A guerra na Ucrânia — “A incrível contração da NATO”, por Dmitry Orlov

Seleção de António Gomes Marques e tradução de Francisco Tavares

11 min de leitura

A incrível contração da NATO

 Por Dmitry Orlov

Publicado por em 15 de Julho de 2023 (original aqui)

 

 

Tenho estado à espera que o burburinho diminua desde a conferência da NATO em Vilnius, Lituânia, de 11-12 de julho de 2023, esperando que alguém – qualquer um – aponte a razão óbvia de porque razão o presidente-mascote snifador de cocaína da Ucrânia, Zelensky, tendo sido celebrado há apenas um ano, de repente caiu em desgraça com esta organização. Sim, a Ucrânia ainda pode algum dia ser convidada a iniciar o longo e árduo processo de adesão à NATO, mas só depois de um número indefinido de membros da NATO decidir que o país já fez o suficiente para cumprir as “normas da NATO” (mais adiante explicarei quais são essas normas) e várias outras coisas vagas. Tendo presente que em 20 de Setembro de 2018 o parlamento ucraniano aprovou emendas à constituição que tornariam a adesão do país à NATO e à UE um objetivo central, e o principal objetivo da política externa, tal reviravolta dos acontecimentos é muito embaraçosa para o presidente-mascote e seus patrocinadores e manipuladores.

Oh, as vicissitudes da fortuna! Muitas análises e comentaristas ofereceram explicações prontas para essa reviravolta. No entanto, nenhum deles achou por bem cavar apenas um pouco e descobrir a razão óbvia para essa mudança importante. Talvez todos eles, por uma variedade de razões, detestem admitir a realidade do que a NATO é, o que ela faz e porque razão a Ucrânia é de repente uma ameaça em vez de um benefício para a sua missão central. Você pode querer ler todos esses comentários quando quiser – se estiver com problemas para adormecer. O Comunicado oficial da Cimeira da NATO, fantasticamente palavroso e cheio de irrelevâncias, é uma leitura particularmente sonolenta.

Então, o que fez a Ucrânia para cair em tamanha desgraça? Talvez tenha feito algo que prejudicou a missão central da NATO? Isso parece um bom palpite. Mas então qual é a missão central da NATO?

No filme “O Silêncio dos Inocentes”, Hannibal Lecter refere-se a uma citação de Marco Aurélio quando diz a Clarice Starling: “Primeiros princípios, Clarice. Simplicidade. Leia Marco Aurélio. Sobre cada coisa em particular pergunte: o que é em si? Qual é a sua natureza?” A citação é do Livro Três de “Meditações” de Marco Aurélio [1], e enfatiza a importância de compreender a essência das coisas.

A NATO foi formada em 4 de Abril de 1949 com a assinatura do Tratado do Atlântico Norte, mais popularmente conhecido como Tratado de Washington, supostamente com o objetivo de reprimir a União Soviética na Europa. A URSS respondeu com a formação da Organização do Tratado de Varsóvia (também conhecida como Pacto de Varsóvia) – uma aliança política e militar criada em 14 de Maio de 1955 entre a União Soviética e vários países da Europa de Leste com o objetivo expresso de os defender da NATO. O Pacto de Varsóvia foi dissolvido em 1 de Julho de 1991 e, pouco depois, em 26 de Dezembro de 1991, a própria URSS seguiu o exemplo dissolvendo-se, mas a NATO continua a existir. Nessa altura, o Pacto de Varsóvia existia há pouco menos de metade do tempo de existência da NATO e a URSS há pouco mais do que isso. É evidente que a ameaça comunista como justificação para a existência da NATO não passava de um ardil, uma cortina de fumo… uma pista falsa.

Então, qual era o verdadeiro objetivo da NATO? Há muitas maneiras de responder a esta pergunta, mas a súbita queda da Ucrânia oferece o que é talvez a explicação mais clara.

  • Será que a guerra estava a arrastar-se? Não, o Pentágono ordenou exatamente uma combustão lenta, para poder acompanhar o ritmo frenético de entrega de armas e munições por parte da Rússia.
  • Será que a Ucrânia estava a perder a guerra? Não, a Ucrânia não estava a perder; simplesmente não estava a ganhar. Em particular, os seus ataques às linhas defensivas da Rússia, que as tropas russas apelidaram de “ataques de carne” por causa das perdas enormes e inúteis que sofreram no lado ucraniano, pareciam bastante inúteis.
  • Será que a Ucrânia estava prestes a ser derrotada? Novamente, não, os russos contentaram-se em avançar alguns quilómetros aqui e ali, com o objetivo principal de estabelecer uma zona tampão suficientemente ampla para que a artilharia ucraniana parasse de bombardear o que hoje são distritos civis russos.
  • Será que a NATO ficou sem armas e munições para dar aos ucranianos? Novamente, não, ainda há muita sucata semi-obsoleta que pode ser entregue aos ucranianos.

