O senhor João é só um camponês a quem a vida arrastou para a cidade; não é, nem quer ser, uma pessoa citadina, apesar de ter trabalho quase todos os dias, por a ele acorrerem vizinhos do sítio onde vive e de outros bem mais afastados, para instalar pequenas hortas ou jardins, nas coberturas dos prédios e assim estar a modificar a paisagem do lugar. Uma maneira original de viver a vida, depois de já ter passado à reforma que não aceita nem aceitou nunca.
João explica ‘Quando era garoto, olhava para os homens da minha aldeia que, aos cinquenta já me pareciam velhos, e não podiam jogar, nem ter namorada, sempre a trabalhar, e perguntava-me “que poderão fazer?”; garoto ainda pensei que, se lá chegasse, poderia ser criador de amor, porque amava e amo o universo, a criação, as plantas e as pessoas. Sei agora que o tempo é a tela da vida, que não se pode desperdiçar um minuto; até tenho a sensação de já ter vivido duzentos anos, pela intensidade com que o fiz! E quando um abre o coração ao outro, logo se lhe abrem os braços, e o abraço é proveitoso e doce’.
Lembro-me de ter lido algures –quando perguntaram a Aristóteles para que servia a filosofia, ele respondeu que não servia para nada “por a filosofia não ser servil”, um saber aparentemente inútil “por só ajudar a ser melhor, mais sábio e mais livre”– que poderia ser complementada com esta outra afirmação atribuída ao também filósofo francês Michel de Montaigne, ‘O símbolo mais certo da sabedoria é a serenidade constante’.
O historiador e medievalista português José Matoso, abalado recentemente, escreveu um dia ‘Dominamos a matéria, manipulamos as leis físicas, acumulamos o poder e o dinheiro, aperfeiçoamos a racionalidade e, todavia, o caminho que escolhemos parece conduzir directamente ao caos. Não será preciso, então, preservar as realidades espirituais, para nelas encontrar a inspiração necessária ao exercício prático, efectivo, da solidariedade e da responsabilidade? Não será preciso fazer aquilo que não dá dinheiro nem poder, e que muitos homens e mulheres praticam sem esperar qualquer lucro?’
Na verdade, vivem-se tempos em que domina uma desagradável sensação de ansiedade e desconforto moral, físico e material, provocada pelo medo da guerra, do futuro e incapacidade de o conseguir projectar, o que parece incomodar mais os mandados que os mandantes, atolados na inércia das rotinas, pela formatação e normalização dos ecrãs, dos likes e dos emojis, quando se lhes deveriam lembrar constantemente que um qualquer cidadão, em qualquer lugar e em qualquer hora, nada tem de mais valioso que aquilo que torna a vida digna de ser vivida: uma dignidade que não está à venda em frascos nem se encomenda pela net, a pagar pelo mb way.
Lembro-me da indescritível e encantadora figura com menos de uma metro de altura, Yoda, o Grão Mestre da Ordem Jedi, na ‘Guerra de estrelas’ de George Lucas, e de uma das suas admiráveis sentenças
“O medo é o caminho para o lado escuro,
o medo leva à ira,
a ira leva ao ódio,
o ódio leva ao sofrimento,
o sofrimento ao lado escuro”
Talvez se deva pensar, mais e melhor, naquele plantador de telhados!
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor