CARTA DE BRAGA – “com estes bois não se pode lavrar” por António Oliveira

O tempo não está bom para se levarem os bois para o campo, não se pode lavrar!’.

Ouvi dizer isto algumas vezes ainda garoto, quando ouvia a conversa dos mais velhos na aldeia da minha avó, no vale do Mondego, bem nas faldas de Estrela. Não era mal dos bois, por passarem o tempo a ruminar as palhas e as folhas de milho para matar uma fome que parecia não ter fim, mas sim pelos tempos temerosos que se viviam e levavam a falar em voz baixa, com um sempre à porta do sítio onde se estava, para ver se alguém estaria a ouvir. 

Hábito que adoptei, quando as conversas, com outra gente e de outras coisas, também pediam recato, por também poderem estar presentes ouvidos que fariam do branco verde, amarelo ou vermelho, de acordo com os seus interesses e de quem lhes pagaria as sopas que comiam sem vergonha, remorso ou até por um modesto pensamento humanitário. 

Curiosamente, ouvi dizer a mesma coisa, quase com as mesmas palavras, no café onde costumo parar, mas numa mesa ao lado; falavam sem cuidados dois fulanos bem vestidos, o mais velho com a barriga a cair por cima do cinto e o outro, um pouco mais novo, camisa e gravata por baixo de um blusão de boa marca. Como estariam à vontade, sem receio de serem escutados, falavam da inflação que ninguém conseguia parar, de um inverno complicado por ter vindo acrescentar a pandemia e agora, com tudo a subir sem controlo, ‘Estamos a ser alimentados com promessas, tal como a inalcançável cenoura à frente do burro para o fazer andar’. Tudo terminou quando mais velho afirmou peremptório, ‘Com estes bois não se consegue lavrar’.

Mais redutora do que aquela com que comecei esta Carta, parece levar-nos também para a polémica que está a marcar estes tempos, a da identidade, tanto a nível individual como colectivo, transformada numa arma de arremesso, para atacar algo ou alguém. É corriqueira a discussão sobre quem somos, de onde somos e para onde vamos, aliás as três questões que marcam, desde o princípio, os caminhos da Humanidade. 

Não sei avaliar a importância de cada uma na maioria das discussões, mas sei, vejo e ouço como elas existem, como também sei que enquanto o homem não conhecer e respeitar o outro, só lhe restam os restos das coisas que viu e das que foi e, se calhar, daquela tábua pequena onde antes endireitou tanta da sua roupa, à falta de melhor. 

Temos de pensar ainda, que as circunstâncias históricas podem abrir o encerrar as fronteiras físicas entre estados, mas as que construímos ou herdámos para nos fazerem a mente são as mais difíceis e, se calhar, até impossíveis de derrubar. Têm a forte carga emocional de um excludente monopólio identitário, quando não se respeita o outro pela etnia diferente, pela procedência, ou também pelas ideias, crenças ou mesmo pela classe social.

Aliás Zygmunt Bauman garantia ‘A experiência de todos os dias confirma reiteradamente que os princípios morais são cada vez menos vinculativos, o que se deve considerar alarmante’, secundando a afirmação de Theodor Adorno, ‘É preciso ter consciência sobre que espécie de ignorância está assente o nosso conhecimento’. 

E a ruptura social que se nota em praticamente e todas as democracias liberais deste mundo, não promete grandes coisas para o futuro, especialmente pelas questões da identidade; haverá muita coisa para fazer e pactuar com outros, mesmo outros regimes, desde que se faça civilizadamente, defendendo princípios e interesses colectivos, para estabelecer pontes, consensos e diálogos. 

Ninguém pode ficar tão taranta como naquele grafiti de Quito, ‘Cuando teníamos las respuestas, nos cambiaron las preguntas’ ou, para dizer melhor, ‘Com estes bois não se pode lavrar’. 

António M. Oliveira

ão respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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