Aqui manifesto as minhas poucas esperanças e muitas angústias, no que respeita às capacidades reflexivas dos povos. Que diferente seria a humanidade se os povos fossem ensinados a reflectir! Que diferente seria a História se os povos tivessem sabido reflectir! O conhecimento, racionalmente aplicado, altera a vida no bom sentido, obrigando os indivíduos, as instituições e as organizações político-sociais, religiosas e económicas a reformular os seus conceitos e valores. Isto é extremamente importante no actual processo hegemónico da globalização, da irracionalidade, da desinformação, da hipocrisia e da mentira.
Se alguma eficácia esperamos das nossas intervenções e das nossas vidas, ela começa a surgir na consciência da indispensabilidade de um movimento de abrangência nacional e internacional que defenda a dignidade das pessoas e a qualidade de vida a que têm direito, e não a alienatória manipulação das mentalidades. A ética da educação social começa, antes de mais nada, pela profunda reflexão sobre as condutas humanas, que leve à criação de um amplo processo educativo capaz de fornecer critérios seguros para a reconstrução do tecido de uma sociedade esfacelada pela miséria, pela violência, pelo belicismo imperialista, pela corrupção, pela injustiça, pela impunidade e pelo individualismo.
Ao invés do pensamento de alguns intérpretes da pós-modernidade, penso que o altruísmo deveria estar na base do comportamento social. Só há sociedade humana solidária na medida em que cada indivíduo consagra uma parte do seu tempo, do seu saber e das suas energias em prol dos outros, em tarefas de interesse colectivo dignas desse nome, e não da alienação e da mentira colectiva. Este altruísmo, um tanto biológico na sua origem, constitui uma plataforma para a construção do altruísmo consciente, racional e moralmente indissociável da vida. As normas éticas são uma necessidade natural das sociedades humanas, embora saibamos que não há uma ética única, absoluta e universalmente válida. Se não nos consciencializarmos de que a educação é um direito de todos e não um optativo bem de consumo, volto a dizer, é ridículo pensar-se em qualquer ética, até porque o campo da educação é hoje disputado por muitos e diferentes interesses e contraditórias racionalidades políticas e religiosas, ditas pedagógicas, decorrentes do profundo enraizamento de muitos dos responsáveis, nos vícios, nos erros, nos interesses, nas fraudes e nos compromissos do sistema.