 

Então, o que é que os ucranianos fizeram para suscitar a ira do Pentágono tão repentinamente e, como consequência direta, cair em desgraça com a NATO? Em suma, os ucranianos demonstraram que as armas da NATO são uma porcaria. As evidências disso foram-se acumulando lentamente ao longo do tempo. Em primeiro lugar, descobriu-se que vários pedaços de sucata de armas portáteis de fabricação estado-unidense – Stingers antiaéreos, Javelins antitanque, etc. – são piores do que inúteis no combate moderno. Em seguida, descobriu-se que o obus M777 e o complexo de foguetes HIMARS são bastante frágeis e não podem ser mantidos no terreno.

A próxima arma maravilhosa lançada contra o problema ucraniano foi a bateria de mísseis Patriot. Foi instalada perto de Kiev e os russos rapidamente fizeram troça disso. Eles atacaram-na com os seus drones “ciclomotores voadores” Geranium 2 super baratos, fazendo com que ligasse o seu radar ativo, desmascarando assim a sua posição, e então disparasse toda a sua carga de foguetes – no valor de um milhão de dólares! – após o que a bateria apenas ficou lá, desmascarada e indefesa, sendo então abatida por um único ataque de um foguete de precisão russo.

Isto terá certamente irritado seriamente o secretário de Defesa dos EUA, Lloyd Austin, cuja principal fonte de rendimento é a Raytheon, o fabricante das Patriot. Sim, a Patriot provou ser inútil na Primeira Guerra do Golfo, onde falhou na proteção de Israel contra os antigos mísseis Scud iraquianos; e provou ser inútil mais tarde, quando falhou na proteção da instalação de petróleo saudita contra os antigos mísseis Scud do Iémen… mas não se deve publicitar esse facto. E agora isto!

E, cereja no topo do bolo, os tanques Leopard 2 doados pela Alemanha e os veículos de infantaria Bradley doados pelos EUA, para não mencionar os tolos (não-)tanques franceses com rodas, tiveram um desempenho absolutamente miserável durante os recentes esforços ucranianos para se aproximarem, quanto mais penetrarem, da primeira linha de defesa da Rússia. Para piorar a situação, Putin observou de improviso que os blindados ocidentais ardem mais facilmente do que os velhos blindados de fabricação soviética.

O último movimento desesperado seria dar à força aérea ucraniana (que, aliás, já não existe) alguns caças F-16 mais antigos. Estes caças podem ter até 50 anos de idade e têm a particularidade de terem uma entrada de ar muito próxima ao solo, tornando-os muito eficazes como aspiradores de pó durante a descolagem. Eles não podem operar nas pistas sujas e esburacadas que são típicas da Ucrânia porque os detritos seriam sugados para o motor e destruí-lo-iam. Se os ucranianos tentarem pavimentar novas pistas para eles, os russos detectariam isso instantaneamente a partir do satélite geossíncrono que está permanentemente apontado para o território ucraniano. Em vez de colocarem novas crateras de bombas nessas novas pistas, eles poderiam fazer algo mais subtil: usar um dos seus super-baratos Geranium 2 para espalhar aparas de metal para os motores do F-16 aspirarem… e arderem em pleno vôo. E como se trata de aviões monomotores, não há possibilidade de voltar com o motor que resta (que não tem): o piloto teria que catapultar e o avião despenhar-se-ia. Mas há uma razão ainda mais importante para que a ideia de dar F-16 para a Ucrânia seja impraticável: estes aviões podem transportar bombas nucleares e a Rússia já anunciou que veria esse passo como uma escalada nuclear. Mas provocar um conflito nuclear com a Rússia é uma não-possibilidade.

Porque é que o fracasso do armamento ocidental implacavelmente propagandeado é mais importante do que qualquer outra coisa, incluindo o estado cada vez mais terrível das finanças ocidentais, o ridículo fracasso das sanções anti-russas, o número obscenamente grande de baixas ucranianas ou a fadiga ocidental geral com tudo o que é ucraniano e especialmente com a inundação de refugiados ucranianos com os quais o Ocidente já não consegue lidar?

A razão é simples: a NATO não é uma organização defensiva (lembre-se, a URSS já desapareceu há mais de 30 anos); nem é uma organização ofensiva (bem, bombardeou a Sérvia e alguns outros países relativamente indefesos, mas não pode pensar em enfrentar a Rússia ou qualquer outra nação bem armada).

