CARTA DE BRAGA – “de silêncios e lâmpadas” por António Oliveira

Quando os silêncios já dizem mais do que as palavras, fala o inconsciente, disse alguém que já nem sei quem foi, mas nunca esquecendo Gandhi, por repetir a miúde ‘o silêncio faz parte da disciplina espiritual de um seguidor da verdade’ .

Penso, a dar largas à imaginação a partir do que vou vendo todos dias e em qualquer lugar, que a maioria das pessoas já não fala, ou se o fazem, usam maioritariamente o ecrã do móvel, os dedos a escrever com uma velocidade fantástica, especialmente a camada mais jovem. Aliás, um diário nacional referiu, no último dia de Maio, ‘Um estudo sobre o impacto das redes sociais na saúde mental, revelou que 86% dos jovens portugueses admitem estar viciados nestas plataformas, um valor superior à média europeia (78%), e 90% já as utilizam desde os 13 anos’.

Mais adianta o diário que o conhecido psicólogo Eduardo Sá, refere até, ‘Os pais, professores e técnicos salientam que um acesso franco, prolongado e ilimitado às redes sociais sem qualquer tutela por parte dos adultos, acaba por ter, um impacto francamente prejudicial na sua saúde mental’. 

Esta questão vem confirmar uma outra que mais estudos feitos em todos o lado deste mundo ocidental onde mal passamos os dias, que a sociedade se vai adaptando cada vez mais, a um modo de vida baseado no individualismo, até porque as infraestruturas, os modelos e projectos urbanísticos, se podem mesmo classificar como sendo antissociais, ‘urbanizações vigiadas e viradas para dentro, obcecadas por proteger a propriedade e a privacidade’, quando as há. 

O império da celeridade e do efémero no domínio do consumo, potenciados pelo mundo digital onde todos nos movimentamos em maior ou menor escala, mostra ainda uma humanidade de relações pouco estáveis, marcadas pela mudança, fragilidade, e até pelo medo, como foi explicado recentemente por um dos componentes de um grupo musical, nos tops há mais de quarenta anos, ‘Creio que a gente tem medo e, quando tens medo, atacas as pessoas que são diferentes ou as que não entendes, como aconteceu milhares de vezes ao longo da história do homem’.

O sociólogo e professor universitário Manuel Castells, confirma este afirmação ‘Quando o medo não encontra saída, manifesta-se polarizando e antagonizando o outro. O mundo entrou numa fase sem futuro, entre a extinção da habitabilidade no planeta, da desintegração moral e social de grande parte do mundo, da agressividade crescente entre grupos humanos, racismo, xenofobia, ódio. Medo e ódio, porque os projectos comuns se vão rasgando’.

Até porque, ‘Hoje é literalmente impossível saber se alguma coisa é verdadeira ou falsa. Olhe em volta e veja a quantidade de gente que anda confundida’, afirma Ignacio Ramonet, antigo director do ‘Le Monde Diplomatique’. 

Não posso deixar de acrescentar aqui um pensamento do professor José Ricardo Costa, do blog ‘Ponteiros parados’, mesmo a completar e reforçar o que afirmou Ramonet, ‘Se o nosso tempo começou muito bem com as Luzes do século XVIII, hoje, com o culto do light, estamos como um barco que, na noite escura, é atraído pela luz do farol, como o mosquito pela lâmpada no tecto da sala’. 

Mas os tipos da ‘lei e da ordem’ já andam por aí e bem visíveis!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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