CARTA DE BRAGA – “do poderio às esplanadas” por António Oliveira

Esta reflexão é o resumo de algumas outras que alguém tirou de uma obra a expor o pensamento do sábio Confúcio, nascido no século VI a.C., sobre as condições exigidas a qualquer líder, O governante deve, acima de tudo, aperfeiçoar inteligência e carácter, para conseguir a virtude; se a consegue, tem o respeito do povo e, se o tiver, estenderá o poder a toda a região; então será fácil alcançar a prosperidade do Estado.

Dificilmente se lhe podem atribuir estas palavras, por a maioria dos seus ensinamentos ser apenas um conjunto de aforismos, publicados muitos anos depois da sua morte, mas permanecem na memória ética e política, e são citadas com frequência, mormente em épocas onde tais desideratos estão em crise profunda, como estão agora, (mesmo havendo gente que não se impressiona com filosofias neo-orientais!). 

Vem isto a propósito de uma entrevista feita por um jornal europeu a Steve Taylor, professor de História e Psicologia em Leeds e que, a determinada altura, cita os índios iroqueses norte-americanos, no lado contrário da China, mas igualmente sábios!

O seu sistema social democrático, inspirou os pais fundadores dos EUA, a Constituição e a revolução americana… que influiu na francesa!

– Alegremo-nos, então pela democracia’ comenta, em tom de pergunta, o jornalista.

– Mas hoje as nossas democracias transformaram-se em patocracias. 

– O que é uma patocracia? 

– A psicopatia dos nossos líderes políticos e empresariais está a deformar as nossas democracias até às patocracias. 

– Que psicopatia?

– Narcisismo, ambição pelo poder e dinheiro, caciquismo, afastamento da natureza, agressividade, violência…

– Cite-me líderes psicopatas.

– Boris Johnson, Putin, Trump, Orbán, Erdogan, Andrezj Duda… Espelhos de patocracias’.

Não podemos esquecer que o poder destes ‘senhores’ e de outros semelhantes ou afins, se deve maioritariamente ao controlo da imagem e dos meios de comunicação, que marca também a dimensão das suas autocracias; dimensão que vai muito além das fronteiras que as limitam, através da instantaneidade e vertigem da imagem, mas também pela recusa de muitas e diversas redes de transmissão e difusão de notícias, em respeitar os conceitos de democracia, preterindo-os em favor das fake news e da pós-verdade, como as maneiras ‘legitimadas’ pelo patocrata trumpa, que fez e faz delas o seu capital eleitoral. 

Aliás o filósofo holandês de origem judaico-portuguesa, Baruch Espinoza, já afirmava, em pleno século XVII, ‘Ninguém tem o direito de agir segundo os seus desejos e arbítrio, pois tem de obedecer incondicionalmente às leis, incluindo as mais absurdas; mas aquelas imagens e a falta de escrúpulos dos proprietários e activistas das redes, quaisquer que elas sejam, está a fazer de cada um de nós um ‘voyeur’ insensível, perante o sofrimento que elas vão vulgarizando, por ser transmitido no mesmo espaço, com a mesma emoção e com o mesmo vocabulário, com que é divulgada qualquer notícia sobre futebóis, modas ou gastronomia. 

Até acredito que, se todos esses ‘fanáticos de sofá’, tivessem oportunidade de fixar os olhos e as chagas de cada uma das vítimas de tais patocratas, saberiam entender melhor as razões do seu poderio, bem como a história dos homens estar cheia de proezas notáveis e de massacres terríveis, de que nenhuma cultura se poderá considerar inocente. 

Do poema que Cátia Mazari Oliveira, a ‘Garota Não’, escreveu para agradecer a atribuição do ‘Globo de Ouro’ para a Melhor Intérprete, da última edição organizada pela SIC, retirei os dois primeiros versos, que bem podem explicar aquele poder

“Vivemos o tempo dos Budas, das flores de plástico e das cómodas douradas,

 E rimos muito alto, por cima da música alta das esplanadas

 

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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