Em vez disso, a NATO é um clube de compradores cativos das armas fabricadas nos EUA. É disso que tratam as alardeadas normas da NATO, que a Ucrânia deve cumprir antes de ser considerada digna de ser convidada a ingressar na NATO: para cumprir essas normas, as suas armas devem ser maioritariamente fabricadas nos EUA. Essa é também a razão de todas as várias guerras escolhidas, da Sérvia ao Iraque, ao Afeganistão, à Líbia e à Síria: eram projetos de demonstração de armas dos EUA, com o objetivo adicional de esgotar as armas e as munições para que o Pentágono e o resto da NATO tivessem que fazer novas encomendas. As razões geopolíticas para estes conflitos militares são meros raciocínios. Por exemplo, entre 1964 e 1973, os EUA lançaram mais de 2,5 milhões de toneladas de bombas no Laos durante 580.000 missões de bombardeio – o equivalente a uma carga de bombas a cada oito minutos, 24 horas por dia, durante nove anos. Qual foi a lógica geopolítica? Ninguém consegue lembrar-se se alguma vez houve uma. Mas essas bombas estavam prestes a caducar e precisavam ser usadas e voltar a fazer novas encomendas para manter o dinheiro a fluir.

Em resposta a estes estranhos incentivos, as armas fabricadas nos EUA tendem a ser excessivamente complexas (para que os seus fabricantes possam cobrar mais pelas inúteis características extra) e bastante frágeis (nunca foram testadas contra adversários como a Rússia ou a China, ou mesmo contra o Irão), desenvolvidas lentamente (para fazer a limpeza do processo de financiamento de I&D), construídas lentamente (para que é a pressa?) e de manutenção exigente (para que os empreiteiros de defesa dos EUA possam enriquecer ainda mais fornecendo peças sobresselentes e serviços). Era suposto estas armas serem testadas com cuidado, dando o inferno aos membros da tribo atrasados armados com velhas Kalashnikovs e RPGs.

A Ucrânia é uma história completamente diferente. Ali, os ucranianos, com os seus armamentos ocidentais de segunda mão incompatíveis, estão a ser solicitados para penetrarem em três linhas de defesas russas endurecidas. Depois de cerca de um mês de esforços e perdas vertiginosas de homens e equipamentos, ainda não conseguiram chegar à primeira linha defensiva. A visão de blindados ocidentais em chamas não é uma boa propaganda. Consequentemente, os empreiteiros de defesa dos EUA devem estar muito ansiosos por acabar com esse fluxo constante de publicidade negativa para seus produtos – antes que suas reputações acabem completamente arruinadas; daí a indecorosa pressa com que todo o projeto ucraniano está a ficar órfão.

A alternativa à guerra ativa, agora que esta falhou, é aquilo a que no Ocidente se chama habitualmente “negociação”, mas que na realidade envolveria aceder às exigências russas feitas em Novembro de 2021 (que incluem a NATO fazer recuar as suas armas para onde estavam em 1997), além de exigências mais recentes, como desnazificação, desmilitarização e neutralidade do que resta da Ucrânia, reconhecimento das novas fronteiras da Rússia (que incluem as regiões da Crimeia, Kherson, Zaporozhye, Donetsk e Lugansk) e a instauração de processos judiciais contra todos os criminosos de guerra ucranianos, nomeadamente todos os que torturam prisioneiros de guerra e bombardearam civis desde 2014. Ah, e o levantamento de todas as sanções insípidas também seria necessário.

Mas isto é muito para absorver de uma só vez e, portanto, a NATO decidiu dividi-lo em muitos pedaços pequenos. O documento oficial da NATO acima citado é extremamente palavroso e cheio de floreados, mas uma leitura atenta de seu pomposos burocratês revelará um grande número de concessões, ou pelo menos insinuações de concessões:

– “Estaremos em posição de convidar a Ucrânia a aderir à Aliança quando os Aliados concordarem e as condições forem cumpridas.” Para usar um provérbio russo vernacular, isso acontecerá “quando um lagostim no alto de uma montanha assobiar” – ou seja, nunca. Ou seja, a Ucrânia nunca fará parte da NATO.

– “As circunstâncias em que a NATO pode ter de usar armas nucleares são extremamente remotas.” Tradução: Estamos a recuar! Por favor, não nos matem! Aparentemente, os chefes da NATO foram informados sobre as capacidades das novas armas estratégicas da Rússia, tanto ofensivas quanto defensivas, e não querem nem mesmo considerar qualquer tipo de confronto militar direto com a Rússia.

