Hoje foi solstício de verão, o dia maior do ano e respeitado pela maioria das culturas, para celebrar a natureza e o facto de sermos o somatório de todos os outros que nos antecederam; é esse conhecimento que nos ensina de onde viemos, onde estamos e para onde queremos ir.
O filósofo e escritor italiano Nuccio Ordine, abalado no passado dia 10, nasceu num pequeno povo da Calábria onde não havia uma só livraria, aprendeu a ler graças à televisão, à banda desenhada que o avô vendia no seu quiosque, e agradecia repetidamente a ajuda da sua primeira professora; Ordine afirmava também muitas vezes, ‘Sempre gostei de uma frase que li no livro “Memórias de Adriano” de Marguerite Yourcenar, em que Adriano dizia “A minha primeira pátria foram os livros”, e digo, como ele também, que a minha pátria são os livros e a minha casa, a casa onde os tenho, na Calábria, a dez minutos da universidade onde ensino’.
Para Ordine ler era viajar com o pensamento, ler era viver mais vidas e, por tudo isso, era fazer da leitura uma experiência maravilhosa, pois o conhecimento não é apenas um instrumento para ganhar dinheiro, mas para aprender a viver e ajudar a compreender a vida, as ‘pequenas’ coisas que ensinava nas aulas de teoria da literatura.
‘Platão viveu entre os séculos V e IV antes de Cristo, mas os seus textos estão-me estranhamente próximos, apesar do tom algo cerimonioso e repetitivo para este tempo’, afirma também Sergio Fanjul, astrofísico e master em Jornalismo, ‘Como se vê pelos escritos de Sócrates, não muito diferentes dos nossos, apesar de um par de milhares de anos depois, pois as emoções, as paixões e os medos são exactamente os mesmos’.
Tudo porque a última tecnologia dos livros, é e continua a ser a escrita, aquele maravilhoso sistema que nos permite usar, com um pouco mais de duas dezenas de símbolos, a forma ideal para contar estórias onde se podem relembrar, criar, misturar, inventar ambientes, realidades, emoções e as imagens das tais ‘pequenas’ coisas, para a mente reviver. E lemos ou vemos nas insubstituíveis tragédias gregas –no teatro ou em imagem– como o mundo mudou ou como mudámos o mundo, através das inovações tecnológicas, acentuadas agora pela hipervalorização da inteligência artificial, mas o livro não está, nem foi tido por obsoleto, pela sua resistência inigualável.
Pense-se, sem recuar demasiado no tempo, como a modernidade se afirmava como um modo de vida e pensamento bem superior ao passado, mas hoje vivemos um outro estado de espírito, em que temos sérias dúvidas sobre e o futuro será melhor ou pior que este ‘pobre’ presente. Há quem defenda que o passado foi melhor, e outros a vaticinar um futuro só de confusão e desordem, onde talvez perore um qualquer algoritmo da inteligência artificial.
Mas, de acordo com Daniel Innerarity, ‘O projecto moderno –racionalidade tecnológica, globalização, homogeneização cultural, instrumentalização da natureza– manifesta-se incompatível com a existência de um planeta habitável’, uma situação que para Javier Campaio, catedrático de psiquiatria, leva a que ‘Os seres humanos não vivemos a realidade, só a pensamos. A grande maioria até se esquece dos sonhos, por pensar que a parte mais importante do mundo, só acontece quando acordados. Mas foi assim, lembrando os sonhos, que arranjei e divulguei vários amigos que nunca existiram, mas que ainda hoje, a trinta anos de distância, oiço, sinto e vejo. E tenho saudade deles’.
Não posso deixar de evocar e acrescentar, aqui e agora, um parágrafo da carta que Fernando Pessoa escreveu a Adolfo Casais Monteiro, em 13 de Janeiro de 1935, ‘Desde criança tive a tendência para criar em meu torno um mundo fictício, de me cercar de amigos e conhecidos que nunca existiram. (Não sei, bem entendido, se realmente não existiram, ou se sou eu que não existo. Nestas coisas, como em todas, não devemos ser dogmáticos). Desde que me conheço como sendo aquilo a que chamo eu, lembro-me de precisar mentalmente, em figura, movimentos, carácter e história, várias figuras irreais que eram para mim tão visíveis e minhas, como as coisas daquilo a que chamamos, porventura abusivamente, a vida real’.
Também não posso deixar de apontar, para terminar, como a ambição e a ganância dos homens levaram alguns a pensar o mundo como um espaço que lhes oferecia possibilidades ilimitadas e inesgotáveis, reduzindo o seu semelhante e tudo o que não é humano, –como se lê, vê e ouve todos os dias– à simples categoria de uma natureza disponível para todo o tipo de usança. Mas creio bem que só poderemos voltar a ter uma ideia ‘saudável’ de futuro, se lhe respeitarmos as condições de natureza espiritual e material, para ele poder vir a ser ‘habitável’ por nós e por todos os que pensam, criam e amam.
E hoje até foi dia de solstício!
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor