É PRECISO ACREDITAR NAS ESCOLAS PÚBLICAS E NOS ALUNOS por Luísa Lobão Moniz

 

Somos filhos da madrugada que durante madrugadas, noites e dias nos dedicávamos à procura do caminho certo que nos devolvesse a Liberdade, que pusesse fim à Ditadura, à Polícia Política, às prisões, às torturas….à morte.

Por cada pessoa que gritasse de dor nas prisões, por cada pessoa que morresse baleada ou torturada pela PIDE mil se levantavam nem que fosse para erguer, a medo, o punho fechado…nem que fosse para dizer, baixinho, ao amigo” vem comigo também, vamos desertar, não vamos para a guerra, e não te esqueças – traz um amigo também- ”.

Hoje já não são só os filhos da madrugada que se manifestam pelas injustiças do Mundo em que vivemos.

Agora são também os filhos destes filhos e os netos. Somos uma mole enorme de pais, filhos e netos a querer mudar este Mundo para melhor. Mas o que é “para melhor”?

A Liberdade de Expressão do nosso pensamento, o acesso à Escola Pública que lutou pela escolaridade para todos, para que o conhecimento fosse partilhado por todos, pobres e ricos, gerou novos homens e mulheres a estudar, a viajar, a comparar, a investigar, e que os levou a ser a geração mais bem preparada para mudar a sociedade.

Mas pasme-se, agora é que o Ministério da Educação reconhece que os alunos mais pobres quase não chegam à Universidade! E porquê? Não porque sejam mais pobres, mas porque na realidade não lhes são dadas as condições adequadas para poderem progredir.

A habitação alberga famílias numerosas, muitas vezes, com elementos conflituosos, a televisão está sempre ligada e com o som alto demais, as crianças correm, batem-se, choram e há sempre alguém que diz para o irmão mais velho ir tomar conta. E isto para não falar na violência doméstica que paira no ar.

Como pode o estudante fazer as suas reflexões sobre o que aprendeu? Como pode ter silêncio para fazer as suas pesquisas? Quantas vezes as suas folhas de apontamentos não ficam manchadas de café ou de gordura?

Estes estudantes são uns heróis porque conservam a vontade de estudar para que no futuro tenham uma profissão e uma vida melhor do que aquela que tiveram os seus pais.

A pobreza não é hereditária. Quantos e quantas não conseguiram atingir o seu objetivo, nem que para isso tivessem que vir para a rua estudar à luz do candeeiro público…

Não, não é ficção, é uma chamada de atenção para aqueles que não acreditam na Escola Pública. Tive durante a minha vida pessoal/profissional alguns casos de sucesso porque sempre me pautei pelo que considerava essencial para a formação pessoal e académica, porque tive a coragem de remar contra a maré, porque investiguei novos métodos de gestão escolar e curricular, porque sabia que só se aprende aquilo de que se gosta, porque os alunos precisam de saber que os professores confiam neles, porque a cidadania não se aprende como se fosse mais uma atividade, mas sim a vivência no dia a dia, a cidadania vive-se. Porque que me preocupei com a formação das turmas em termos de género, de cultura e de origem dos alunos…

Não percebo porque é que o Ministério da Educação não reflete sobre estas questões.

Porque não lhe interessa, porque não sabe o que é a vida de um estudante, a sua vida familiar e social, desde que entra no sistema educativo.

Porque não sabe que sociedade quer para o presente e para o futuro, ou se calhar sabe…

Eu e milhões de portugueses e portuguesas sabemos que queremos viver em Democracia sem corrupção, sem trapalhadas governamentais.

3 Comments

  1. Não há nada como presumir a bondade e superioridade dos nossos procedimentos enquanto se desvalorizam os dos outros. Bem como avaliar negativamente o presente esquecendo que no passado só uma minoria muito reduzida tinha acesso ao ensino secundário e superior. E atribuir a quem exerce funções públicas governamentais ignorância acerca do ambiente escolar e incapacidade para implementar medidas geradoras de ascensão social. Primarismo ou má fé?

    1. Caro António Teixeira,
      obrigada por ter lido a minha reflexão sobre a Escola que temos e que a todos deve atender.
      Concordo consigo quando diz ” Não há nada como presumir a bondade e superioridade dos nossos procedimentos enquanto se desvalorizam os dos outros. “, mas sinceramente não encontro nas minhas palavras ou intenções a desvalorização dos outros, nem algo que o leve a interpretar que os meus procedimentos são superiores aos dos outros. Conheço muitos professores que tiveram os mesmos e melhores procedimentos do que.eu ,Aqui não há competição, mas troca de experiências, reflexões em conjunto, não há escala de valores. A Escola Pública tem sido muito mal tratada, num segundo as pessoas começam a dizer mal da Escola e dos professores e de quem lá trabalha. Aqui sim, recorre-se à comparação com a Outra escola, a que conheci enquanto aluna.
      “Avaliar negativamente o presente” ? quando se diz “A Liberdade de Expressão do nosso pensamento, o acesso à Escola Pública que lutou pela escolaridade para todos, para que o conhecimento fosse partilhado por todos, pobres e ricos, gerou novos homens e mulheres a estudar, a viajar, a comparar, a investigar, e que os levou a ser a geração mais bem preparada para mudar a sociedade.”
      Em relação ” a quem exerce funções públicas governamentais ” , na realidade não os vejo a dar continuidade ao que de bom se tem feito, não vejo o empenhamento necessário para mudar o que há anos se constata como estando mal, e cito apenas a colocação dos professores, o número de alunos por turma…
      Espero, sinceramente, que desfaça a ideia de primarismo ou de má fé que sentiu nesta minha reflexão, se assim fosse não valeria a pena partilhar o que penso.

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