CARTA DE BRAGA – “da democracia às memórias” por António Oliveira

 

Numa crónica recente no DN, Guilherme d’Oliveira Martins, escreveu ‘O que está em causa quando falamos de democracia e de dignidade humana é a liberdade. E essa liberdade é antes do mais de pensamento e ação. Infelizmente, há a tentação de confundir a autonomia individual com a imposição de um pensamento supostamente correto, que pode redundar numa nova censura’.

Não tenho quaisquer comentários, a favor ou contra, a fazer a esta afirmação que, apesar da extraordinária simplicidade, pode chamar a atenção para alguns dos diversos problemas que a sociedade actual está a passar, desde a reescrita de clássicos da literatura, por terem uma linguagem a não ser vista agora politicamente correcta, bem como a distopia aterrorizadora que parece estar a chegar, mas a tempo de nos poder vir a dar cabo das meninges. 

De acordo com a Revista ‘Nature Neuroscience’, um descodificador semântico foi capaz de tomografar o cérebro de três pessoas, enquanto ouviam monólogos e um podcast de um programa popular. No final da experiência, converteu e reproduziu com fidelidade e em frases completas o que tinha ouvido. Deve ter-se em atenção que a finalidade da experiência era analisar e estudar as interfaces cérebro-máquina para ajudar pessoas que não podem falar um problema para o qual se procura solução há já muitos anos. 

Além da reescrita de clássicos, para seguir o pensamento e as ordens de um qualquer autocrata, quais serão os problemas que poderá levantar um descodificador capaz de desvendar o pensamento, tanto para a vida pessoal, para as relações e convivências, ou mesmo nas nossas imperfeitas democracias onde as houver, onde irá prevalecer o desejo e a vontade de controlo ‘urbi et orbi’. 

Este é o novo e grande ‘achado’ do ChatGPT, a avançada plataforma de conversação com base na inteligência artificial, já disponível no mercado, que mete medo a especialistas e até a governos, pelo seu incrível poder que implica ser essencial defender, sem limites, a privacidade mental. De acordo com Jerry Tang, o primeiro autor da investigação, ‘Vimos como o decodificador pode prever o que o usuário está a imaginar ou a ver, embora não o expresse por palavras’ e adianta ainda ‘Há muita mais informação nos dados do cérebro, do que a esperávamos inicialmente’.

De qualquer maneira Tang não deixa de salientar, ‘É muito importante regular para que se podem usar os dados do cérebro e para o que não se podem usar. Só assim, se se isso for possível no futuro, haverá bases para serem bem utilizados’. Não há dúvida, a ver já pelo domínio das redes em todos os ‘recantos’ da sociedade, que a inteligência artificial já é capaz de reconhecer segmentos da população definidos por características particulares, onde a privacidade parece ter já passado à categoria de ‘lembrança’, de memória de tempos passados. 

Para o filósofo italiano Franco Berardi, ‘A inteligência artificial não lida apenas com tarefas, mas também com fins, e estabelece seus próprios objetivos. Sistemas artificiais de autoaprendizagem vão impor seus próprios objetivos e o sistema financeiro, o coração automatizado do capitalismo, impõe sua própria regra (matemática) ao corpo vivo, sistema que funciona muito bem para aumentar os lucros, mas não para governar toda a sociedade. Tempo e matemática não coincidem, porque no tempo há alegria, decadência e morte, fenômenos que a matemática não pode compreender por pertencerem ao reino da experiência’.

E escritor alemão e Prémio Nobel da Literatura, Gunther Grass, talvez prevendo o que viria, escreveu no romance ‘O tambor de lata’, saído já em 1959 e em plena guerra fria, ‘Hoje sei que todas as coisas são vistas; nada deixa de ser visto, até o papel de parede é melhor memorizado que os seres humanos’.

E o enorme poeta que foi Jorge Luis Borges, imaginava a memória como um museu de espelhos partidos por serem  muito difíceis de recompor, até cobertos de poeira, ‘Quase tanto quanto as lembranças, que também acabam ficando turvas com o passar do tempo’… mas no tempo do poeta!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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