CARTA DE BRAGA – “a bom entendedor” por António Oliveira

Na Argentina, ‘El Loco’ toma posse como presidente, no Médio Oriente, ‘A Loucura’ faz da terra um cemitério de crianças em montes de ruínas, um ‘Insensato’ que constrói carros eléctricos, e não aceita falar com quem trabalha para ele, quer mandar no mundo e arredores, na Rússia, Navalny (o líder da oposição a Putin) em paradeiro desconhecido, depois de ser mudado da prisão onde cumpria pena, por ser oposição,  e os ‘states’, país que foi a garantia da democracia deste lado ocidental do planeta, não sabe como segurar a sua, isto só para falar de gente maior.

Convém lembrar que já passaram alguns anos, desde que o filósofo alemão Jürgen Habermas vaticinou o século XXI como o ‘século do outro’, augúrio que agora parece bem fora do contexto, a ver pelos trumpasborisboçalnaros, mileis e outros demais autocratas mesmo sem lhe pôr os nomes, alguns à frente de países ou de instituições, bem como toda aquela ‘maralha’ onde poderemos encontrar, cabeludos, cobóis, racistas, supremacistas, ultranacionalistas, jihadistas, claques e outros abencerragens, com cargos maiores ou menores, mas bem notórios pelo tamanho que devem ter os seus umbigos, ou pelos panos que ostentam, a que até chamam bandeiras. 

A grande maioria dispõe, gratuitamente, de meios para amplificar os seus medos ou as suas manias, criar ‘grupos de amigos’ que até servem sempre para fazer barulho quando lhes for conveniente, principalmente para atacar rivais, adversários ou concorrentes, seja qual for o campo do seu interesse, dos futebóis às ideologias. 

Não quero falar nos problemas que, obrigatoriamente, se levantam a um viver democrático, mas ficar-me apenas na frágil noção do que é viver em sociedade, onde a participação e a partilha têm importância primordial, por serem a base da socialização, onde só somos quando o outro o for também. 

Nas palavras de Jack Lang, antigo ministro da Cultura e da Educação Nacional em França, numa entrevista há muitos meses ao DN, ‘É o cinismo, a duplicidade e malicia e também a inteligência dessas plataformas que me preocupa. Elas são muito fortes’ e, para não sair do mundo francófono, lembre-se que Victor Hugo escreveu amiúde sobre a maldade; e não resisto a transcrever duas das suas sentenças, ‘Verdade ou não, o que se diz dos homens ocupa, por vezes, tanto lugar na sua vida, sobretudo no seu destino, como o que eles próprios fazem’, mesmo até por vermos como ‘As tendências causaram mais danos que as revoluções’.

Não demos esquecer, que estes são tempos onde é rotineiro o uso e abuso da ignorância, da solidão, da exclusão social e da incerteza, agora a alastrar em tudo o que é órgão de informação ou rede social, onde a desinformação e o catastrofismo, fazem a maioria das notícias e enchem páginas, arredando a comum dos mortais da prática e do pensamento políticos, quando o viver em sociedade é essencialmente político, preferindo eles a sem razão do domínio das emoções, que um qualquer esperto atilado não tardará em aproveitar. 

Não me admiram as palavras do premiado escritor Álvaro Bermejo, referindo o ambiente em que vivemos, ‘Hoje, uma Europa idiotizada, rendida ao maniqueísmo mais pueril, à banalidade do mal e a uma pieguice amnésica, condena tudo o que ela mesma proporcionou’, esquecendo aquilo que alguém afirmou um dia, ‘Todos somos estrangeiros em algum lugar’. 

Não há muitos tempo, li também um artigo de Víctor Sampedro Blanco, catedrático de Comunicação Política, afirmando, e com conhecimento de causa, ‘Os propagandistas mais ladinos, com um agora sem freio, disfarçam as intenções persuasivas, escondem os seus financiadores e destroem a reputação das siglas eleitorais; em última instância, estes presstitutos burlam-se do público, vendendo-se a quem melhor lhes paga’, justificando a dureza do termo usado pela abundância das situações. 

Estamos a viver em permanência, uma quantidade de acontecimentos, a parecer até dar razão a Bertolt Brecht, ‘Tempos difíceis em que temos de lutar pela verdade mais evidente, como se fosse uma revelação inédita e desafiante’, com todo o mundo a olhar para nós. 

Lembro-me de ainda de também ter lido um dia, o conto do poeta, escritor e cineasta, Alejandro Jodorowsky, em que o protagonista sempre se olhava ao espelho com os olhos meio cerrados, por não gostar que um desconhecido lhe entrasse na intimidade. 

Já agora e, para terminar, podem pensar a quem poderia servir essa solução! 

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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