento com o Hamas, ao qual se referiu como “Resistentes ou Combatentes da Resistência”. É autor do livro Resistance: The Essence of the Islamist Revolution. Tem um Master of Arts em Política e Economia pela Universidade de St. Andrews (Escócia).



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