Espuma dos dias — “Economia mundial: o braço-de-ferro entre os BRICS e a NATO em números”, por Dominique Delawarde

Seleção e tradução de Francisco Tavares

4 min de leitura

 

Economia mundial: o braço-de-ferro entre os BRICS e a NATO em números

 Por Dominique Delawarde

Publicado por  em 13 de Abril de 2023 (original aqui)

 

 

Os últimos números do FMI foram divulgados este 12 de Abril de 2023. Merecem ser analisados com atenção tendo presente que o FMI é um organismo detido e dirigido pelos ocidentais e que as suas previsões são tradicionalmente otimistas para o Ocidente e mais severas para os países que se colocam em posição de desafio do Ocidente (nomeadamente a Rússia e a China).

Todos os seis meses são feitas atualizações a estas previsões que têm em conta os dados reais constatados. De acordo com as minhas observações de mais de uma década, estas atualizações produzem, frequentemente, resultados mais favoráveis que os previstos em relação aos países BRICS em geral, e para a China e a Rússia em particular.

No ano de 2000 o PIB dos 5 países que iriam criar os BRICS representava 18,1% do PIB mundial em paridade de poder de compra (PPC). Hoje, a parte desses países aumentou para 32,1% do PIB mundial e o FMI prevê que essa parcela continuará a aumentar, porque o crescimento dos BRICS impulsionado pela China e pela Índia é muito mais forte que o dos países ocidentais.

 

A partir da sua cimeira anual, em Agosto de 2023, a realizar na África do Sul, os BRICS vão muito provavelmente começar a alargar-se selecionando os melhores candidatos para integrar o grupo enquanto membros permanentes. Uma vintena de candidatos estarão na fila de candidatura, alguns dos quais já se candidataram oficialmente. No caso de integrarem 1 ou 2 países ao ano até 2028, os BRICS (que deverão mudar de nome) poderiam contar com 10 a 15 países em 2028. O seu peso na economia mundial irá aumentar, incontestavelmente e de modo significativo.

 

De realçar que a lista enunciada no quadro anterior está longe de ser exaustiva. Alguns Estados hesitam em tornar público o seu desejo de adesão aos BRICS, temendo represálias do campo ocidental.

Com a entrada de um ou dois novos países em 2023 poderá bem ocorrer um efeito de arrastamento.

Há também que não esquecer que a Turquia declarou, há muito, o seu interesse em aderir aos BRICS.

Não hesitará em dar esse passo se o barco ocidental começar a meter água ou se a tutela dos EUA se tornar demasiado pesada…

 

Do lado ocidental, o declínio prossegue inexorável, ou pelo menos a parte das economias ocidentais no PIB mundial (em PPC).

O PIB dos Estados Unidos representava, por si só, 50% do PIB mundial no fim da guerra em 1945. Em 2000, não representava mais que 20,3%. Hoje o seu peso está em 15,4% e tem-se reduzido de ano para ano.

Os Europeus representavam 20,3% do PIB mundial (PPC) no ano de 2000. Hoje representam 14,6% e o seu peso também se tem reduzido de ano para ano.

Claramente, o campo ocidental já não dispõe do peso económico que tinha há 23 anos e que lhe permitia dominar por completo a economia e a finança mundial.

Além disso, a operação de desdolarização das trocas mundiais, iniciada pela Rússia e aplicada pela totalidade dos países BRICS, ainda não produziu os seus primeiros resultados.

Um número crescente de países junta-se em cada dia que passa às trocas fora dos dólares para escaparem às pressões, nomeadamente às sanções e à extraterritorialidade do direito estado-unidense, ligadas ao uso do dólar nas transações.

Esta desdolarização, que apenas agora está a começar, poderá ter efeitos com uma amplitude inédita sobre a economia mundial, aumentando as economias que se afastam do dólar e precipitando o declínio dos Estados que se agarram às “regras”, agora obsoletas, do passado.

Os primeiros sinais sobre estes efeitos poderão tornar-se perceptíveis a partir de Outubro 2023 ou Abril 2024, quando os números do FMI forem atualizados.

O que quer que aconteça, o mundo de amanhã será bem diferente daquele de ontem e qualquer retrocesso parece muito improvável. A desgraduação do ocidente demorará sem dúvida alguns anos, mas ela é inelutável e irreversível.

A guerra na Ucrânia, surgida após a fase aguda da crise Covid, terá precipitado as coisas. A operação especial [da Rússia] terá desempenhado plenamente o seu papel, obtendo, mais pela força da economia do que pela força das armas, um enfraquecimento duradouro da coligação ocidental e da ideologia neoconservadora e globalista da sua governação.

A situação é definitiva e não poderá ser mudada.

 

 


O autor: General Dominique Delawarde, general do Exército de Terra francês, é um antigo chefe da Situation-Intelligence-Electronic Warfare no Estado Maior Conjunto Francês de Planificação Operativa. O General Delawarde, Saint-Cyrien, passou a maior parte da sua carreira nos Caçadores Alpinos e na Legião Estrangeira. É também um especialista em gestão e formação de pessoal, e ocupou um importante cargo como chefe dos oficiais de ligação franceses nos Estados Unidos, país onde vive parte do ano desde que deixou o serviço activo. O General Delawarde esteve em Sarajevo, no auge da crise dos Balcãs, durante o Inverno de 1994-1995, quando, à frente do 7º Batalhão de Caçadores Alpinos, teve de garantir um cordão umbilical vital à cidade sitiada, segurando o Monte Igman. Formação pela École Supérieure de Guerra, Prytanée militaire de La Flèche.

 

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