– “Apelamos a todos os países que não forneçam qualquer tipo de assistência à agressão da Rússia …” Tradução: gostaríamos que parassem, embora já tenhamos pedido várias vezes e eles não tenham ouvido e, portanto, não temos muita esperança de que eles vão ouvir agora.

– “O aprofundamento da parceria estratégica entre a RPC e a Rússia e as suas tentativas mútuas que se reforçam para minar a ordem internacional baseada em regras são contrárias aos nossos valores e interesses.” Mas o aprofundamento da parceria estratégica é totalmente congruente com os valores e interesses da Rússia e da China e estes não estão para pedir autorização a ninguém. Falar da “ordem internacional baseada em regras”, apesar de esta já não existir, é um pouco patético, mas o que é que lhes resta fazer? Que pena!

– “O aprofundamento da integração militar da Rússia com a Bielorrússia, nomeadamente a instalação de capacidades militares avançadas russas e de pessoal militar na Bielorrússia, tem implicações para a estabilidade regional e para a defesa da Aliança.” Bem, é exatamente isso que se pretendia com essa integração militar e é bom que se tenham apercebido disso. A implicação é que a NATO não voltará a meter-se com a Bielorrússia.

– “Continuamos dispostos a manter canais de comunicação abertos com Moscovo para gerir e mitigar os riscos, evitar uma escalada e aumentar a transparência.” São, de facto, boas notícias! Telefone para o Kremlin sempre que quiser ouvir uma recitação das exigências de segurança da Rússia, para refrescar a sua memória.

– “As ambições declaradas e as políticas coercivas da República Popular da China desafiam os nossos interesses, segurança e valores.” E os interesses e valores da NATO desafiam a RPC e a sua segurança, por isso estamos num impasse. Noutras notícias, a Rússia acabou de aprovar uma lei que proíbe todas as operações de mudança de sexo; como é que isso se ajusta com os “valores ocidentais”? Vá lá, abanem os vossos punhos minúsculos com uma raiva impotente!

– “A NATO não procura o confronto e não representa qualquer ameaça para a Rússia. À luz das suas políticas e acções hostis, não podemos considerar a Rússia como nosso parceiro.” E à luz das políticas e acções hostis da NATO, a Rússia considera os países da NATO como nações hostis (e certamente não como parceiros). Como é que dar armas aos nazis ucranianos não representa uma ameaça para a Rússia?

– “Reiteramos a nossa clara determinação de que o Irão nunca deverá desenvolver uma arma nuclear. Continuamos profundamente preocupados com a escalada do programa nuclear do Irão.” Portanto, o Irão é o único país a quem a velha e desdentada NATO ainda tem coragem de ladrar. Parece seguro, uma vez que o Irão já nem sequer os consegue ouvir.

 

E é assim que as coisas estão. A Europa olha com horror para os EUA, que continuam a ser o seu fornecedor de armas e o seu garante de segurança, mas que são chefiados por um velho senil que mal funciona, cujas explosões de fúria estão a fazer com que os membros do seu gabinete se afastem da Sala Oval, e cujo único substituto possível – a imbecil e cacarejante Kamala – dificilmente seria melhor. É possível que alguns dos líderes europeus mais lúcidos estejam a aperceber-se lentamente de que é preciso encontrar uma forma de sair do beco sem saída russofóbico, criado por eles próprios, em que se encontram agora, mas não vêem forma de o conseguir sem uma enorme perda de prestígio. Vamos esperar mais um ano e ver se, nessa altura, ainda têm uma cara para salvar.

 


[1] N.T. – O livro “Meditações”, de Marco Aurério (121 – 180), foi escrito por ele, em grego, como um diário pessoal. Foi publicado muito depois de sua morte. Não há menção certa às Meditações até o início do século X. Um historiador chamado Heródio parece ter referido-se aos escritos no III. O livro foi publicado originalmente, e por muito tempo permaneceu, sob o título “Para mim mesmo”.

 


O autor: Dmitry Orlov [1962-] é um engenheiro russo-estado-unidense e escreve sobre temas relacionados com o potencial declínio económico, ecológico e político dos Estados Unidos. Defende que o colapso dos EUA será o resultado do enorme orçamento militar, o défice, um sistema político irresponsável e a progressiva diminuição da produção de petróleo. Emigrou para os EUA quando tinha 12 anos e testemunhou o colapso da União Soviética. É licenciado em engenharia informática e mestre em linguística aplicada. É diretor no banco russo Vozrozhdenie. É autor do livro “Reinventing Collapse: The Soviet example and American prospects”.

 

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