CARTA DE BRAGA – “do virtual e das fronteiras” por António Oliveira

Não há muitos dias li, num sítio qualquer, que num futuro mais ou menos longínquo, os historiadores em volta da documentação utilizável destes tempos, iriam ficar embasbacados com a escravidão de um viver em frente dos ecrãs, por o poder real sobre as nossas vidas estar nas mãos das empresas tecnológicas e não nos estados, apesar da existência dos mecanismos que dispunham, para respeitar e acatar a vontade dos diferentes povos, dentro das fronteiras que também deviam respeitar.

Empresas aquelas que se construíram arrebatando a maior parte da soberania do estado e populações, por as determinações sobre as nossa vidas existidas a olhar ecrãs, serem tomadas em Washington, na Bélgica ou noutras capitais onde se ignoram as fronteiras que deveriam existir entre finanças e poder; se bem anotaram tais historiadores, até era o senhor Musk a decidir, urbi et orbi, a liberdade de expressão, seguido por um outro senhor, Zuckerberg de seu nome, criando, estabelecendo e retirando, quaisquer fronteiras aos seus domínios. 

Fronteiras cada vez mais indefinidas já hoje, tanto mais que aquele poder das TIC não deixa também de estabelecer limites e outras e novas fronteiras, aos valores que marcam e definem a nossa própria cultura. A fronteira sempre significou algum tipo de conflitualidade, uma separação entre povos e culturas, pois só se pode falar de fronteira se falarmos em descontinuidade, num corte entre os espaços físicos ou culturais. 

Aliás e há uns dias, também vi a fotografia, tirada algures, de um grafiti bem explícito, ‘A GLOBALIENAÇÃO DO CAPITACLISMO’; uma afirmação aparentemente a confirmar uma outra do historiador britânico Eric Hobsbawn, ‘O rompimento com o passado está na interiorização da tecnologia avançada das sociedades de consumo, que produz uma maneira de perceber o mundo como um eterno presente; ontem deixou de ser uma referência, excepto para fins biográficos pessoais’.

É o novo mundo do homo numericus, em que tudo se mede e quantifica, dando origem aos algoritmos para prever e orientar comportamentos, fazer os diagnósticos de situações que eles mesmos padronizaram e normalizaram, mas, acima de tudo, para poder fazer avaliações e apreciações. Um mundo a correr o risco de programas informáticos com capacidade de aprender por si mesmos, em que essa tal inteligência artificial, até me poderá criar algum receio, mas assumo também como sendo minhas, as palavras de um escritor e cronista, ‘Da maneira como estão as coisas, e por tantos já viverem na sua própria realidade virtual, não tenho muito medo de que, algum dia, nos domine a inteligência artificial. Será mais inteligente com certeza, que a nossa estupidez natural’.

No fundo, este escritor parece vir apenas confirmar Viriato Soromenho Marques, numa crónica do DN, referindo tal mundo, publicada já o ano passado, ‘Os grandes empresários do mundo digital e os líderes da arquitetura financeira global são donos não apenas do dinheiro, mas os engenheiros das mentes, dos mitos e das esperanças, criadas e difundidas pelos intelectuais orgânicos do optimismo tecnológico, como ópio para as massas. Os políticos estão ausentes, pois esta narrativa não inclui o pessoal menor. A condição humana é reduzida a uma galáxia de dados, que os algoritmos da IA, ajudam a explorar e domesticar’.

Palavras da salvação!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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