Um dia depois do aniversário de ‘Abril’, todos vemos como o processo de crescimento da juventude actual, aqui ou em qualquer outro país deste liberalismo encapotado, se está a converter num paradoxo para a maioria das pessoas que a observem e analisem, com a atenção necessária, a tentar descobrir as razões de tal contradição.
Todos vemos como a sociedade está obcecada pela juventude, mas ao mesmo tempo –e aí está o tal paradoxo– não toma, ou deixa e não sabe assumir o conjunto de medidas que parecem ir contra essa obsessão, que agora se nota bem, até num dia depois de ‘Abril’; ignora completamente quais as decisões urgentes para a libertar da tirania dos ecrãs das redes sociais, da necessidade da leitura para poder criar imagens de olhos fechados, da possibilidade de reconhecer as estórias ou a História, para poder entender e apreciar o património pessoal ou colectivo, porque pertencer a uma qualquer sociedade é entendê-la também como lugar de pertença e partilha.
E assistimos a comemorações estúpidas –feitas pelas redes– ameaçando atacar escolas para comemorar um aniversário –mas do massacre de Columbine–, o que qualifica e especifica e, bem mal, o problema das armas nos states. E vemos também como andam, a pé ou em algum meio de transporte, ou se sentam à mesa em qualquer restaurante, acompanhados ou não pela família, como comem –às vezes eles todos– a segurar o pequeno ecrã numa das mãos, esquecendo como aquela mesa é um altar à partilha e à convivialidade, para aproveitar os poucos momentos em que as urgências da vida lhes permitem estar juntos.
Parece estarmos a viver numas sobreexploradas coletividades de ‘órfãos’, em que até a Escola desmotiva a relação com o passado, mais a do pequeno mundo da cada um com o da sociedade a que pertencem, por até as provas de aferição dos alunos dos 2º, 5º, 8º e 9º anos de escolaridade, no ano lectivo de 2023/24, serem já feitas em formato digital, menos a ‘Expressão Artística’ e ‘Educação Física’, talvez por ser bem difícil dar resposta através de uma simples cruzinha; também será de ter em atenção que os ‘órfãos’ só se relacionam com o passado, como sendo de outro continente ou outro planeta, de preferência através de uma série da Netflix.
Só sei que fui professor durante alguns anos, do ensino secundário ao superior, e tive oportunidade de ver como a capacidade de argumentar, escrever e narrar ia diminuindo, na mesma proporção em que crescia a ‘dependência’ daquela ligação contínua, e como se assustavam com a bibliografia, ‘É preciso ler os livros todos?’
Christopher Clouder, fundador do Conselho Europeu de Educação Steiner Waldorf, afirmou já no final do ano passado, ‘Estamos a assistir a reacções violentas de jovens em todos o mundo’, por ninguém os ter ensinado a serem eles mesmos e, quando se sentem frustrados, reagem com violência e em massa; os índices de desemprego são um crime, ‘preparaste-te mas não temos necessidade de ti’, pondo em evidência os seus poucos recursos, porque todo o sistema educativo, especialmente o universitário, está baseado na competitividade, quando sabemos que ‘nas sociedades mais igualitárias, se beneficiam os mais ricos em termos de bem-estar e felicidade’.
O professor Viriato Soromenho Marques é muito mais duro e afirma numa das suas crónicas no DN, referindo o meio ambiente, ‘Estamos a viver num cenário de irresponsabilidade coletiva, devorando o capital natural de que dependem, para sobreviver em condições de dignidade, as gerações que hoje estão no início do seu percurso escolar’.
O também professor José Ricardo Costa, autor do blog ‘Ponteiros parados’, firma tudo ter começado com a revolução industrial, em que a mão cedeu à técnica e depois à tecnologia, rodeando-nos de objectos que aprendemos a usar, mas não entendemos. E acrescenta, ‘O próprio mundo, tanto físico como social, deixa de ser tangível, sendo apenas dominado e compreendido por alguns. E nós cada vez mais ratinhos numa gaiola, andando de um lado para o outro, em que apenas alguns conseguem encontrar a alavanca que abre a porta para a comida’.
Talvez voltando ao velhinho Freud porque, quando lhe perguntaram em que consistia ser um humano sadio, respondeu apenas, ‘És um adulto quando puderes combinar amar, trabalhar e disfrutar.’
Com ou sem cruzinha?
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor