CARTA DE BRAGA – “da lenda do sapo” por António Oliveira

Já uma vez aqui escrevi, como a falta de tempo para as pessoas investirem em si mesmas, lendo, convivendo, partilhando experiências com outra gente, sem serem atrapalhadas pelas urgências que a vida hoje impõe, a ficar longe dos ecrãs e das apps impositivas com que nos vão comprando e distraindo, se transforma num processo urbano que nos isola, atomiza, e tem por fundo a competitividade que nos ‘ensinaram’ logo na escola, nas ruas que nos levavam a elas, ou traziam de volta a casa. 

Talvez por isso, estamos constantemente assolapados pelas campanhas de novas e predições viradas para o ‘amanhã’ e, as poucas que referem o passado, ‘Procuram fazer face aos problemas actuais com palavras de ordem do passado’, diz Luís Castro Mendes numa das suas crónicas no DN, mas acrescentando depois, ‘É inteiramente justo e pertinente, mas há uma dimensão muito perigosa nesta atitude, que é a introdução do esquecimento. E no vazio desse espaço de esquecimento, há muitos riscos que se correm’, mais salientado, ‘O vácuo da memória corre o perigo de ser ocupado por fantasias e insídias. Ou por saudosismos imerecidos’. 

O percurso de cada um, a sua própria história, terá como parte fundamental daquilo que nos distingue da natureza a dignidade por ser exclusivamente humana. Não são minhas estas palavras, fui buscá-las a uma das maiores fontes de conhecimento humano, a Kant, que a afirma como a capacidade do ser humano em perceber e entender, em si mesmo e nos outros, a capacidade de agir de acordo com a razão e com autonomia. 

Nada nem ninguém, dizia Kant, poderá condicionar ou violar a dignidade, seja qual for a circunstância, por a dignidade ser inerente à condição humana, isto é respeitável e digno por ser humano, e humano por ser digno.

Vem isto a propósito de uma antiga lenda que ouvi há muitos anos, e me recordaram há umas semanas, ‘A lenda do sapo’, que também me atrevo a contar aqui, mesmo sem a riqueza de vocabulário simples com que a ouvi.

Dois compadres da aldeia andavam a caminho da feira, um deles a puxar uma vaca pelo cabresto, que lhes impunha um passo pausado, aproveitando eles para falar da vida e das agruras dos tempos. Numa poça de água a meio do caminho depararam-se com um sapo e o da vaca, não escondeu um gesto de nojo. O outro, se calhar para o picar, atira-lhe ‘O sapo é um animal como qualquer outro! 

– E eras capaz de comer esse sapo, mesmo bem cozinhado?’ pergunta o da vaca. 

– ‘Até comeria se tivesse necessidade’. 

Discutem e, como seria de esperar, acabam por perder o juízo e o da vaca desafia, ‘Até te dou a vaca se fores capaz de o comer!

O outro fazendo das tripas coração, mas avalentoado pela cobiça e de olhos fechados, agarrou o bicho e começa a comê-lo, pelas patas. O da vaca, ao ver aquilo e a pensar que ia ficar sem o animal, ‘Tornas a dar-me a vaca se eu comer o resto do bicho?

O outro aceita e logo lhe mete no boca o bocado que ainda tinha na mão, e ele acabou por comer ultrapassando o nojo. 

Voltam ao caminho, calados, mas uma meia hora depois, param, olham um para o outro e perguntam-se apalermados, ‘Porque é que comemos o sapo’, antes de voltar a tomar o caminho da feira”?

Cada um dos leitores tirará a conclusão que mais lhe aprouver, mas tendo em atenção que lendas, fábulas e as metáforas se baseiam na linguagem figurativa, para falar de uma situação qualquer em vez de outra, e faz delas uma poderosa ferramenta na comunicação, pois usando estórias e linguagem comuns, podem explicar e fazer entender outras situações, desde a poesia, à literatura e até à política e religião; transformam assim a complexidade dos conceitos em ideais mais simples, para ajudar a reflexão e interiorização; são imensos os exemplos que aqui poderia deixar, referindo qualquer destas áreas, mas serão, com toda a certeza, do conhecimento de todos. 

Com elas, tudo fica a depender da imanência, a qualidade ligada ao mais íntimo de cada um, apenas o essencial que define os seres humanos, a fazer com que cada uma das suas acções, saindo também de cada pessoa, também vá terminar nela, transformando-a numa parte muito importante do colectivo, com o qual tem de partilhar experiências e emoções, por ser parte de uma sociedade, onde a dignidade é também ao fundamento da liberdade. 

Termino com mais uma citação de Kant, ‘Cada coisa tem o seu valor; ser humano, porém tem dignidade’.

Qual é o valor dela, nos tempos actuais e pensar em tudo o que vemos, ouvimos e lemos?

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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