Li, há já alguns dias, um estudo e previsão da população deste planeta, lá para o ano de 2050. O estudo começa por apresentar a visão actual de cada continente, com base na idade média dos seus habitantes –em África a idade média é de 19 anos, nos EUA é de 39 e na Europa é de 44-; destes números e, como é facilmente entendível, a demografia vai marcar inevitavelmente, o rumo social e político dos próximos anos e, no final deste século.
Para melhor se entender a dimensão do problema, o estudo acrescenta que no tal ano chave de 2050, a população em África atingirá os 2.500 milhões, os EUA crescerão um pouco mais até aos 390 milhões e a Europa decrescerá até aos 450 milhões; a América Latina subirá até aos 800 milhões, enquanto se prevê que a China vá perder 100 milhões e fique nos 1.310, enquanto a Índia, ao mesmo tempo, se tornará o país mais populoso do planeta, com 1.700 milhões de habitantes.
Basta comparar os números, as distâncias e as oportunidades, para se perceber como o envelhecimento da população e a chegada massiva de gentes de outras zonas terrestres, aqui à Europa, poderá equilibrar a demografia, mas e ao mesmo tempo, se vai transformar num factor fundamental para a actividade económica, pese embora a forte reacção que tal chegada possa provocar nos partidos ligados, próximos ou mesmo da extrema-direita, tanto na Europa como no resto do planeta.
Agora, e se pensarmos noutros países como os EUA com Trump, numa Argentina com Milei, num Reino Unido com Sunak, numa Holanda com Wilders, numa Hungria de Orban, numa Itália de Meloni, numa França com Le Pen, com os demais ‘figurões’ à espreita por esta Europa e resto do mundo fora, também se poderá ver como a União Europeia, no plano político que acabou de aprovar, pretende fortalecer uma política de migração com base numa atitude humanitária e segura, mas a atitude destes países, a que se juntam a Alemanha e a Finlândia, não permite grandes sonhos nem ilusões.
Na sempre citada Alemanha do Holocausto –agora com impensáveis e, mesmo inimagináveis, seguidores–, no passado dia 13, o partido ultra AfD reuniu-se com grupos nazis num hotel, para concertarem a expulsão de milhões de emigrantes, num programa a ser aplicado se aquele partido alcançar o poder, programa que, um dos seus líderes apresentou mesmo como o caminho para a “remigração”, ou seja a limpeza étnica de elementos estrangeiros.
Também não podemos esquecer que estas questões, vão ser temas fundamentais nas eleições europeias do próximo Junho. Os muros que se tentarão levantar, a juntar à dependência e vulnerabilidade da economia e das sociedades europeias, poderá vir a marcar definitivamente as argumentações democráticas, cívicas e culturais de todas as candidaturas.
Convém ter em atenção que desde os anos 70, afirma o cronista Nuno Ramos de Almeida no DN, ‘Os pensadores neoliberais e as classes proprietárias, interessadas em reduzir a força dos sindicatos e dos trabalhadores na distribuição do rendimento, construíram uma nova hegemonia. Este processo de dissociação total entre economia e democracia, através da globalização e da integração europeia, da democracia e da economia, provocou um lento apodrecer das instituições democráticas e uma ideia de impotência da democracia para resolver os problemas das pessoas. Independentemente de em quem votem, as decisões económicas são sempre as mesmas e servem, preferencialmente, determinadas elites políticas e económicas’.
E Ramos de Almeida pormenoriza, ‘De um lado, teríamos as supostas elites, todas confundidas e misturadas, políticos e intelectuais, os imigrantes e as pessoas que não são “da nossa cultura e raça”, e, do outro lado, o povo de bem’.
De qualquer maneira, também é conveniente nunca esquecer, que grande parte da população se move pelo sentimento, e é exactamente nessa parte afectiva, que a maioria daqueles candidatos vai ‘actuar’, e não se pode considerar uma anormalidade, que um qualquer ‘figurão outsider’ venha a ter a parte que caberia ao leão, até por essa mesma “grande parte” da população europeia, viver em situação de considerável precariedade. Como exemplo, em Novembro passado, os jornais divulgavam uma situação social preocupante, ‘O número de pessoas em risco de pobreza em Portugal aumenta para 17% em 2022, quase 1 800 000 pessoas’; de que maneira é que se vai falar destes temas para toda esta gente, aqui ou outra na mesma situação, lá fora?
E Aimar Bretos, jornalista e radialista em Madrid, deixa-nos uma pergunta sobre um tema tão complicado lá como cá, mas a reflectir e pormenorizar estas situações, bem como as suas temíveis consequências, ‘O mesmo sistema que tem os jovens de 30 anos sem poder sair de casa dos pais, pagando-lhes misérias, sem lhes dar hipotecas e garantir o acesso a um apartamento de aluguer sem ser a preços insultantes, vai ter a ousadia de pedir a esses jovens para pensarem ter filhos antes?’; são estas as questões próprias daquela parte afectiva, onde os tais figurões irão actuar.
Voltando ainda a Novembro e, a propósito, li também num sítio qualquer, uma verdade insofismável, ‘Esta sociedade cria incerteza e um ambiente em mutação permanente, de energias dispersas que nos arrastam daqui para acolá e, por vezes, nem sabemos o que fazemos nem porque o fazemos. Vivemos num estado de credulidade sobre o que nos contam os grandes órgãos de comunicação, e do para quê de tudo isso!’
Mas não podemos nem devemos esquecer o tal Junho que aí vem; até lá, eles todos também vão palavrear, e muito, disto tudo!
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor