Quando a discussão deste problema começou a ser pertinente –se acabariam os jornais ou não–, na década de 90 do século passado, estava na Escola Superior de Jornalismo, onde fui professor durante 10 anos, e recebiam-se ali cerca de 100 matrículas cada ano, visando licenciaturas rádio, televisão e imprensa, esta com uma variante de imprensa empresarial, propiciando o acesso à publicidade e ao marketing.
Estávamos bem longe de imaginar ‘a grande falácia da inevitabilidade tecnológica, em que os seus defensores sugerem um percurso inevitável e pré-determinado’ nas palavras de Josep Maria Ganyet, engenheiro informático especializado em IA, ‘por ser uma argumentação que menospreza os papel dos humanos, tanto no desenvolvimento, como na adaptação e na utilização’.
Além do mais, era uma época em que todos os valores estavam em questão, Abril ainda não estava muito longe, havia o poder da imaginação, da realização e do próprio percurso, pessoais e únicos, procurava-se o êxito, o triunfo, a busca de si-mesmo. A geração a seguir, a da primeira década deste século, já foi marcada pela capacidade aquisitiva, depois a sobrevivência e, a seguir, a precariedade. Naquela altura até nos podíamos equivocar, falhar e voltar a tentar, coisas que agora não são toleradas!
Só que, acreditava-se então, a dignidade era o que nos distinguia da natureza, a única qualidade exclusivamente humana, e que nos permitia agir sempre de acordo com a razão e a autonomia. Uma verdade kantiana que todos conhecíamos, mesmo que Kant já nos estivesse bastante distante, ou mesmo esquecido.
De qualquer maneira, a opção pela imprensa ainda era maioritária, por se acreditar no poder da leitura e no valor da palavra escrita, da maneira como se escrevia. e até da importância das vírgulas, que lhe podiam aumentar o peso e a dimensão, por a palavra não viver quase nunca sozinha. Estávamos bem longe de imaginar a situação destes dias, pois contam-se por centenas o desaparecimento de órgãos de comunicação nacionais e regionais, bem como de quiosques e livrarias, onde eles também se vendiam.
Mas esta crise parece também estar a afectar grande grupos de comunicação, pois há poucas semanas, segundo a Oxfam Internacional, ‘dezassete organizações resultantes de fusões de empresas globalizantes de variados sectores, também possuidores de 41,16 biliões de dólares, aumentam capital e poder com as inversões em indústrias, meios de comunicação, comércios e complexos militares-industriais’, a maioria dos quais com sede em sítios longínquos e com difícil identificação, como se nota neste parágrafo da crónica de uma jornalista do DN sem receber pagamentos de trabalhos desde Novembro, ‘Ainda em Outubro, quando os novos administradores, presididos pelo representante do novo acionista maioritário do GMG, um fundo financeiro internacional sediado nas Bahamas intitulado “World Opportunity Fund” e do qual nada se sabe (perguntámos aos administradores e ficámos na mesma), falaram com a redação, garantiram-nos que vinham para investir e não para “cortar nas pessoas”’.
José Antonio Gómez, director do Diario 16, daqui ao lado, salienta num editorial, ‘As grande corporações, aquelas que evadem milhões de euros em impostos, através da sua domiciliação em paraísos fiscais, evitam o pagamento de maiores salários aos seus empregados, com a desculpa de carecerem de recursos para tal’, enquanto um estudo do Instituto de Estudos Políticos de Washington, anunciava que a brecha salarial nessas empresas era de 1 para 603, sendo o primeiro o que receberia o empregado e o segundo número o que corresponderia ao administrador.
Martin Wolf, o especialista económico do Financial Times, descreve assim a questão, ‘A democracia e o capitalismo são um matrimónio de opostos complementares. Têm necessidade um do outro, mas estão em tensão. O que saiu mal é termos sido complacentes durante muito tempo. A globalização, as novas tecnologias e a crescente desigualdade, foram acompanhadas por mudanças social e culturais que abalaram a confiança da gente na democracia’.
Questão que está a ultrapassar a dimensão do próprio jornal, a ver por estas palavras de Guilherme d’Oliveira Martins, numa crónica ali publicada, ‘Invocar a importância da história e da continuidade de uma instituição como o Diário de Notíciasnão tem por isso a ver com argumentos nostálgicos, mas como a exigência cívica e pedagógica de uma sociedade civil ativa. Precisamos de jornais livres, abertos e interventivos, com profissionais dignificados, como parte integrante da civilização’.
Como também pelo que ali também escreve o ex-embaixador e poeta Luís Castro Mendes, ‘Dizer que escrevendo este artigo estou a contribuir para que o “meu” jornal, o Diário de Notícias, vença a luta que está a travar, seria da minha parte ingénuo e presunçoso. Mas acontece que, ao escrevê-lo, fui movido por um sentimento imperativo, por um dever moral, que, mesmo sem consequências práticas previsíveis, me interpelava e dirigia…’
Volto a Martin Wolf, pela resposta dada a um repórter que o interrogou sobre os media e as novas tecnologias, ‘Bom, sempre digo às pessoas que, excepto os media públicos, afinal somos um negócio e temos de ganhar dinheiro. Se há um mercado para a estupidez, se oferecerá estupidez. Desta maneira atá se poderá dizer que os media estão a ter êxito’.
Não posso, nem devo, terminar esta Carta sem uma palavra de esperança para todos os meus antigos colegas –alguns até ex-alunos– contida nesta afirmação do filósofo, músico, escritor e Prémio Concourt, Pascal Quignard, ‘Nós, os humanos, continuaremos a compor elegias ainda mais tristes que as que possa conceber uma máquina’.
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor