CARTA DE BRAGA – “da inteligência artificial e do futuro” por António Oliveira

 

As árvores da rua, mesmo em frente da minha janela, ainda têm as bagas amarelentas, as que ficaram a dizer adeus à primavera, agora a mudar para um castanho sujo, mas já quase tapadas por flores entre o cinza e o azul, a marcar o início do ano para flores e bagas. Os funcionários da Câmara passaram há já umas semanas e os troncos também quase despidos que eles lhes deixaram, estão agora cheios de vida; ontem já ouvi o canto da cotovia, alternando com o dos melros, fazendo da madrugada uma festa para quem gosta dos sons da natureza na alvorada.

Pena é terem desaparecido os pardais que, mesmo cantando pouco na busca dos grãos e sementes entre as frinchas do empedrado, sempre ajudam à festa, uma realidade já afastada pela seca, pela destruição gradual dos ecossistemas naturais, que também acabam com os lugares de nidificação. Ainda aparecem, mas são só dois ou três, quando via uma ou duas dezenas a toda a hora, quando para aqui vim. 

Aliás o mesmo deve suceder por essa Europa fora para não falar do resto deste planeta onde ainda vive gente, pois um diário europeu pôs na primeira página no final de Março, ‘Paris prepara-se para resistir a temperaturas de 50 graus’, o que há meia dúzia de anos atrás seria considerado um estropício, mesmo baseado num estudo de uma conceituada revista científica. 

Mas agora também tudo é possível ou parece ser possível quando validamos ou nos sentimos na obrigação de entregar à ciência e à tecnologia, a busca das soluções ideais para os problemas da humanidade, pelo menos desta que tem telemóveis, amigos, likes e emojis, que controla e comanda os restantes, incluindo as políticas que as promovam ciência e tecnologia, porque pobres e ricos sempre houve e continuará a haver.

O primeiro aviso ao alcance de toda a gente foi a publicação de uma ‘entrevista’, nunca efectuada, ao antigo piloto Michael Schumacher, mas gerada pela Inteligência Artificial (IA), na revista sensacionalista ‘Die Aktuelle’. O que foi o condutor icónico da Ferrari, sofreu um acidente em 2013, quando praticava ski, e desde então só se sabe que o seu estado de saúde é grave, continuando junto à família, num hospital de Maiorca. 

Sabe-se que a IA já reproduziu texto de autores clássicos, de Shakespeare a Jane Austen, até alguns pedaços do Harry Potter, que nos leva a perguntar como tal capacidade científica e tecnológica, pode gerar ‘maravilhas’ completamente imprevisíveis para a inteligência humana. O filósofo e linguista Noam Chomsky, critica o rumo e o desenvolvimento da tecnologia, pelos algoritmos que dão os conteúdos à nossa medida e chatbots que simulam a comunicação humana, contribuindo assim para uma maior inércia, criativa e analítica, ‘O ataque mais radical ao pensamento crítico, à inteligência crítica e particularmente à ciência que eu jamais vi e a ideia de que podemos aprender alguma coisa com este tipo de IA é um erro’.

Note-se que Geoffrey Hinton, um dos pioneiros dos actuais sistemas de IA, abandonou a Google, onde trabalhava. ‘Para falar dos perigos da IA, que podem arrastar riscos profundos para a sociedade e para a Humanidade, como o demonstram numerosas investigações e o reconhecem os principais laboratórios da IA’. Numa entrevista ao ‘New York Times’, salientou ‘É difícil ver como se pode evitar que maus actores a utilizem para coisas más, e não creio que devam ampliá-la até que saibam se a podem controlar’.

Mas o filósofo e historiador Yuval Noah Harari, autor de obras como ‘Sapiens’ e ‘Homo Deus’, escreve um longo artigo no ‘The economist’, onde refere os medos mais obsessivos da humanidade desde o começo da era informática. Até agora não iam além dos que se relacionavam com as máquinas que utilizavam meios físicos para matar, escravizar ou substituir pessoas. Mas agora aparecem as ferramentas da IA que ameaçam a sobrevivência da civilização humana através da criação e manipulação da palavra, sons e imagens e, ao fazê-lo ‘piratearam’ o sistema operativo da nossa civilização. 

E Harari pergunta ‘Que acontecerá quando a inteligência não humana seja melhor que o ser humano normal para contar estórias, compor melodias, desenhar imagens, escrever leis e escrituras? Que acontecerá no decurso doa História, quando a IA se apodere da cultura e comece a fazer narrativas, melodias, leis e religiões? Acabámos de nos deparar com uma inteligência estranha, aqui na Terra. Não sabemos muito sobre ela, a não ser que poderia destruir a nossa civilização. Se mantenho umas conversa com alguém e não posso saber se é humano ou IA, acabou a democracia’. 

Escreverem dois cronistas há dias no ‘DN’, ‘A fábrica da democracia precisa assegurar que a natural liberdade de expressão se sobreponha e molde a inteligência artificial, e não o inverso, tornando-se desta uma marioneta, em escala digital’.

Lá fora, o vento e a chuva fazem cair algumas das bagas, que ficam à espera de ser esmagadas pelos automóveis, por nem os melros as comerem, mas há pouco, antes desta rabanada de vento, ‘aterrou’ um pintassilgo, bem no meio da estrada, bicou em dois ou três sítios, levantou voo a seguir e desapareceu no caminho dos pinheiros lá mais acima. Deveria ter algum amigo à espera, por agora já serem muito poucos e terem de se cuidar. 

Tenho a sensação de que ele sabe o enorme paradoxo que é este planeta no conjunto do universo, por aqui viverem os donos de tudo e também os ‘nadas’, como os definiu o saudoso Eduardo Galeano que, talvez a propósito deste tema, escreveu um dia, ‘Quando são tomadas decisões que afectam mais de uma geração, que de alguma forma podem hipotecar o destino dos seus filhos ou o dos filhos dos seus filhos, isso tem que ser plebiscitado. Não pode ser decidido por um governo e tchau’.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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