Nota de editor:
Curioso texto de Wolfgang Munchäu. Por um lado, reconhece os factos que mostram que a economia russa está a ter um desempenho superior à da Alemanha. Mas, por outro lado, diz logo no início, que “Com o apoio suficiente do Ocidente, a Ucrânia tem boas hipóteses de recuperar alguns, se não a maioria, dos territórios ocupados pela Rússia”. Ou seja, com o “apoio suficiente [sublinhado meu] do Ocidente a Ucrânia tem boas hipóteses…”, mas logo depois reconhece que as sanções do dito Ocidente não atingiram o seu objetivo (enfraquecer a Rússia e Putin) e que a contraofensiva ucraniana está aquém das expetativas. Em que apoio “suficiente” estará Munchäu a pensar? Pelo que diz não estará a referir-se a mais sanções. Refere-se então a quê?
FT
___________
Seleção e tradução de Francisco Tavares
3 min de leitura
A economia russa está a ter um desempenho que supera o da Alemanha
As sanções demonstraram serem dramaticamente ineficazes
Publicado por
em 6 de Julho de 2023 (ver aqui)

Praticamente todas as previsões, quer se trate da guerra na Ucrânia, das perspectivas económicas ou da força dos partidos de extrema-direita, têm tendência para acabarem por ser piores do que o esperado. A única coisa que está a correr melhor do que o esperado é a economia russa, com o crescimento do PIB do país a superar atualmente o da Alemanha.
Esta não é uma declaração sobre o provável resultado da guerra. Com o apoio suficiente do Ocidente, a Ucrânia tem boas hipóteses de recuperar alguns, se não a maioria, dos territórios ocupados pela Rússia. Mas, até agora, a contraofensiva ucraniana também tem ficado aquém das expectativas. Podemos concluir, portanto, que há algo de errado na forma como formamos as expectativas.
Mikhail Mishustin, o Primeiro-Ministro russo, apresentou ontem a Vladimir Putin uma atualização económica, estimando que a economia crescerá 2% este ano. O PIB russo causou surpresa ao cair apenas 2% no ano passado, após as previsões de um colapso de dois dígitos percentuais. Assim, o efeito agregado das sanções ocidentais, as maiores alguma vez impostas a qualquer país, tem sido, até agora, uma recessão menor e de curta duração.
A projeção de 2% está no limite superior das previsões, mas não de forma escandalosa. A Reuters consultou economistas que chegaram a um consenso de 1,3%. O FMI aponta para 0,7%. O Instituto de Estudos Económicos Internacionais de Viena, especializado na Europa Central e Oriental, aponta para 1%.
Estes números são surpreendentes. Quando, no ano passado, escrevi que as sanções não estavam a conseguir atingir o seu objetivo principal, que era o de reduzir a máquina de guerra de Putin, foi-me dito que o efeito deveria ser medido durante um período mais longo. Isso é inteiramente justo: o que importa é o efeito a longo prazo. No entanto, é precisamente neste ponto que eu diria que as sanções estão a falhar. A Rússia conseguiu realinhar a sua economia, evidentemente com a ajuda de enormes fugas de sanções através das repúblicas da Ásia Central e com a ajuda da China e da Índia.
O jornal alemão FAZ cita Vasily Astrov, um perito em Rússia do Instituto de Viena, que cita duas razões para o ressurgimento económico da Rússia. A primeira é a economia de guerra, um boom keynesiano clássico semelhante ao que aconteceu nos Estados Unidos e no Reino Unido durante a Segunda Guerra Mundial. A segunda é o aumento dos salários reais. Isto contrasta com o Ocidente, onde os salários reais estão a cair devido à elevada inflação. Na Rússia, porém, a inflação está a cair, de 14% no seu pico no ano passado para menos de 5%.
O argumento a favor das sanções era o de piorar a situação dos russos comuns, para que Putin perdesse o apoio interno. Tal não aconteceu, com o consumo privado a regressar ao nível de 2021. Um fator menos benigno subjacente ao aumento dos salários reais é a escassez aguda de mão de obra devido ao recrutamento.
A maior vulnerabilidade da Rússia no futuro é a liquidez, mas não se trata de uma questão de vida ou de morte. O país sofreu uma perda de receitas do petróleo e do gás, bem como um aumento dos custos este ano. Esta situação resultará num défice orçamental, que a Rússia estima em 2% do PIB. O Instituto de Viena, por seu lado, prevê 3,5%. No ano passado, as previsões e os comentadores afirmaram que Putin ficaria literalmente sem dinheiro no próximo ano. Isso não vai acontecer, uma vez que essas previsões se baseiam em cenários irrealistas, como um embargo total do petróleo e do gás. As previsões militares excessivamente optimistas seguem uma tendência semelhante, uma vez que se baseiam em extrapolações irrealistas sobre o nível de apoio ocidental.
A situação económica na Ucrânia continua terrível, o que não surpreende, e a maioria dos outros países da Europa de Leste regista atualmente o início de uma recessão. Uma vez que muitos deles dependem da economia alemã, a recessão que aí se verifica está a arrastá-los para baixo.
É evidente, portanto, que a combinação da guerra da Ucrânia com as sanções daí resultantes constitui um choque económico bastante simétrico tanto para a Europa como para a Rússia. Não era isso que se esperava. Seria aconselhável que os decisores políticos se lembrassem de que as sanções económicas são um instrumento poderoso, que deve ser manuseado com cuidado. Vale a pena perguntar se aqueles que tomam decisões, na Casa Branca e na Comissão Europeia, sabem o que estão a fazer.
Esta é uma versão editada de um artigo originalmente publicado no boletim informativo da Eurointelligence
O autor: Wolfgang Münchau (1961-) é co-fundador e director da Eurointelligence. Escreve uma coluna semanal sobre assuntos europeus, dirigida ao El Pais, Corriere della Sera e Handelsblatt. Foi colunista do Financial Times de 2003 a 2020 e co-fundador e editor-chefe do Financial Times Deutschland. É autor de vários livros, incluindo “Meltdown Years”. Os seus livros em língua alemã incluem o premiado Vorbeben de 2006, no qual previu a crise financeira global. Foi galardoado com o prémio SABEW 2012 para melhor colunista internacional e o prémio Wincott para jovem jornalista do ano em 1989.



1 Comment